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Para Curar um Mundo Fraturado

A Ética da Responsabilidade

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Autor(es): Jonathan Sacks
Editora: Sêfer
SKU: 9883
Páginas: 354
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Este livro é um chamado à sociedade para que caia em si, para que volte à razão, pois a ética diz respeito à vida que vivemos em conjunto e ao bem que só existe quando compartilhado.
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Para Curar um Mundo Fraturado

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Um dos conceitos mais característicos e polêmicos do judaísmo é sua ética da responsabilidade. Porque recebemos a dádiva da liberdade, é nosso dever honrar e engrandecer a liberdade de outros. Nenhuma outra geração foi tão estimulada a acreditar que a única fonte de significado é a satisfação das necessidades individuais. O Rabino Sacks mostra aqui o profundo engano contido nessa crença. A ética diz respeito à vida que vivemos em conjunto, ao bem que só existe quando compartilhado.

A argumentação construída pelo Rabino Sacks expõe a dimensão do seu comprometimento com a condição humana e reflete a riqueza do seu conhecimento. Ele fala de Sigmund Freud ou Karl Marx com a mesma autoridade com que cita e comenta a Bíblia Hebraica. Para Curar um Mundo Fraturado é seu chamado à sociedade para que caia em si, para que volte à razão.

Máximas do saudoso Rabino Sacks

Extraído do livro Para curar um mundo fraturado

Passei boa parte da minha vida refletindo sobre a vida, observando pessoas, lendo livros, procurando professores e modelos, tentando distinguir entre o que realmente importa e o que apenas parece importante em dado momento. Eu não aspiro à sabedoria, mas aprendi que:

cada um de nós está aqui por um propósito; descobrir qual é esse propósito requer tempo e honestidade, autoconhecimento e conhecimento do mundo à nossa volta. O propósito existe: só precisa ser descoberto.

Cada um de nós possui uma constelação única de talentos, um raio de ação que é só nosso e, dentro dele, pequeno como uma família ou amplo como um Estado, temos a capacidade de ser uma presença transformadora;

o lugar onde o que nós queremos fazer se encontra com o que precisa ser feito é o lugar onde Deus quer que estejamos;

mesmo o menor ato de bondade pode mudar a vida de alguém;

importante não são as honrarias que recebemos, mas a honra que damos;

o que conta não é a riqueza que acumulamos, mas o quanto partilhamos daquilo que temos;

as pessoas que passam pelo menos uma parte de suas vidas atendendo as necessidades de outras são as pessoas mais felizes e realizadas que conheço;

o maior presente que podemos dar aos nossos filhos é deixar que eles nos vejam fazendo um sacrifício em nome de um ideal;

as religiões alcançam seu nível mais elevado quando param de se preocupar com as almas das pessoas e passam a cuidar das necessidades físicas dessas pessoas;

nenhuma religião que persegue outras é digna de respeito, e nenhuma religião que condena outras merece admiração;

nós honramos o mundo que Deus criou e chamou de bom ao procurar e honrar o bem que existe nos outros e no mundo;

uma conduta pouco ética não traz compensações. A curto prazo, pode até haver algum ganho, mas, no longo prazo, a perda é certa ? e o que importa é o longo prazo;

a saúde moral não é menos relevante para a qualidade de vida que a saúde física;

um elogio pode dar significado à vida de alguém;

menosprezando outros, nó nos tornamos menores; engrandecendo-os, nós nos elevamos;

o mundo é um livro no qual nossa vida é um capítulo. A questão é se nosso capítulo inspirará o leitor;

cada dia é uma pergunta que Deus nos faz;

nenhuma situação é acidental: estamos aqui, agora, neste lugar, em meio a estas pessoas, nestas circunstâncias, porque temos uma ação a realizar ou uma palavra a dizer que restabelecerá uma das fraturas do mundo;

poucos são os dias em que não podemos fazer diferença na vida de alguém; o valor de uma pessoa não precisa ser visível para angariar respeito;

os melhores são aqueles que fazem o bem sem pensar em recompensa, que entendem que ajudar os outros é um privilégio, antes mesmo de ser uma oportunidade;

o cinismo diminui a pessoa que faz uso dele;  

atender aos próprios interesses nada tem de interessante;

não é o mais rico ou poderoso, ou bem-sucedido ou aquele que se julga importante, que faz a maior diferença ou que desperta mais amor;

a dor e a solidão são formas de energia que podem ser transformadas se revertidas e usadas para amenizar a dor e a solidão do outro;
as pessoas que deixam mais saudade são aquelas que trouxeram esperança às nossas vidas;

a capacidade de dar é uma dádiva;

nós podemos fazer diferença, e é somente fazendo essa diferença que resgatamos uma vida, erguendo-a daquilo que é mera existência e revestindo-a de glória;

aqueles que dão aos outros são o que encontraremos de mais próximo à Presença Divina nesta nossa breve vida na terra;

a melhor maneira de receber uma bênção é ser uma bênção;

se ouvirmos com a devida atenção - e ouvir é uma arte que requer longo treino e muita humildade, - escutaremos a voz de Deus no coração humano nos dizendo que há trabalho a ser feito e que Ele precisa de nós.

