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Análise histórica do conflito Israel-Palestina e das propostas de paz no decorrer das últimas décadas.Inclui mapas.
* * *
Ao comentar o lançamento do livro Um Estado, Dois Estados em artigo para a revista norte-americana New Yorker, o crítico David Remnick assim escreveu: “O que é marcante no trabalho de Benny Morris como historiador é que ele não favorece o preconceito de ninguém, muito menos o seu.”Comprometido com a objetividade que caracteriza sua forma de abordar qualquer assunto, Morris, nesta obra, concentra sua atenção no legado dos eventos de 1948 e nas opções concretas para o futuro da Palestina e de Israel.
Ele examina minuciosamente o histórico das metas do movimento nacional palestino e do movimento sionista e considera as várias propostas de um e dois Estados oriundas das diferentes vertentes dentro de ambos os movimentos. Analisa, ainda, a boa ou a má vontade dos dois lados de encontrar uma solução baseada no conceito de compromisso e de “abrir mão” de alguma coisa, e avalia a viabilidade e a praticabilidade das soluções propostas à luz de realidades cáusticas e complicadas.Durante toda sua carreira inovadora, Morris reformulou a compreensão sobre o conflito árabe-israelense. Neste livro, ele apresenta um novo jeito de refletir sobre os desacordos.
[...] o problema da Palestina-Israel e sua solução, nas atuais circunstâncias, representa também uma questão prática. É uma questão de ciência política relativa à melhor ordenação possível da sociedade humana ou duas sociedades humanas em um determinado espaço, tendo em conta a demografia, geografia, política, realidades econômicas, questões culturais, e assim por diante. A questão resume-se à melhor concatenação possível de demografia e de política para os povos que vivem entre o rio Jordão e o Mediterrâneo.
Samuel Feldberg
São Paulo, fevereiro de 2014
Benny Morris se tornou mundialmente conhecido como um dos "novos historiadores", parte de um grupo de intelectuais israelenses que, utilizando os arquivos do final da década de 1940 disponibilizados pelo governo israelense, permitiu reescrever a história da guerra de 1948-1949 que sedimentou a criação do Estado de Israel e deu origem ao problema dos refugiados palestinos e ao título de seu livro "The Birth of the Palestinian Refugee Problem" (1988).
Ao longo de mais de duas décadas, Morris publicaria vários outros títulos sobre o tema, tendo sido inicialmente identificado como um antissionista, pela denúncia dos atos cometidos pelas forças judaicas durante a guerra. Mas em uma polêmica entrevista ao jornal israelense Haaretz em 2004, Morris esclarece suas posições; nela afirma que, ainda que suas obras tenham trazido à luz fatos desconhecidos e desmistificado o ideal sionista, de nenhuma forma deveriam ser interpretadas como uma condenação. Segundo ele, "sem a expulsão de parte da população palestina o Estado de Israel não teria sido criado, e em determinadas condições a expulsão não pode ser classificada de crime; se uma sociedade está engajada na sua destruição, ela te força a destruí-la". Morris expressa ainda sua simpatia pelo povo palestino e por sua perda, mas esclarece que "desde o momento em que a comunidade judaica na Palestina começou a ser atacada pelos árabes, culminando com a invasão dos países vizinhos após a declaração de independência em maio de 1948, não havia opção a não ser expulsar uma população hostil; o que só se tornou possível no curso dos combates".
Morris passou por uma profunda transformação. Começou investigando os rumores de crimes praticados durante a guerra para, uma década depois, passar a explicar por que foram cometidos; transformou os palestinos de vítimas em responsáveis pelo destino que os acometeu; e culminou, com seu último livro, numa análise da viabilidade existencial de dois Estados lado a lado, entre o Mediterrâneo e o rio Jordão.
É esse o tema desta obra. Sionistas e árabes palestinos apoiavam até o final da década de 1930 a criação de um único Estado na região, sempre dominado por seus próprios povos. Foi a conclusão da Comissão Peel em 1937 que levou a facção majoritária do sionismo a apoiar a ideia da partilha, que viria a se concretizar dez anos depois. Quase setenta anos depois, a questão ainda não foi resolvida. Jordanianos e egípcios ocuparam por vinte anos a maior parte do território destinado à criação de um Estado palestino independente, e desde a Guerra dos Seis Dias Israel tem controlado o território e uma população de milhões de civis palestinos. Ao longo de sucessivos governos, de esquerda e de direita, Israel promoveu a construção de assentamentos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, parte deles com o claro objetivo de determinar uma nova fronteira, viável, que corrigisse as aberrações decorrentes da linha de cessar-fogo de 1949, que se tornou a fronteira de facto entre Israel e a Jordânia. Na década de 1980, o rei Hussein abandonou sua demanda pelo território, o que tornou a Organização para a Libertação da Palestina o legítimo representante do povo palestino, quase concomitantemente com o surgimento do grupo Hamas.
Após dois levantes populares violentos, e um fracassado processo de paz, Morris coloca em questão a viabilidade de um Estado palestino independente, assim como a de um Estado binacional. Sua lógica baseia-se na conclusão de que os palestinos não estão dispostos a aceitar a partilha do território e, portanto, a questão básica é a decisão da ONU de 1947 e não a redefinição das fronteiras de 1949 (ou 1967).
