Para salientar a importância do momento de se abençoar sobre o pão – que simboliza a bênção da prosperidade –, ele é colocado em destaque numa tábua especial no centro da mesa, e é partido com uma faca adornada, para destacar nosso apreço por esse preceito.
O SIGNIFICADO DO SHABAT
Nossos sábios chamam o Shabat de iessod haemuná, o verdadeiro “fundamento da nossa fé”.
Isso não é exagero, pois os mais elevados pensamentos, por meio dos quais o judaísmo enobreceu a mente humana, e os mais sublimes ideais pelos quais nosso povo luta por anos sem conta à custa de inúmeras vidas, estão centrados no Shabat.
A dignidade do trabalho
“Por seis dias trabalhareis e neles realizareis todas as vossas tarefas...”
A base para o Shabat é, portanto, o trabalho, dignificado por se constituir numa ordem Divina. O trabalho não é uma degradação, mas, sim, um sagrado direito de nascença de cada ser humano.
Quantos séculos, milênios talvez, foram necessários para que o mundo percebesse essa verdade fundamental!
Foi realmente um longo caminho, desde as concepções gregas e romanas de que o trabalho era algo degradante, resultando daí a absoluta falta de direitos para os que o realizavam, até atingirmos o status atual do trabalhador.
Quantos distúrbios sociais, quanta miséria, quantas guerras e revoluções e quanto derramamento de sangue poderiam ter sido evitados se o ideal bíblico da dignidade do trabalho fosse, desde o início, a base da ordem social.
A tradição judaica nos relata que Adão se reconciliou com seu destino somente quando lhe foi dito que deveria trabalhar.
O trabalho é realmente a prerrogativa do homem criativo que nasce gozando de liberdade.
“Grandioso é o trabalho”, dizem os nossos sábios, “porque enobrece a quem o faz.” (Tratado de Nedarim 49b)
Liberdade espiritual
Entretanto, o trabalho não é tudo. Ele pode tornar o homem um ser livre, mas o próprio homem pode se tornar escravo de seu trabalho.
O Talmud relata que, quando Deus criou os céus e a terra, eles começaram a se expandir de forma incessante, até que Ele lhes ordenou: “Basta!” (Tratado de Chaguigá 12a)
A ação criativa do Eterno foi seguida pelo Shabat, quando, deliberadamente, Ele cessou Sua atividade criativa. Isso, mais do que qualquer outra coisa, mostra-nos Deus como o Criador e o Soberano do mundo, que o controla com total liberdade e estabelece limites para a Criação que Ele materializou de acordo unicamente com Sua vontade – um Criador com Seu próprio propósito. Portanto, não foi a “atividade”, mas a “cessação de atividade”, o que Ele escolheu como o sinal de Sua absoluta liberdade na Criação do mundo.
É pela cessação de atividade a cada Shabat, de acordo à forma prescrita pela Torá, que o judeu presta testemunho do poder criativo do Eterno.
É assim, também, que cada judeu revela a verdadeira grandeza do ser humano. As estrelas e os planetas, tendo iniciado seu eterno movimento pelo Universo, continuam fazendo-o cegamente, conduzidos pela lei de causa e efeito. Já o homem, por um ato de fé, pode impor um limite a seu labor, de modo que não se degenere para uma labuta sem qualquer propósito.
Ao guardar o Shabat, o judeu se torna, como dizem os nossos sábios, domê le-Iotsrô – “semelhante ao seu Criador”. Como o Eterno, ele é senhor de sua obra, não seu escravo.
O homem é, de fato, superior a outras criaturas; entretanto, ele o é somente se, conscientemente, coopera com o plano do Eterno para o Universo, fazendo uso de sua liberdade para servir a Deus e a seus semelhantes. Então, ele se torna, como dizem os nossos sábios, “sócio do Eterno, na obra da Criação” (Tratado de Shabat 10a).