Agradecimentos

Parte 1: Um chamado à responsabilidade

Capítulo 1    A ética da responsabilidade
Capítulo 2    Religião como protesto
Capítulo 3    Caridade como justiça
Capítulo 4    Amor como ação
Capítulo 5    Santificando o Nome
Capítulo 6    Consertando o mundo
Capítulo 7    Como uma só alma
Capítulo 8    A bondade de estranhos
Capítulo 9    Responsabilidade social

Parte 2: A teologia da responsabilidade

Capítulo 10    O nascimento da responsabilidade
Capítulo 11    Iniciativa Divina, iniciativa humana
Capítulo 12    O sagrado e o bem
Capítulo 13    A imaginação monoteísta
Capítulo 14    A confiança de Deus
Capítulo 15    Redimindo o mal

Parte 3: A vida responsável

Capítulo 16   Transformando o sofrimento
Capítulo 17   A teoria do caos e a virtude
Capítulo 18   O tipo de pessoa que somos
Capítulo 19   Quem sou eu?
Capítulo 20   Sonhos e responsabilidades

Notas

 

A ética da responsabilidade


“Quando contemplo Teus céus, obra dos Teus próprios dedos,
vejo a lua e as estrelas que criaste, e me pergunto:
o que é o ser humano para que dele Te lembres?
E o filho do homem, para que o consideres?
Entretanto, pouco menos que os anjos o fizeste
e de glória e esplendor o coroaste.”
Salmos 8:4-6

“Ser humano significa ser consciente e ser responsável.”
Viktor Frankl1

Um dos conceitos mais característicos e estimulantes do judaísmo é sua ética da responsabilidade, a noção de que Deus nos convida a ser, segundo a expressão rabínica, “Seus sócios na Criação”. Deus, que criou o mundo com amor, com amor nos chama a criar. Ele, que nos presenteou com a liberdade, pede que a usemos para honrar e ampliar a liberdade de outros. Deus, o Outro supremo, pede para estendermos a mão ao outro humano. Mais do que interventor estratégico, Deus é  professor. Mais do que simplesmente atender a nossos anseios, Ele nos ensina como fazê-lo. A vida é o chamado de Deus à responsabilidade, e este é o tema do livro.

Como nunca registrado em gerações anteriores, a nossa vê no indivíduo a fonte única de significado. Os filamentos do tecido de conexão entre as pessoas, fios que mantinham unidas famílias, comunidades e sociedades, se debilitaram. Nós nos tornamos seres solitários em busca da realização exclusivamente pessoal. Mas deve haver algum engano aqui, porque uma vida isolada não passa de meia vida. Uma vida gasta na procura da satisfação dos próprios desejos não é satisfatória e nunca traz tudo aquilo que desejamos. É essencial, portanto, nos lembrarmos da ética, a ética que faz parte da vida vivida em conjunto e das benesses compartilhadas – benesses que só existem pela virtude de serem compartilhadas.

Este é um dos insights do judaísmo presentes em todas as épocas. Por exemplo: em 1190, Moisés Maimônides, o grande rabino da Idade Média, publicou O Guia dos Perplexos, a mais desafiadora obra de filosofia judaica já escrita. Nela, Maimônides discute os grandes temas do pensamento religioso, como a existência de Deus, os limites do conhecimento humano, a questão do mal e os porquês dos mandamentos. É um trabalho de extrema complexidade. Ainda assim, no último capítulo, o autor sumariza seus ensinamentos com a seguinte citação do Livro de Jeremias:

“Assim disse o  Eterno: 
Não se glorifique o sábio por sua sabedoria,
nem o forte por sua força,
nem o rico por suas riquezas!
Antes, se glorifique em Me entender e em Me conhecer,
e saber que Eu sou o Eterno, que pratico misericórdia, 
retidão e justiça na terra;
porque nisto Me deleito – diz o Eterno.”
Jeremias 9:22-23

É comovente para mim o fato de Maimônides concluir sua jornada através do universo intelectual com esta simples afirmação de bondade, justiça e integridade. Não podemos conhecer Deus, implica o comentário de Maimônides (“Se eu pudesse entendê-Lo”, disse certa vez um escritor judeu, “eu seria Ele”). Mas podemos agir como Ele. Dentro dos limites da inteligência humana, dispomos dos atributos para galgar ao menos uma parte dos degraus que ascendem aos céus. Mas o propósito da subida é o retorno ao mundo que habitamos, cientes de que Deus nos quer aqui, no lugar onde Ele nos deu trabalho a fazer. O judaísmo tem mistérios. Seu propósito supremo, porém, nada tem de misterioso. É honrar a imagem de Deus nos outros seres humanos e, assim, transformar o mundo em um lar para a Presença Divina.

Maimônides viveu aquilo que ensinou. Valorizava a solidão e a meditação e escreveu com eloquência sobre esses temas. Disse que, somente quando distanciada do cotidiano, a alma pode alcançar uma união intelectual com o Autor da existência. Durante os últimos anos de sua vida, dedicou-se à medicina (era médico do sultão no Cairo e mantinha um movimentado consultório em Fostat, sua cidade, atendendo a judeus e não-judeus) e à liderança comunitária. Reconhecido como a maior autoridade em judaísmo egípcio, respondia a questões que lhe eram enviadas de comunidades espalhadas por todo o mundo. Quando o erudito provençal Samuel ibn Tibon quis visitá-lo em busca de orientação para traduzir O Guia dos Perplexos do árabe para o hebraico, Maimônides mandou a ele uma carta descrevendo sua rotina semanal, na qual mal havia tempo para fazer uma refeição e, menos ainda, para discutir aspectos técnicos de uma tradução. Esse episódio é um retrato tocante da vida do grande filósofo, devotando seus dias a curar os doentes, a guiar os membros da comunidade, com eles rezando e estudando, tão preocupado tanto com a saúde física quanto à saúde espiritual deles.

Quando os discípulos do Rabino Chayim de Brisk (1853-1918), o maior talmudista do final do século 18, pediram a seu mestre que definisse a tarefa de um rabino, ele respondeu: “Aliviar a dor daqueles que estão sozinhos e abandonados, proteger a dignidade do pobre e salvar o oprimido das mãos do opressor.”2 Quase sempre endividado, dava a maior parte de seus ganhos aos necessitados. No inverno, deixava destrancada a porta de sua madeireira para que os pobres da cidade pudessem apanhar lenha sem ter que passar pela humilhação de pedi-la. Quando outros comerciantes de madeira, não judeus que integravam a liderança política local, se queixavam do prejuízo que isso lhes causava, o rabino respondia que estava economizando dinheiro para a saúde pública. De outra maneira, seria obrigado a passar frio e fatalmente apanharia uma pneumonia, porque não poderia acender o fogo em sua própria casa sabendo que, em outras, os pobres não tinham como se manter aquecidos.

