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Parada de frente para a mesa de mogno, composta por dez lugares e ocupando grande parte da minha sala, meus pensamentos voam longe. O passado teima em vir à tona; traz de volta para mim meus entes queridos que já se foram e outros, outrora crianças e agora já adultos formados. Vejo todos eles sorrindo, brindando ao novo ano judaico, cantando as músicas da Hagadá de Pêssach, comemorando mais um aniversário em família. As imagens se confundem, embaralham-se em minha mente, mas o fato é que me sinto feliz, plena. São meus netos, meu filho, meu amado marido, meus sobrinhos, todos à minha volta. Ainda os vejo, apesar de a sala vazia insistir em me chamar à realidade; escuto suas vozes, seus risos, as bênçãos proferidas, e sinto que, de alguma forma, elas me dizem, pedem-me para que eu não deixe que essas memórias sejam esquecidas, que se desbotem com o tempo. Sinto que devo isso a eles, a mim mesma...
Feliz de quem teve uma vida intensa, que vale a pena rememorar; repleta de significado, de amor ao próximo, de dedicação à causa judaica; eu, graças a Deus, posso me orgulhar de ter tido uma assim. Somos seres finitos, que vêm ao mundo por um curto período de tempo: setenta, oitenta, cem anos. O que resta de nós, senão nossos atos, nosso engajamento, nossa atitude perante a vida? Bom seria se cada um de nós tivesse a oportunidade de deixar registrada a sua passagem por esse mundo: seus medos, incertezas, expectativas e, principalmente, seu aprendizado. Quão rico seria esse legado!
Agradeço a Deus por mais uma vez fazer de mim uma pessoa privilegiada, por poder contar a minha trajetória. Se escrevo, não o faço apenas por mim, para relatar as minhas experiências. Faço também, em grande parte, em nome de vários de meus familiares que não tiveram sequer a oportunidade de pensar em fazê-lo, que foram exterminados nos campos de concentração nazistas.
“Quem somos nós? De onde viemos? Por que estamos aqui?” A idéia de escrever e contar a minha história, a história de minha família, veio, em parte, pela ânsia em responder a essas questões, tantas vezes formuladas por meus sobrinhos e netos. Se, a princípio, a idéia era escrever um pequeno livreto de forma sucinta, já que sei que a juventude de hoje não tem muita paciência para longas narrativas, acabei por me envolver num projeto muito maior do que poderia sonhar. Dessa forma, por iniciativa de pessoas tão queridas e amigas, consigo deixar expresso o longo e tortuoso caminho engendrado por meus avós e pais, que vieram de terras tão longínquas para este país que acabou nos acolhendo de forma tão afetuosa.
Para além da história familiar, sinto-me feliz por poder narrar a minha própria, a qual, parte por destino e muito por escolha, foi uma vida rica em experiências únicas. Num momento em que o “in” é viver voltado para si mesmo, para os seus interesses e necessidades, alegro-me por deixar um legado de amor ao próximo. Posso dizer, sem falsa modéstia, que procurei “fazer a diferença”, procurei ser digna e deixar minha marca neste mundo. E acredito que, muito mais até do que eu possa ter dado ao outro e doado de mim mesma, eu recebi. Não falo de homenagens, placas, títulos; falo de uma experiência de vida incalculável, falo da satisfação de fazer o bem, da emoção e gratidão das pessoas as quais eu pude ajudar. E tudo isso não tem preço, não tem como se calcular e, na verdade, nem como se ensinar. Cada um deve tomar as rédeas da vida em suas mãos e procurar se dedicar ao outro naquilo que for possível. Mas se, de alguma forma, com a leitura deste livro, eu conseguir gerar pelo menos a reflexão, já terá valido a pena!
Fany Rozentraub
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