Ao mesmo tempo, porém, a própria liberdade do ser humano pode conduzi-lo à sua queda. Seu domínio sobre a natureza, que o capacita a controlá-la e dirigi-la, a domar sua energia, moldá-la e adaptá-la a seus desejos – esses mesmos poderes podem, de uma maneira fatal, fazer com que ele se considere um criador que não tem de prestar contas a ninguém mais elevado que ele. Em nossa época, temos visto o que acontece ao mundo e à humanidade quando essa idéia prevalece.
Eis, porém, que nesse ponto vem o Shabat para resgatar o ser humano. Como veremos com mais detalhes mais adiante, talvez nisso esteja o aspecto mais relevante da observância do Shabat.
Podemos nos aperceber e reconhecer na harmonia do Universo a verdade básica de sua criação Divina. Entretanto, para a maioria dos seres humanos, o que isso significa? Na verdade, muito pouco. Mas aqui, como sempre em relação à Torá, não bastam meras teorias; é necessária a prática das ações, ou seja, a conseqüência prática desse reconhecimento. Só dessa forma a doutrina torna-se algo significativo. “Para viver no mundo por Ele criado como Suas criaturas, devemos usar todas as capacidades humanas a Seu serviço.” Só assim será justificada nossa existência e, ao mesmo tempo, estará assegurado nosso próprio bem-estar e o de toda a raça humana.
As leis do Shabat nos provêm as considerações práticas necessárias para manter esse princípio destacado em nossas mentes. Nesse dia nos abstemos do exercício de nossos poderes humanos característicos, de produzir e criar no mundo material. Com essa inatividade, depomos esses poderes aos pés do Eterno como uma homenagem Àquele que a nós os concedeu.
Essa idéia básica sobre o Shabat será desenvolvida de forma mais ampla nos próximos capítulos. Entretanto, se apurarmos nossos ouvidos, poderemos mesmo agora perceber o que o Shabat está tentando nos dizer. De fato, ele proclama a cada semana a mesma coisa que O Eterno disse ao primeiro ser humano:
“Fui Eu que te coloquei nesse mundo, que é Meu; para ti criei tudo isso. Que tua mente atente para isso, para que não venhas corromper e destruir Meu universo.” (Midrash Rabá, Eclesiastes 7:9)
Eis aqui a pura essência do Shabat. O mesmo ato que proclama a liberdade do homem declara também sua submissão ao Eterno. Usar todos os nossos poderes a serviço de Deus – eis a maior de todas as demonstrações de liberdade.
O Shabat e a vida
Outra bênção flui do Shabat – a bênção da menuchá (repouso). Mas menuchá é muito mais do que apenas repouso físico. É uma atitude da mente, um estado de espírito, induzido pela experiência em que se constitui o Shabat, com todos os seus componentes. Um deles é a alegria de se sentir libertado das pressões provocadas pelas demandas do dia a dia, pois, além da escravização ao trabalho, nossa civilização nos prende aos automóveis, ônibus, telefones, televisões, cinemas, computadores – enfim, a toda a indústria mecânica de entretenimento.
Se não pararmos para refletir sobre isso, quase todos nós não perceberemos a perda de energia vital que a carga de todas essas coisas provoca. Não perceberemos a dimensão de nossa escravização.
Basta um exemplo: quantos de nós conseguiriam ficar num ambiente com um telefone tocando sem o atender? O apelo é irresistível; sabemos que, mais cedo ou mais tarde, “deveremos” responder ao chamado. No Shabat, essa obrigação não existe.
O relaxamento, o alívio de espírito que um verdadeiro Shabat judaico traz, precisa ser experimentado para que se possa compreender sua verdadeira dimensão.
O espírito de menuchá tem sua mais positiva expressão nas refeições do Shabat, na quais a felicidade de estar junto com a família e os amigos, a satisfação com os alimentos especialmente preparados, a alegria das canções em louvor do Eterno e do Shabat combinam-se para proporcionar uma experiência única. Nessa atmosfera de Shabat, torna-se fácil sentir a proximidade do Eterno e encarar a vida sem preocupações nem mágoas, ante a certeza de que estamos todos sob Seus cuidados.