O judaísmo é uma fé complexa e cheia de sutilezas, mas raramente se afasta de seus simples imperativos éticos. Nós estamos aqui para fazer diferença, para corrigir as fraturas do mundo. Um dia por vez, um ato por vez, pelo tempo que for preciso para fazer do mundo um lugar de justiça e compaixão onde os solitários não estejam sós e os carentes encontrem ajuda; onde a súplica do fraco seja atendida e os injustiçados sejam ouvidos. “As necessidades físicas de outra pessoa são minha obrigação moral”, ensinou um místico judeu.

As verdades da religião são elevadas, mas seus deveres estão ao alcance da mão. Nós aprendemos sobre Deus emulando-O, mais do que o contemplando. Não se escolhe entre acreditar e agir, pois é por meio das ações que expressamos nossa fé e fazemos dela uma realidade presente na vida de outros e no mundo.

A ética judaica tem os pés no chão. Se alguém precisa, dê. Se alguém está só, convide-o para ir à sua casa. Se alguém que você conhece perdeu um ente querido, vá visitá-lo e conforte-o. Se souber que alguém perdeu o emprego, faça tudo o que puder para ajudá-lo a encontrar outro. Nossos Sábios chamavam a essa conduta “imitar Deus”. Eles foram além, ensinando que hospedar um estranho é “ainda maior do que receber a Presença Divina”. Isto é religião em sua expressão mais humanizada e humana.

O judaísmo também insiste que a vida ética é uma forma de celebração. Fazer o bem nada tem de doloroso, não é o encargo oneroso que, cumprido, alivia a consciência em conflito. Existe uma palavra hebraica, um termo-chave da Bíblia, para o qual não há tradução precisa: simchá, normalmente usado como “alegria”. Mas simchá, na realidade, significa a felicidade compartilhada, ou melhor, a felicidade que fazemos existir porque a compartilhamos. Uma das grandes reafirmações de dignidade individual e responsabilidade, o judaísmo também é uma fé intensamente coletiva, pública, e não simplesmente a questão da alma solitária à procura de Deus, ou “o voo do sozinho ao Só”, nas palavras de Plotinus. É dividir o que vemos como nosso; entender aquilo que temos não como propriedade pessoal, mas como pertences que guardamos em confiança, sob a condição de que parte deles seja usada para auxiliar os outros. Isto não é sacrificar-se. Se há alguma coisa que tenho ouvido mais frequentemente do que qualquer outra por parte daqueles que doam uma parcela de seu tempo em benefício de outras pessoas é que recebem muito mais do que dão. Não querem que lhes agradeçam. Querem agradecer. Encorajando outros, descobrem-se eles mesmos encorajados.

A ética da responsabilidade é a melhor resposta que conheço para o sentido e o porquê de uma vida. Logo que me tornei rabino, a tarefa mais difícil para mim era oficiar um funeral. Novato na função e um estranho aos presentes, eu raramente conhecia o falecido, alguém muito próximo dos que ali estavam – um membro da família, ou um amigo antigo e querido. Tudo o que me restava fazer era pedir ajuda, perguntar quem aquela pessoa havia sido para eles.

Em pouco tempo, pude identificar um padrão nas respostas.

Quase sempre eu ouvia sobre um marido ou uma esposa com quem se podia contar incondicionalmente, de um pai ou uma mãe amorosa, de um amigo ou amiga leal. Falavam-me de atos de bondade feitos com discrição, sem alarde ou ostentação, de responsabilidades assumidas e honradas perante a comunidade, da participação em iniciativas beneficentes às quais, se não se pudesse doar dinheiro, doava-se seu tempo. Os mais pranteados não eram os mais bem-sucedidos, ricos ou famosos, mas os que tinham feito maior a vida de outros. Eram eles os mais amados.  

Aquilo reforçou para mim a diferença crucial entre o urgente e o importante. Ninguém jamais mencionou o tipo de carro que o falecido usava, a casa que possuía, as roupas que vestia, as viagens exóticas que tinha feito. Ninguém jamais teve como seu último pensamento “Eu queria ter ficado mais horas no escritório”. As coisas que passamos a maior parte do nosso tempo buscando revelam-se curiosamente irrelevantes quando a questão é pesar o valor da vida como um todo. São coisas urgentes mas não importantes, e diante das pressões do cotidiano o urgente tende a prevalecer sobre o importante.

A felicidade, ao contrário do prazer, diz respeito a uma vida bem vivida, que honra o importante e não apenas o urgente. Esse dado é confirmado por inúmeros estudos recentes. Uma das pesquisas registrou que a satisfação dos entrevistados perante a vida crescia em 24% nos casos em que estavam envolvidos em alguma atividade altruísta.3 Outra descobriu que quem tinha mais oportunidades de ajudar os outros se sentia 11% melhor a respeito de si mesmo.4 Muitos dos estudos apontaram que o melhor prognóstico de felicidade é o sentimento de que você tem um propósito na vida.5 Os que possuem fortes crenças espirituais costumam viver mais satisfeitos, enquanto os descrentes são habitualmente insatisfeitos.6 Pessoas que sentem estar no comando de suas vidas expressam 1/3 a mais de satisfação do que aquelas que percebem não ter esse controle.7 Solicitados a escolher um entre vinte fatores que contribuiriam para a felicidade, o único item não escolhido por entrevistado algum foi status financeiro.8 Do ponto de vista material, as pessoas que têm mais são felizes na mesma proporção do que as que menos têm, e 50% menos felizes do que aquelas que estão contentes com o que possuem.9 O desejo de dar é mais forte que o desejo de ter. Só esse dado já é suficiente para derrotar o cinismo e o fatalismo atribuídos à condição humana.   