A proposta do autor para solucionar o problema remete a alegações passadas de líderes israelenses, que definiam a Jordânia como um Estado palestino já existente e detentora da maior parte do território do mandato da Palestina histórica. Um retorno ao status quo ante de junho de 1967 uniria a Cisjordânia e a Faixa de Gaza ao reino hachemita e solucionaria o problema israelense, mas certamente não atenderia às reivindicações palestinas.
O tema do conflito israelo-palestino vem sendo cada vez mais discutido no Brasil, exaltando ânimos e provocando discussões acaloradas e muito pouco embasadas. Assim, a publicação de Um Estado, Dois Estados vem contribuir para o debate e para aprofundar o conhecimento sobre o tema, ainda que não esgote a discussão nem apresente propostas definitivas.
Apresentação
Prefácio à edição brasileira
Agradecimentos
Mapas
Siglas
1. A retomada da discussão sobre um único Estado
2. Histórico das soluções contemplandoum Estado e dois Estados
3. Perspectivas para o futuro
Notas
Bibliografia
Um Estado, Dois Estados é um trabalho histórico-político. Descreve a evolução, ou a não evolução, da ideologia básica e das plataformas políticas de dois movimentos nacionais, o judaico (sionismo) e o árabe-palestino, de suas origens até os dias atuais. Está focado nas várias atitudes relativas a questões nacionais e à partilha, ou não, da Palestina, e nas trajetórias históricas dos dois movimentos, entre 1882 e 2009, data da primeira edição deste livro.
Os dados históricos e a análise fornecida neste trabalho levaram-me à conclusão política, quase inevitável, de que o movimento sionista e Israel estiveram e continuam abertos, em princípio, à ideia de um acordo de paz que contemple dois Estados. Não é o caso, por outro lado, do movimento nacional palestino, tanto de sua ala islamista quanto de sua ala secular.
A meu ver, nada mais mudou desde então. Ou, talvez, muito tenha mudado no Oriente Médio – mas nada que contribuísse positivamente para a solução do conflito israelo-palestino.
É verdade que as negociações de paz entre Israel e os palestinos foram retomadas em 2013, após uma interrupção de cinco anos, e que esse diálogo é por si louvável. Mas nada mudou em relação à disposição palestina de ceder. Os líderes palestinos continuam aferrando-se a posições que, explícita ou implicitamente descartam a ideia de dois Estados para dois povos: o Hamas, que venceu as eleições gerais palestinas em 2006 e controla a Faixa de Gaza, clama abertamente pela destruição de Israel e a criação de um Estado governado pela sharia em toda a Palestina histórica (ou Terra de Israel, conforme a nomenclatura israelense); e a Autoridade Palestina, liderada pelo presidente Mahmud Abbas, continua a exigir de Israel o “direito de retorno” para os refugiados de 1948 (que com seus descendentes, como reconhecidos pela ONU, somam aproximadamente 5 milhões). Considerando a população israelense de 6 milhões de judeus e 1,4 milhão de árabes, a implementação de tal retorno transformaria Israel em um Estado de maioria árabe, ou seja, eliminaria o Estado de Israel. Abbas também continua a se opor à ideia de reconhecer Israel como “Estado judeu” (e a expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia majoritariamente habitada pelos palestinos certamente não contribui, levando muitos palestinos a sentirem que Israel não é séria em relação à paz).
Mais amplamente, as enormes transformações que sacudiram o Oriente Médio árabe e o norte da África desde o início de 2011 resultaram, até agora, menos na emergência de democracias e mais na chegada ao poder de partidos e movimentos extremistas islâmicos. Enquanto estas linhas são escritas, os islamistas controlam a Tunísia, a Líbia e o Iêmen, e têm uma poderosa presença no Egito (onde governaram brevemente e de maneira absolutamente incompetente, tendo sido retirados do poder à força pelos militares).
Na Síria, islamistas dominam diversos grupos que lutam contra o governo de Bashar al-Assad em uma sangrenta guerra civil. Em outras partes da região, no Bahrein e na Jordânia, os islamistas são menos proeminentes, mas apesar disso se mantêm como uma ameaça latente aos governos pró-ocidentais e à governança racional.
Todos os islamistas repudiam a legitimidade israelense e apoiam a destruição de Israel (como o faz o Irã, que concretamente apoia vários desses movimentos), fornecendo suporte material e político a aqueles palestinos que se recusam a negociar e assinar a paz com o Estado judeu. Com o fortalecimento do Islã militante nos corações e mentes ao redor do mundo árabe, há pouca esperança de que os palestinos farão importantes concessões para obter a paz. Ao contrário, com a sensação de que têm a história e a demografia a seu favor, podem sentir que tudo que precisam fazer é manter-se firmes e esperar, que Israel declinará e desaparecerá; e a Palestina – na sua totalidade – cairá em suas mãos como uma fruta madura.
Nas próximas décadas as coisas poderiam mudar: o Irã poderia se tornar uma democracia reformista; os seculares poderiam derrotar os islamistas no mundo árabe afora, instituir democracias verdadeiras e, eventualmente, mesmo de forma relutante, aceitar a existência de um Estado judeu em seu meio, no centro do Oriente Médio. Mas duvido que isso aconteça. Enquanto isso, os israelenses e palestinos golpearão uns aos outros e talvez continuem a negociar. Mas não sou capaz de visualizar o fim deste conflito.
Benny Morris
(traduzido por Samuel Feldberg)
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