Durante a cerimônia do Kidush (santificação do dia do Shabat) realizada sobre uma taça de vinho, costuma-se cobrir a chalá (pão trançado), de modo a dar ao vinho a primazia desse momento.

G.D.E.S. – Graças a Deus é Shabat!

A vida, observou o escritor norte-americano contemporâneo Thomas LaMance, é o que acontece conosco quando estamos fazendo outros planos. Infelizmente, para a maioria de nós a vida é muito corrida para pararmos e pensarmos sobre ela. Vivemos e esquecemos por que vivemos. Antes de percebermos o que aconteceu, a vida passou. Como já foi dito por alguém muito esperto, a vida pode ser resumida em três palavras: pressa, preocupação e sepultamento.

Como vimos, o judaísmo se preocupa muito com a contagem do tempo. Assim, além das datas quase mensais que nos forçam a refletir sobre questões importantes, nenhuma semana pode passar sem o seu dia de descanso, o Shabat. Por seis dias estamos ocupados com o físico; voltamo-nos para as necessidades do corpo. Pelo menos uma vez por semana, a cada sétimo dia, temos que nos recarregar espiritualmente e cuidar das nossas almas.

O grande teólogo do século 20, rabino Abraham Joshua Heschel, declarou de forma belíssima: “O Templo foi um santuário no espaço; o Shabat é um santuário no tempo”. Por seis dias vivemos preocupados com o “como”; a cada sétimo dia mudamos o foco de nossas existências para o “por quê”.

Por que os dias não têm nomes?
O Shabat é mais do que um dia: é um destino, a meta de todos os demais dias da semana. É por isso que, estranhamente, o judaísmo não tem nomes para os dias da semana. Domingo, 2a feira, 3a feira e assim por diante, são nomes seculares. Em algumas línguas como, por exemplo, o inglês (Sunday, Monday, Tuesday...), os nomes têm origens pagãs. Para os judeus, o domingo é apenas o primeiro dia após o Shabat;  2a feira é o segundo dia após o Shabat e assim por diante, até a 6a feira, que é o sexto dia. O significado de cada dia está relacionado à sua posição em relação ao Shabat.

Isso coloca toda a semana sob uma perspectiva profundamente diferente. Cada dia é visto como uma preparação para a chegada do Shabat. A meta a ser alcançada é o sétimo dia, que enfatiza nossa essência espiritual; os dias da semana são apenas os meios para um grande fim. Não descansamos para trabalhar; trabalhamos para ter um dia de descanso, para “re-espiritualizarmos” a nós mesmos e ao mundo inteiro.

Tire uma folga
A Bíblia diz nos Dez Mandamentos: “Seis dias trabalharás e farás toda tua obra, e o sétimo dia é o sábado do Eterno, teu Deus; não farás nenhuma obra” (Êxodo 20:9). O Shabat é um dia de descanso não passivo, mas com criatividade. A Criação Original durou uma semana; até mesmo o sétimo dia, quando aparentemente nada de novo veio à existência, está incluído nesta conta. Quando um artista se distancia de sua obra para observá-la e poder avaliar se atendeu às suas expectativas, isso também é parte do processo de criação.

Nossas vidas, caso possam ser consideradas obras de arte, exigem revisão e reavaliação constantes. Quem não faz isso uma vez por semana, mais cedo ou mais tarde terá que procurar ajuda profissional para avaliar o propósito de sua existência na Terra. Daí, provavelmente lhe será recomendado “descansar” e deitar-se no divã de um analista. O tipo de descanso que o Shabat implica ordenar aos judeus para que descansem das exigências mudanças do dia-a-dia e dediquem-se às demandas do seu “eu” espiritual e do sentido de suas vidas.

Dizer que o sentido do Shabat é não trabalhar é o mesmo que definir o Dia de Ação de Graças simplesmente como um dia em que não se trabalha. Evitar fazer algum tipo de trabalho no Shabat sem enfatizar sua espiritualidade é como celebrar o Dia de Ação de Graças sem lembrar-se de que o propósito é agradecer. O grande psicólogo Erich Fromm compreendeu isso perfeitamente:

"Descansar no sentido do conceito tradicional do Shabat é completamente diferente do “descansar” definido como não trabalhar ou não fazer esforço. No Shabat, o homem deixa completamente de ser um animal cuja principal ocupação é lutar pela sobrevivência e pelo sustento de sua vida biológica. No Shabat, o homem é um homem completo, sem qualquer outra obrigação além de ser humano."