Felicidade é poder dizer: “Eu vivi em nome de certos valores e agi de acordo com eles. Fiz parte de uma família, acolhendo-a e sendo por ela acolhido. Fiz parte de uma comunidade, honrando suas tradições, compartilhando mágoas e alegrias. Pronto a ajudar os outros, sabia que eles também estariam prontos a me ajudar. Não perguntei somente o que teria a receber – perguntei como poderia contribuir.” 

Saber que você fez diferença, que durante o breve intervalo de tempo que foi sua vida deu a alguém ânimo novo, atenuou a pobreza ou a solidão de outro ser humano, ou brindou o mundo com um momento de graça ou de justiça que não teria acontecido senão por um ato seu — são os fatos e momentos simples como estes, presentes no cotidiano isento de heroísmo, que definem o sentido de uma vida bem vivida. Maquiavel disse que é melhor ser temido que amado. Ele estava errado.

*       *       *

O conceito de responsabilidade social precisa ser revalidado porque vem se tornando nebuloso, pontuado por conflitos. Afinal, qual é minha ligação com as crianças famintas da África ou com as vítimas de um terremoto na Índia? Por que eu teria qualquer relação com o futuro dos desempregados, dos sem-teto, dos carentes na sociedade em que vivo, no bairro onde moro? Os problemas são extensos demais para que minhas ações façam diferença. Em troca de impostos, nós nos habituamos a delegar as responsabilidades ao governo,  substituindo, assim, a ética pela política, a obrigação moral por fria legislação e o envolvimento pessoal por órgãos públicos sem rosto. Como resultado, o princípio da ética tende a se ocultar, transformando em escolha pessoal aquilo que é, na verdade, responsabilidade coletiva. Houve um tempo em que as pessoas viviam em contato próximo e constante com os vizinhos, criando redes de valores compartilhadas e obrigações recíprocas. Hoje, somos cidadãos anônimos vivendo entre estranhos, gente cujos códigos religiosos, culturais e morais diferem dos nossos. Qual é o dever ou o direito que nos torna corresponsáveis por seus destinos?
Algumas das complexidades da ética contemporânea foram assinaladas num primeiro momento por Hans Jonas, em seu livro The Imperative of Respon-sibility.10 Jonas argumentou que, nas gerações passadas, as pessoas possuíam um senso razoavelmente claro da conexão entre ato e consequência, entre o que faziam e o que, a partir daí, acontecia. Hoje, os desafios são diferentes.

O efeito estufa não é resultado de um único indivíduo que usa gasolina ou um produto em aerossol, mas de bilhões de atos que acontecem em todo o mundo. Talvez não possamos ver as consequências dos danos ao meio ambiente causados pela destruição das florestas ou a exploração desregrada de fontes de energia não-renováveis durante nossos anos de vida. Qual é, então, a minha responsabilidade? Minhas ações são menores que uma gota d’água no oceano da humanidade. Aquilo que faço ou deixo de fazer tem um efeito infinitesimal sobre o resto do mundo. Que deveres cabem a mim quanto a algo tão intangível como a humanidade em geral, tão inanimado como a natureza ou abstrato como as gerações que ainda não nasceram?  Noção simplificada alguma do conceito de responsabilidade responde adequadamente a essas questões.

É por isso que a responsabilidade religiosa – responsabilidade em relação ao infinito em termos de espaço, eterna em termos de tempo – pode, às vezes, ser mais válida do que alternativas seculares (não que os religiosos praticantes sejam mais ativos quando se trata da preservação do meio ambiente do que os não observantes: todos sabemos do problema e todos tentamos ajudar). James Lovelock foi forçado a recorrer a Gaia, deusa pagã da terra, para elaborar uma ética ambientalista convincente.11 Não creio que tenhamos de ir tão longe. 

Outro aspecto profundamente irônico é o impacto de várias ciências naturais e sociais sobre nosso senso de liberdade. Sociólogos chamam de modernidade a transição do informal ao contratual, a transformação de sina em escolha. Mas o próprio empuxo do pensamento moderno, de Marx a Freud, da neurociência à psicologia da evolução, corrói a ideia de que agimos porque escolhemos, escolhemos porque definimos propósitos, definimos propósitos porque somos livres e, porque somos livres, somos responsáveis. O resultado é um paradoxo. Por um lado, a época em que vivemos disponibiliza um leque de escolhas nunca antes visto pelo homem. Por outro, a escolha torna-se um conceito aparentemente sem relevância. Somos o que somos por conta de forças econômicas, impulsos irracionais, determinismo genético ou batalhas cegas travadas entre nossos genes para se reproduzirem na geração seguinte, com ou sem nosso conhecimento e consentimento. A tentativa de abraçar as duas alternativas resulta numa combinação de hedonismo, cinismo e estoicismo que, como indicam as palavras, tem origem na Grécia Antiga pouco antes de seu declínio e queda. Isenta de responsabilidade, a vida humana não faz jus à dignidade humana e não contribui em instância alguma para assegurar nossa sobrevivência como espécie.

Mais prejudicial ainda é o consumismo a dominar a sociedade. A cultura das necessidades artificialmente geradas atende a superprodução de bens anunciados na mídia à exaustão, bens desdenhados em seguida por uma insatisfação igualmente fabricada. A sociedade de consumo é uma deidade extremamente sedutora. Nenhuma outra tem sido mais gentil e tranquilizadora (“porque você merece o melhor”) ou menos exigente (como indica a paráfrase contemporânea de Allan Bloom: “Eu sou o Eterno, teu Deus, que te tirei da terra do Egito – Relaxe!”). Não obstante, se há alguma coisa que aprendi das pessoas que encontrei, ricas e pobres, poderosas e impotentes, é que o significado de uma vida não está naquilo que você toma, mas, sim, naquilo que você dá. Wordsworth disse:

