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Freud já alertava o futuro para a urgência de conhecer o passado. Hoje, num mundo que assiste ao recrudescimento do antissemitismo, da intolerância e do protecionismo, recuperar a memória dos tempos do Santo Ofício da Inquisição, mais do que necessário, é urgente. Foram quase três séculos de perseguição e atrocidades contra populações convertidas à força, vigiadas, humilhadas e aviltadas.
Viver nos Tempos da Inquisição reúne o melhor da produção de Anita Novinsky, uma das maiores pesquisadoras e conhecedoras do período da Inquisição em todo o mundo, falecida em 2021. Uma leitura importante para que estejamos sempre alertas aos ciclos dos acontecimentos históricos, culturais e políticos.
As três grandes religiões monoteístas viveram num clima de grande tolerância na Península Ibérica por séculos, tanto sob o domínio árabe como no período que se segue à Reconquista cristã. A cultura que ali floresceu no cruzamento dessas três tradições inovou em arte, arquitetura, pensamento religioso e, no caso de Portugal, assentaria as bases não só do próprio estabelecimento do país como também dos descobrimentos. Tudo isso mudou no século XV.
Expulsos de vez os árabes que restavam, a intolerância voltou-se contra os judeus. O édito dos Reis Católicos, de 31 de março de 1492, dava a eles duas opções: deixar o país ou converter-se ao catolicismo. D. Manuel I de Portugal faria o mesmo com o édito de 5 de dezembro de 1496.
A partir daí nem mesmo na terra incógnita, a América, eles teriam paz. O Santo Ofício da Inquisição, movido a racismo e ganância e tendo a delação e a tortura por ferramentas, perseguiria os conversos e suas famílias por séculos, transformando as outrora altivas e pujantes nações ibéricas em sociedades empobrecidas e paranoicas.
Eis a história que Anita Novinsky resgata nestas páginas. A seleção de textos presentes neste volume da coleção Estudos cobre uma ampla gama de tópicos e cerca de três séculos da atividade da Inquisição no Brasil e em Portugal, compondo um panorama do trabalho de uma vida inteira dedicada à pesquisa e ao ensino sobre a Inquisição e o antissemitismo.
Num momento de recrudescimento de todas as formas de intolerância em nível mundial, não poderia ser mais oportuno conhecer essa história, que é a de todos nós, para que nunca mais tenhamos de Viver nos Tempos da Inquisição.
Anita Waingort Novinsky foi uma das maiores historiadoras brasileiras, especializada na Inquisição portuguesa no Brasil, nos costumes dos criptojudeus e no renascimento da consciência judaica destes, 200 anos após o fim da Inquisição no Brasil.
Nascida em Stachow (Polônia), imigrou com sua família para o Brasil quando tinha um ano de idade. Graduou-se em Filosofia pela USP (1956), especializou-se em Psicologia pela USP (1958) e em Racismo no Mundo Ibérico pela École des Hautes Études en Sciences Sociales et Religiouses (1977), e obteve o doutorado em História Social pela USP (1970) e o pós-doutorado pela Universidade de Paris I (1983), tendo sido Livre Docente da USP até o fim de sua vida.
Foi a fundadora do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância da USP e era considerada uma autoridade no tema da Inquisição. Professora emérita da Universidade de São Paulo e professora-visitante em universidades americanas e francesas, foi autora de nove livros e uma centena de artigos no Brasil e no exterior.
Em 2013, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico outorgou a ela a distinção de Pioneira da Ciência no Brasil em homenagem à sua trajetória como investigadora.
Faleceu no dia 20 de julho de 2021.
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