Ouvi na sinagoga
Certa vez, o imperador romano perguntou a Rabi Iehoshúa: “Qual é o grande segredo desta saborosa refeição que você acabou de me servir?” Rabi Iehoshúa respondeu: “Temos uma pimenta especial chamada Shabat”. O Imperador então pediu a Rabi Iehoshúa para lhe dar um pouco daquele condimento para uso nas cozinhas do palácio. Rabi Iehoshúa explicou que a pimenta não poderia ser fornecida, pois era parte integrante do cumprimento do Shabat.


Acenda e ascenda
Alcançar uma meta desse tipo não é tarefa fácil. A semana de trabalho nos transforma em “braços e pernas”, enquanto no Shabat devemos nos voltar para nossas almas. Fazemos isso com a ajuda de rituais. Os rituais nos fazem saber quais “chamas” devem ser acesas. Embora pequenas, ajudam-nos a iluminar todo o ambiente ao nosso redor.

A metáfora do fogo é particularmente adequada ao Shabat, pois este é o modo “físico” através do qual ele tem seu início marcado. Uma vela simboliza a alma. Duas velas acesas simbolizam a idéia mística de que o Shabat concede aos seres humanos uma “alma extra”. A iluminação oferecida pelas velas é um símbolo da presença Divina. Através das velas do Shabat, Deus se faz sentir nos lares como a Fonte mais importante para a continuidade e sobrevivência do judaísmo.

A mulher da casa tem a honra de cumprir o ato sagrado de acender as velas do Shabat. Mais do que seu castelo, o lar é seu templo, onde ela é a grande sacerdotisa. Com esse ato, a esposa e mãe é reconhecida como a pessoa que traz calor e iluminação à sua família.

Diga que me ama
O dia judaico não começa à meia-noite, mas ao pôr-do-sol, de acordo com os versículos bíblicos: “E foi tarde e foi manhã”  primeiro a noite, depois o dia. Portanto, o Shabat começa na tarde de sexta-feira antes do crepúsculo, quando as velas são acesas. Após o serviço religioso na sinagoga, a família se reúne para uma refeição festiva.

Antes do jantar, o marido judeu é obrigado a cantar uma canção de amor para sua esposa. As letras das canções são muito antigas. As palavras tradicionalmente vêm de Provérbios 31:10-31. O Rei Salomão exalta as virtudes de uma éshet cháil, uma mulher de valor. Exige-se que cada marido faça sua esposa sentir que, aos seus olhos, ela é a mais maravilhosa das mulheres.

Espera-se não só que o homem pense isso, mas que o diga em alto e bom tom. Não é porque os homens nunca pedem orientação quando estão perdidos que estão isentos de expressar sua afeição por aquilo que possuem. Veja bem, mais do que uma amostra de um bom aconselhamento marital, dizer à esposa quanto você a ama é uma mitsvá, uma obrigação religiosa.

Uma garrafa de vinho e uma chalá
O vinho é o símbolo tradicional da felicidade e de ocasiões festivas. A refeição familiar deve ser alegre. Por isso, antes de comer, é recitado o Kidúsh (santificação) sobre um copo de vinho, quando se reconhece que Deus é o Criador e que o Shabat é um dia santo.
A família então “divide o pão”: usa-se um pão trançado especial, a chalá, para simbolizar o entrelaçamento e as conexões que este dia traz. Acredite, a chalá tem um gosto completamente diferente de um pão comum. Não há como descrever o sabor de uma chalá fresca e quentinha; só posso dizer que é “o sabor do mundo vindouro”. Juntamente com o vinho, a chalá e os pratos deliciosos que vêm em seguida, o ritual judaico faz com que as famílias compartilhem um amor, uma alegria e um prazer especial, para os quais estamos normalmente muito ocupados ao longo do ritmo frenético da semana.

O Shabat nos dá tempo para redescobrir nossa família e amigos. Os judeus ortodoxos nem mesmo atendem ao telefone ou ligam a televisão. É tempo de fugir do mundano e do profano e penetrar o universo do sagrado. O Shabat faz com que os judeus encontrem tempo para conversar, cantar, festejar, rezar, estudar e até mesmo fazer amor.

Ao encontrar tempo para fazer aquilo que realmente é importante, o judaísmo descobriu um modo de fazer do homem o senhor – e não uma “vítima” – da passagem dos anos.

Ouvi na sinagoga
Em uma noite de Shabat, um anjo bom e um anjo mau acompanham o homem desde a sinagoga até o seu lar. Caso o homem encontre as velas acesas, a mesa posta e a cama feita, o anjo bom diz: “Que o próximo Shabat seja como este!”, e o anjo mau é obrigado a responder: “Amen”. Caso essas coisas não tenham sido feitas, o anjo mau diz: “Que o próximo Shabat seja como este”! e o anjo bom é obrigado a responder: “Amen”.
Talmud

Extraído de O MAIS COMPLETO GUIA SOBRE JUDAÍSMO

Veja também: O que é respeitar o Shabat?