“O mundo é desmedido conosco; depois e agora,
Ganhando e gastando, desperdiçamos nossos poderes.”12
Philip Larkin, por sua vez, escreveu sobre uma casa de culto:
“E isto nunca será obsoleto,
Uma vez que alguém sempre se surpreenderá  
Pela própria sede de ser mais religioso...”13 

Eu suspeito que a maioria de nós sente, de tempos em tempos, a fome de ser mais sério, e foi por isso que escrevi este livro.
Por que agora? Em parte, porque me sinto perturbado pela face que a religião frequentemente mostra ao mundo pós-moderno. Quase sempre aparece nos noticiários e se aloja na mente associada a extremismo, violência e agressão. A religião não é, certamente, a causa dos conflitos nos Bálcãs, no Oriente Médio ou em qualquer outro lugar. Mas acaba sendo a barreira que divide os oponentes. Isso é bastante sério. Quando um conflito político toma as cores da religião, torna-se um conflito absolutista. Fazer concessões, ouvir os dois lados, ter boa vontade para estabelecer acordos possíveis, ainda que não ideais, são virtudes políticas que se transformam em práticas imorais quando a religião faz parte do jogo. Assim, em vez de instrumento para a resolução de conflitos, ela é usada para intensificá-los. Este livro é meu protesto pessoal contra os homens-bomba, os terroristas religiosamente motivados e os pregadores do ódio a religiões diversas. O imperativo religioso ao qual procurei dar voz nestas páginas é aquele que diz: Crie, não destrua, pois é o Meu mundo que você está destruindo, Minhas criaturas que você está matando. A única força que se iguala ao fundamentalismo do ódio é um contrafundamentalismo de amor.

]Adiciono aqui outra preocupação. Os profetas nos alertaram contra diferenciar o sagrado e o bom; diferenciar entre nossos deveres para com Deus e para com o próximo. Mas a prática permanece. Há aqueles para os quais servir a Deus significa voltar-se para a própria alma, ir à casa de orações, levar uma vida de prece e rito. Para outros, a justiça social é substituto da observância religiosa ou de Deus. O resultado, como exponho mais adiante no livro, é semelhante a uma lesão situada entre os dois hemisférios do cérebro. A mensagem da Bíblia Hebraica é a de que servir a Deus e servir ao próximo são ações intrinsecamente ligadas, e separá-las as deixa mais pobres. A não ser que o sagrado nos leve ao mundo externo em direção ao bem e o bem nos traga de volta ao sagrado que nos renova, as energias criativas da fé se esgotam. Ao longo de seis dias, conta-nos o primeiro capítulo do Gênesis, Deus criou um universo e declarou-o bom. No sétimo dia, Ele fez o mundo parar e declarou-o sagrado. Se não voltarmos a conectar o sagrado e o bem, estaremos profanando a unicidade que define o monoteísmo.

Felizmente, não faltam exemplos de conexão entre o sagrado e o bem. As páginas seguintes são meu tributo a inúmeras pessoas que encontrei nas comunidades judaicas da Grã-Bretanha e do Reino Unido, homens e mulheres que dedicam grande parte de seu tempo a servir outros. São eles os meus heróis. Raramente saem nos noticiários. Seu trabalho quase nunca é reconhecido. Mas faz toda a diferença, humanizando esse nosso mundo tantas vezes tão desumano. Segundo a tradição judaica, quando os israelitas terminaram de construir o santuário no deserto, Moisés os abençoou com as seguintes palavras: “Que seja vontade de Deus que Sua Presença viva no trabalho de vossas mãos.”14 Esta é a minha oferenda de gratidão às muitas pessoas em cujo trabalho senti a Presença Divina, a Shechiná.

Delas, aprendi que viver é dar. Precisamente porque não têm dúvida alguma quanto à responsabilidade que lhes cabe, são exemplos eloquentes do que uma tradição religiosa pode fazer de melhor. Por exigir o extraordinário, ela inspira pessoas comuns a viverem uma vida fora do comum. Shakespeare disse que alguns nascem dotados de grandeza; outros alcançam a grandeza, e outros, ainda, são investidos de grandeza. Estes me fazem pensar na história dos judeus: um povo em nada excepcional, frequentemente teimoso, rebelde, irascível, caprichoso, não exatamente uma comunidade de santos e, mesmo assim, engrandecido porque solicitado a cumprir grandes feitos. É uma trajetória não exclusiva dos judeus.

Este é um livro sobre a fé que eu amo e o povo que conheço. Mas conheço também outro fato: a bondade e a virtude encontram-se espalhadas por toda a humanidade. Muitas vezes fui influenciado pelo trabalho de cristãos, muçulmanos, hindus, sikhs, budistas, jainistas, zoroastristas, bahaístas, um trabalho que constrói comunidades, transforma vidas e cria esperança.

Na realidade, eu me senti inspirado pelas religiões com as quais tive o privilégio de entrar em contato. Na mesma medida, valorizo a força moral de muitas formas de humanismo secular, de John Stuart Mill a Bertrand Russell e tantos outros. A experiência me ensinou a verdade contida nas sábias palavras do Rabino Abraham Isaac Kook (1865-1935):

“A mentalidade tacanha que leva alguém a ver o que quer que esteja além das fronteiras de seu próprio povo... como ameaçador e profano é uma terrível ignorância que causa a destruição geral de toda a estrutura do bem espiritual, a luz pela qual anseia toda alma pura.”15

Não se trata de relativismo. É, isto sim, uma distinção essencial entre o sagrado e o bem. As expressões religiosas da humanidade (o sagrado) são incomensuráveis, mas a bondade – trazer bênçãos às vidas de outros – é o que há de mais próximo a uma linguagem universal. Pobreza, fome e doença são os grandes males de qualquer cultura, e aqueles que os curam são gigantes de espírito. Se você passar a vida buscando evidências que comprovem as palavras de Kant, “À parte o caráter tortuoso da humanidade, nada de reto jamais foi criado”, com certeza as encontrará. Mas se passar a vida procurando fragmentos de luz que, como disseram os místicos judeus, se espalharam pelo universo, também vai encontrá-los – e esta não é uma visão menos precisa da condição humana.
Eu nunca me convenci de que uma perspectiva deformada da humanidade fosse mais realista do que a visão oposta. Ao contrário. Acredito que todos nós somos feitos à imagem de Deus e que cada cultura tem uma contribuição a fazer. Ninguém precisa ser religioso para ser bom. Isto foi claramente demonstrado pelos heróis e heroínas silenciosos que salvaram vidas durante o Holocausto. 
O que tinham em comum, estudos revelaram, não era a crença religiosa ou algum tipo de formação em particular. Em sua maioria, não viam nada de especial no que tinham feito, ainda que muitos provavelmente soubessem estar arriscando as próprias vidas. Segundo eles, foram simplesmente humanos, fazendo o que se espera de seres humanos.