Com o corpo refrescado e a tensão nervosa relaxada, a mente é estimulada, por sua vez, a buscar um contato mais próximo com o Eterno por meio do estudo da Torá – não como um passatempo intelectual, mas como o pleno reconhecimento de que esta é a única fonte da verdade e do sentido da vida para um judeu.
Se fizermos dessa atividade espiritual o conteúdo positivo das horas de lazer do Shabat, nós nos sentiremos em seu término, sob todos os aspectos, melhor preparados para as tarefas da semana que vai começar, ou seja, estaremos efetivamente melhor preparados para a tarefa de viver.
As bênçãos do Shabat não se limitam ao que trazem a cada um individualmente. Depois de ajudar o judeu a se encontrar, o Shabat o ajuda a encontrar o seu próximo. Um dos motivos básicos apresentados na Torá para o mandamento referente ao Shabat é:
“... que também teu servo e tua serva possam repousar tão bem como tu mesmo.” (Deuteronômio 5:14)
O patrão como o empregado; o servo como o senhor!
Pode alguém, nos dias de hoje, perceber o que essa equalização deve ter significado numa época em que o servo nada mais era do que uma ferramenta animada, que podia ser quebrada ou destruída conforme o desejo de seu senhor?
No Shabat, os dois se encontravam como iguais, como seres humanos livres. O Shabat restituía ao servo sua dignidade humana. E a liberdade e o descanso do Shabat deviam ser aplicados também ao “estrangeiro que está dentro de teus portões”. Dessa forma foi estabelecida a fundação para a fraternidade humana.
Na realidade, como veremos, até o gado não era excluído das bênçãos Divinas do descanso sabático. Nem mesmo ao animal poderia ser negada a dignidade devida a uma criatura do Eterno.
“Tu... e teu boi, teu asno e todos os teus animais.” (Deuteronômio 5:14)
O Shabat é, portanto, um protesto Divino, repetido a cada semana, contra a escravidão e a opressão.
Ao erguer seu cálice de vinho no Kidush, nas noites de sexta-feira, o judeu une a Criação do mundo à liberdade do ser humano, declarando que escravidão e opressão são pecados mortais contra as próprias fundações do Universo.
Poderia alguém se sentir surpreso ao saber que os tiranos de todas as épocas não permitiam que Israel celebrasse o Shabat?
Aspirações espirituais
Vimos que o Shabat é a raiz de todo progresso espiritual e social e que está conectado com os mais elevados pensamentos e aspirações do homem: Deus, a dignidade da alma humana, a liberdade, a igualdade entre todos os homens e a supremacia do espírito sobre a matéria.
Não nos admira, portanto, que os profetas de Israel considerassem o Shabat como o símbolo do que é moralmente bom e nobre.
“Feliz é o homem que faz isto, e o filho do homem que a isto se apega:
guarda o Shabat e se abstém de profaná-lo – e guarda sua mão de praticar qualquer mal.” (Isaías 56:2)
A mesma idéia de identificar o Shabat com as mais altas aspirações na terra é expressa por Neemias (9:13):
“Desceste sobre o monte Sinai e com eles falaste dos céus, concedendo-lhes julgamentos corretos, leis verdadeiras, bons estatutos e mandamentos – e deste-lhes a conhecer Teu sagrado Shabat.”
Nossos sábios, com seu dom de compor epigramas, deram expressão ao fato de o Shabat conter a soma e a substância da vida judaica por meio de uma frase: “Se o Eterno não nos tivesse trazido ao monte Sinai e nos tivesse dado somente o Shabat, isso já teria sido o bastante” (Hagadá de Pêssach). Realmente, isso teria sido suficiente porque o Shabat sintetiza a totalidade do judaísmo.
Extraído de O QUE É RESPEITAR O SHABAT?