Nas páginas a seguir, mesclo análise a histórias de indivíduos que conheci pessoalmente ou, em alguns casos, por testemunhos de outros. Livros sobre ética costumam ser um pouco abstratos, mas contar histórias é uma das melhores maneiras de trazer para o mundo concreto uma verdade moral.

O pensador israelense Avishai Margalit fala da diferença entre filosofias “i.e.” e “e.g.”, entre os que preferem a argumentação abstrata e aqueles usam exemplos.16 O judaísmo é repleto de histórias (segundo um dito judaico, “Deus criou o homem porque gosta muito de histórias”). A própria Bíblia é um dos exemplos fundamentais de verdade como história, ao contrário do modelo ocidental conhecido – o da história como sistema. O que eu adoro sobre as histórias judaicas é que seus personagens, na maioria das vezes, são gente comum, de carne e osso. Não são contos míticos, épicos, de super-heróis e deuses que agem como homens ou homens que agem como deuses. A Grécia Antiga falou das virtudes da democracia. O judaísmo fala da democracia da virtude – o bem que é real porque feito por pessoas como nós.

Uma das grandes tradições judaicas versa sobre os lamed-vavniks, as 36 pessoas íntegras pelo mérito das quais o mundo existe. A coisa mais importante a respeito desse grupo é que quem faz parte dele não sabe que faz. Nas histórias, são normalmente aqueles que ninguém imagina especiais: o lenhador do vilarejo, o cocheiro, o iletrado, o pobre, os que se sentam no fundo da sinagoga incapazes de ler as preces. Contar essas histórias é um costume que precisa ser reavivado. É fácil contar histórias de figuras cuja devoção seja sobre-humana, mas a essência da nossa humanidade é que somos humanos – falíveis, frágeis, dados a dúvidas, suscetíveis à desesperança, exatamente como eram os grandes heróis e heroínas da Bíblia. Em meu trabalho, encontrei (e encontro) inúmeros lamed-vavniks, e conhecê-los de perto ensina muito mais do que qualquer texto de ética. Nós precisamos não apenas de livros didáticos, mas de pessoas que eduquem por meio de seus atos. Daí as histórias que fazem parte deste livro.

Ele também explora ideias. Confesso ter amor pela efervescência contida nas ideias. São elas que modificam as pessoas, para melhor ou para pior. Influenciam nossa maneira de interpretar o mundo e afetam o que nos acontece. Transformam nosso horizonte imaginável, às vezes elevando pessoas a grandes alturas, outras vezes conduzindo-as à insensatez ou à violência. Temos a tendência de esquecer que o chamado senso comum nada tem de comum e nem é, tampouco, meramente senso. Nossas suposições  sobre quem somos e o que somos, sobre o lugar que ocupamos no universo e o sentido ou a falta de sentido de uma vida são o produto da reflexão daqueles que vieram antes de nós. A vida moral é como o “burguês ridículo”, personagem de Molière rico em clichês. Absorvemos conceitos morais da mesma forma que aprendemos um idioma: inconscientemente. Consciente é fazer uma pausa e perguntar o que nos levou a ver o mundo da forma que o vemos.

O conceito de uma ética da responsabilidade não ocorreu naturalmente, e não podemos tomá-lo como privilégio eterno. Veio à luz por meio de descobertas intelectuais, revolucionário para o seu tempo e ainda desafiador hoje. O judaísmo tem crenças claras, características, como a maneira pela qual Deus nos dá o poder de exercer nossa liberdade, sob Sua tutela, para criar uma ordem social que, ao honrar a dignidade humana, torna-se um lar para Sua Presença. A Bíblia conta uma história a esse respeito, e vale a pena recontá-la.

O judaísmo não é uma religião de pura obediência, de submissão à vontade Divina. Na história de Noé, a Bíblia oferece uma crítica à obediência cega extraordinariamente honesta e surpreendente. Noé faz tudo o que Deus lhe ordena, e mesmo assim o mundo é destruído. Ouvindo a Bíblia com ouvidos judaicos, escutamos uma exigência extremamente difícil, o chamado de Deus a Abrahão: “... anda diante de Mim e seja perfeito!” (Gênesis 17:1). Em outras palavras, não espere até receber a ordem. Às vezes, você precisa tomar a iniciativa. A história de como a Bíblia encoraja a iniciativa humana é pouco conhecida e merece ser explorada.  

Em seu âmago, ela traz uma ideia difícil de ser compreendida. É, no entanto, uma ideia em profunda sintonia com os desafios do tempo que vivemos. Deus confia em cada um nós e nos dá autonomia. Isto significa que Ele nos dá autonomia também para errar, o que faz de nós seres humanos. Deus não pede que sejamos sobre-humanos. “Pois não há sobre a terra alguém tão correto que só faça o bem e não peque jamais”, diz o Eclesiastes (7:20). Nós pecamos, mas Deus perdoa. Erramos, mas pelos nossos erros aprendemos. Caímos, mas Deus nos ergue novamente. Falhamos, mas, como disse o Rabi Tarfon: “Você não tem a missão de concluir o trabalho, mas também não tem o direito de desistir dele”.17 Fazemos o melhor dentro daquilo que nos é possível, e isto é tudo o que Deus nos pede. As demandas da ética judaica são grandes, mas sua clemência é profunda. Um judeu secular, escritor brilhante, perguntou-me certa vez: O judaísmo não é cheio de culpas? É, respondi, mas também é repleto de perdão. A noção de que somos fracos e, portanto, condenados a uma vida de humilhação simplesmente não existe no judaísmo. Mesmo Jeremias, o mais pessimista dos profetas, é uma figura de esperança. Desesperança não é um sentimento judaico.

Por trás da ética da responsabilidade existe uma ideia ousada: ainda maior do que nossa fé em Deus é a fé que Deus deposita em nós. Apesar de se decepcionar com frequência, Ele não desiste de nós e nunca desistirá.

A história do Dilúvio conta como Deus ficou desgostoso com o mal que homens fazem uns aos outros e como Ele rasgou o script daquele capítulo da história da humanidade para começá-lo novamente com um homem íntegro chamado Noé. O que surpreende no desenrolar da história é que Deus Se arrepende de algo que fez e compromete-se a nunca mais pedir à humanidade aquilo que ela não pode dar. Ele não destrói o mundo nem desiste do que espera da humanidade. Mas agora sabe que levará tempo. No judaísmo, esperança é isso: recusar-se a abandonar os próprios ideais mais caros e recusar-se a dizer, em um mundo ainda desfigurado pelo mal, que o Messias já veio e esse mundo está salvo. Há trabalho a ser feito; a jornada não está completa, e terminá-la depende de nós, que atravessamos com tamanha brevidade o palco do tempo.

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Procurei escrever este livro da maneira mais simples e agradável possível. O leitor, porém, deve estar atento às complexidades não-aparentes do texto. Para elaborar uma exposição adequada da ética social judaica, precisei unir lei e teologia, interpretação bíblica e reflexão filosófica, princípios gerais e exemplos específicos, narração e análise. São poucas as interpretações autoexplicativas que ofereço. Elas podem ser contestadas praticamente ponto por ponto. Esse é o traço particular de uma tradição viva tão complexa e multifacetada como o judaísmo. Num grau raramente visto, o judaísmo é uma conversa de muitas vozes. Seus principais textos são antologias de discussões. “Estas e aquelas”, dizem os Sábios, “são as palavras do Deus vivo”.18 Em última análise, “um juiz deve deliberar tomando por base as evidências à sua frente”.19 Um narrador deve contar a história da melhor maneira que puder, sabendo que ela pode soar diversa em substância e estilo se contada de outra forma.  

Uma particularidade da ética judaica: embora demarcada pela lei judaica, é diferente desta. Nachmânides, o exegeta do século 13, explicou isso com muita clareza em seu comentário sobre o mandamento bíblico de fazer “o que parece direito e bom aos olhos do Eterno” (Deuteronômio 6:18). É impossível, ensina Nachmânides, antever todos os desafios da vida moral. São desafios que dependem do contexto e da situação. Por essa razão, a Bíblia faz duas coisas: ela nos dá exemplos concretos (“Não andarás com mexericos”; “Não te vingarás”, “Não sejas indiferente quando está em perigo o teu próximo”) e princípios gerais, como “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” e “Faça o que parece direito e bom”). A formulação de um princípio da ética judaica será sempre um exercício de conjugar síntese a análise, lançar mão de fontes diversas e traçar o grande arco do pensamento bíblico e pós-bíblico, tentando fundir as partes ao todo e o todo às partes.

Mais do que a feição passiva, procurei enfatizar em especial o modo ativo do pensamento judaico – nossas ações, e não tanto nossas reações. O judaísmo tem seu lado passivo, como a gratidão pela vida, a confiança inabalável em meio ao sofrimento, a disposição de esperar pacientemente pelo ato salvador de Deus. A melhor razão que posso dar para ter escrito o que escrevi é que foi o que ouvi, ao tentar escutar com máxima atenção “a pequena, silenciosa voz” na qual o eterno infinito fala comigo aqui e agora. O desafio real e presente dos judeus em particular e da humanidade em geral é enfrentar as ações humanas que provocam consequências cada vez mais abrangentes. Acreditar que não temos qualquer obrigação em relação a outros ou que, de alguma forma, Deus intervirá para salvar-nos de nós mesmos pode até fazer sentido, mas é irresponsável. Não é assim que leio minha fé ou entendo a condição humana.
Sobre a estrutura deste livro: começo discutindo a religião enquanto força para aliviar a condição humana, da maneira como vista por Karl Marx. Argumento que, longe de ser “o ópio do povo”, o judaísmo é uma religião de protesto e daquilo a que Herbert Schneidau chamou “sagrado descontentamento”.20 Do capítulo 3 ao capítulo 9, discorro sobre os conceitos essenciais da ética social judaica: justiça, caridade, ação como sinônimo de amor, a santificação do Nome de Deus, os caminhos da paz e os atos que corrigem o mundo. Também dedico dois capítulos à ideia de responsabilidade coletiva, o primeiro no âmbito do pacto de fé e o segundo, em relação à humanidade como um todo. Os capítulos 10 a 14 versam sobre a teologia que fundamenta essas ideias. Os capítulos 15 a 20 falam da diferença que elas produzem em nossas vidas.    

“O mal que faz o homem sobrevive ao homem”, disse Marco Antônio nas palavras de Shakespeare, “o bem está enterrado com seus ossos”. Naturalmente, ele sabia que não era assim, e aí reside a ironia de sua fala. Somente há alguns anos, quando eu estava de luto pela morte de meu pai, aprendi o que toda pessoa que já “sentou shivá” sabe (no judaísmo, nós nos sentamos em banquinhos baixos durante uma semana – shivá – para chorar a perda de um parente próximo, e é costume universal que a família, os amigos e a comunidade venham visitar e confortar os enlutados durante esse período). Pessoas que haviam conhecido meu pai, em muitos casos antes que meus irmãos e eu tivéssemos nascido, nos falaram de sua bondade para com elas e das coisas que admiravam nele: sua integridade, sua atitude apaixonada em relação à moral, seu orgulho em ser judeu. Foi então que senti na pele o que pude aprender de todos os funerais que havia oficiado: o bem que fazemos sobrevive a nós e é sempre nosso maior e mais importante legado.
Sem constrangimento, confesso que, algumas das vezes em que chorei naqueles dias, chorei não apenas pela perda de meu pai, mas porque ele não estava ali para ouvir e saber da influência que teve sobre a vida de outros.

Ele não teve uma vida fácil, e sob seu sorriso quase sempre radiante eu sentia a presença de uma grande dor. “Por que você nunca conversou com ele sobre todas essas coisas quando estava vivo?”, perguntei a mim mesmo várias vezes. Mas é esta a condição humana, e nós todos sabemos. Raramente vemos (e mesmo assim de relance) a diferença que produzimos nas vidas de outras pessoas. Como não somos Mark Twain, nunca chegaremos a ler nossos obituários. De qualquer maneira, foi durante aquele período que eu soube sem qualquer ceticismo, com absoluta certeza, que a maior dádiva é ser capaz de dar e que nossa vida é medida pelo bem que fazemos.

Escrevi este livro não apenas para judeus, mas como uma voz judaica na grande conversa entre os homens, pois todos nos deparamos com questões sobre o significado de nossas vidas e o mundo que deixaremos para os que vierem depois de nós. Em épocas como a nossa, precisamos não só dos temas apaixonantes do presente, mas da sabedoria de nossas tradições, transmitidas com amor de geração a geração. Elas são o generoso presente que o passado oferece ao futuro e a contribuição que cada herança étnica pode fazer ao desenvolvimento moral da humanidade.

NOTAS:
1.  Victor Frankl, The Doctor and the Soul: From Psychotherapy to Logotherapy, Souvenir Press, Londres, 2004, p. 24.
2. Citado em Rabino Joseph B. Soloveitchik, Halakhic Man, Lawrence Kaplan (tradutor), Jewish Publication Society of América, Filadélfia, 1983, p. 91.
3. A. Williams, D. Haber, G. Weaver e J. Freeman, Altruistic Activity, em Activities, Adaptation and Ageing, 1998, 22:31.
4. L. Pegalis, Frequency and Duration of Positive Affect: The Dispositionality of Happiness, dissertação de doutorado, Universidade da Georgia, Athens, Georgia, 1994. 
5. H. Lepper, In Pursuit of Happiness and Satisfaction in Later Life: a study of competing theories of subjective well-being, dissertação de doutorado, Universidade da Califórnia, Riverside, 1996; T. Rahman e A. Khaleque, The Purpose in Life and Academic Behaviour Problem Students, Social Indicators Research, 1996, 39:59.
6. J. Gerwood, M. LeBlanc e N. Piazza, The purpose in life test and religious denomination, Journal of Clinical Psychology, 1998, 54:49.
7. R. Kean, S. Van Zandt e N. Miller, Exploring factors of perceived social performance, health and personal control, International Journal of Aging and Human Development, 1996, 43:297.
8. S. Hong e E. Giannakopoulos, Students’ Perception of Life Satisfaction, College Student Journal, 1995, 29: 438.
9. M. Sirgy, D. Cole, R. Kosenko e H. L. Meadow, A life satisfaction measure, Social Indicators Research, 1995, 34:237.
10. Hans Jonas, The Imperative of Responsibility, University of Chicago Press, Chicago, 1984.
11. James Lovelock, The Ages of Gaia, Norton, Nova York, 1988.
12. William Wordsworth, “The world is too much with us”, M.H. Abrahams (editor), The Norton Anthology of English Literature, 6a  edição, Norton, Nova York, 1993, p. 199.
13. Philip Larkin, Church Going, em Philip Larkin: Collected Poems, Anthony Thwaite (editor), Faber and Faber, Londres, 1988, p. 98.
14. Sifri, Bamidbar 143.
15. Abraham Isaac Kook, Mussar Avicha, p. 96; Benjamin Ish Shalom e Shalom Rosenberg (editores), The World of Rav Kook’s Thought, Avi Chai, Jerusalém, 1991, p. 212.
16. Avishai Margalit, The Ethics of Memory, Harvard University Press, Cambridge, MA, 2002, 
p. ix.
17. Mishná, Avót 2:16.
18. Talmud da Babilônia, Eruvin 13a.
19. Ibid., Baba Batra 131a.
20. Herbert N. Schneidau, Sacred Discontent: The Bible and Western Tradition, University of California Press, Berkeley, CA, 1976.

O Rabino Lord Jonathan Sacks foi Rabino-Chefe da Grã-Bretanha e Comunidade Britânica. Educado em Cambridge e Oxford, lecionou em universidades e liderou congregações na Inglaterra, em Israel e nos Estados Unidos, e era reconhecido como um dos maiores líderes da nossa era.

Realizou uma vista ao Brasil em março de 2013.
Infelizmente, faleceu em novembro de 2020.

Foi uma das maiores autoridades contemporâneas em moral e autor de inúmeros livros, entre os quais:
Uma letra da Torá 
Para curar um mundo fraturado
Celebrando a vida - esgotado
A dignidade da diferença
Tempo futuro
Do otimismo à esperança

publicados no Brasil pela Editora Sêfer. 

Dele, estão disponíveis para download gratuito:
Cartas para a próxima geração - Reflexões para Iom Kipúr 
Cartas para a próxima geração 2 - Reflexões sobre a vida judaica
A arte de questionar

no blog da Editora e Livraria Sêfer.

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Quem saber mais sobre o Rabino Sacks?
Clique aqui e leia o ensaio Quem foi Jonathan Sacks, o Rabino do Mundo?

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