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Depois do sucesso de CASHER NA PRÁTICA, o autor escreve agora sobre os porquês da Cashrut, baseado em inúmeros comentaristas e pensadores judeus de todas as épocas. Leitura indispensável para quem deseja entender os meandros e significados da milenar dieta alimentar judaica. Capa dura
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Veja também:
O que é Cashrut?
Antologia do Pensamento Judaico sobre as Leis Dietéticas Judaicas
de Eliahu Birnbaum e Shalom Rosenberg
É muito comum as pessoas se perguntarem o motivo de cada preceito e costume da nossa religião, tanto aqueles que os praticam, quanto aqueles que não – mas que convivem conosco e têm curiosidade em entendê-los. Na realidade, se antes de praticarmos cada um dos preceitos parássemos para pesquisar o seu porquê, chegaríamos ao final do dia tendo entendido apenas um ou dois deles. Embora com o tempo esse número aumentasse, certamente este é um método inviável para um judeu observante que deseja realizar todas as suas obrigações.
Normalmente, somos educados a praticar as mitsvót mesmo que ainda não entendamos suas razões. Contudo, nada impede que, em paralelo, pesquisemos os motivos de cada comportamento. Pelo contrário, esta pode ser uma prática positiva, que nos leva a ter mais prazer no cumprimento dos preceitos da Torá.
Naassê venishmá foram as palavras que o povo de Israel disse ao Criador no momento da outorga da Torá, ou seja, “Faremos e (depois) escutaremos”. Assim nos comportamos até hoje: aprendemos o que fazer, fazemos e depois procuramos entender as razões. Se entendemos, muito bem, e se não, também muito bem, pois temos consciência de que todos os preceitos são divinos, todos foram outorgados por nosso Criador, aquele que melhor nos conhece e que nos quer apenas o bem. Não é tudo que nossa mente humana consegue captar.
Esta obra trata das mitsvót relacionadas ao nosso alimento propriamente dito. Existem mais normas ligadas à nossa alimentação, como o fato de lavarmos as mãos antes de comer o pão, proferirmos bênçãos específicas para cada alimento antes de ingeri-los, nossa postura na hora da refeição, entre outras. Contudo, dedico estas páginas apenas ao próprio alimento casher. Tentarei explicar as razões de muitas destas normas milenares que nos acompanham desde a criação do mundo, sendo incrementadas de modo considerável no momento do recebimento da Torá.
Mas antes disto, seria interessante abordar as seguintes questões: será que devemos ficar procurando razões para as mitsvót, ou talvez isto seja considerado uma ofensa e falta de fé no Criador, como se desconfiássemos de Sua sabedoria? Ou mesmo pelo fato de que, ao saber a razão, poderíamos discutir se esta é suficiente e satisfatória, e se é aplicável em nosso contexto, anulando certos preceitos? Também poderíamos nos questionar se há realmente razões para estas mitsvót, ou se são apenas tarefas que o Criador deseja que realizemos para nos “recompensar”, mas que na realidade elas por si só não tem nenhuma razão?
A mishná, no Tratado de Brachot 33b nos ensina que se alguém disser em sua oração “al ken tsipor iaguiu rachamecha” (“Tua piedade chega até ao ninho do pássaro”), deve ser silenciado. A mishná está se referindo àquele que lembra em sua oração que o Criador é piedoso, já que nos ordenou espantar o pássaro mãe antes de pegar seus ovos e, portanto, se apiedará de nós também.
Na sequência, o Talmud pergunta a razão desta lei. O que há de errado nesta oração? Por que esta pessoa deve ser silenciada? E o Talmud traz duas respostas: nós o silenciamos, pois com sua afirmação esta pessoa pode acabar criando um clima de inveja e ciúmes entre as criaturas, o que talvez levasse a entender que o Criador tem mais piedade dos pássaros que dos outros.
A segunda resposta é que nós o silenciamos pois, de sua afirmação parece que as mitsvót que o Criador nos ordenou são por Ele ter piedade dos pássaros, no caso desta mitsvá, e por razões similares, no caso de outras. Porém, na verdade, o preceito de shilúach haken, espantar o pássaro mãe antes de pegar os ovos, não nos foi ordenado pelo fato de o Criador ter pena dos pássaros, mas sim por ser um decreto que devemos cumprir.
Aparentemente, da segunda resposta deduzimos que devemos cumprir as mitsvót como decretos, sem procurar motivo nenhum e nem mesmo a razão aparente pode ser cogitada.
O sábio Ramban* (Nachmânides), na parashat (porção semanal da Torá) Ki Tetsê, no trecho que trata desta mitsvá, tenta explicar seu motivo. Em seguida, traz a explicação de outro sábio, o Rambam (Maimônides) sobre a mesma, em seu livro Morê Nevuchim (Guia dos Perplexos). Logo na sequência, traz o comentário de Maimônides sobre seu próprio comentário, dizendo que não devemos questioná-lo sobre como ele pôde ter dado razões para esta mitsvá, se o Talmud nos diz que devemos silenciar quem disser tais coisas. O Talmud nos traz outra explicação para esta mesma mishná, a qual prevalece e tomamos como caminho de vida. Como mencionei acima, o motivo que silenciamos o indivíduo não é por ele dar razões às mitsvót, mas por ele criar inveja entre as criaturas, que é um problema específico deste caso.
Portanto, procurar explicar as mitsvót é algo permitido e, aparentemente, positivo, tanto que Maimônides, e vários outros comentaristas da Torá e do Talmud, muito se dedicaram a isto.
O Ramban, depois de trazer as palavras de Maimônides, desenvolve uma ideia muito interessante em torno do princípio que, toda mitsvá, além de nos dar o direito à recompensa por tê-la cumprido, também nos beneficia, influenciando positivamente em nossa personalidade. Ele acaba explicando que, realmente, o Criador não nos ordenou expulsar o pássaro mãe por sentir piedade do mesmo. Prova disto é que nos é permitido pegar os ovos, e nos é permitido matar animais para comer ou usar seu couro. Foi dado ao ser humano o uso e consumo dos animais e seus derivados e, nestes casos, a piedade não criou restrições. Existe uma proibição de maltratar animais desnecessariamente, mas este não é o caso. Portanto, conclui Ramban, a razão de termos que expulsar o pássaro mãe antes de pegar os ovos é para nos educar e criar dentro de nós mesmos um senso de piedade e misericórdia. É um decreto divino que tem por finalidade aprimorar nossa própria personalidade.
Segundo esta teoria, podemos procurar razões em todas as mitsvót, pois além de serem decretos, elas possuem sempre algo para nos beneficiar, física ou espiritualmente. Às vezes, conseguimos ver o benefício, outras vezes não, o que não quer dizer que inexista.
Poderíamos nos perguntar: se é bom sabermos os motivos da mitsvót, por que a Torá não os revelou, cada um em seu lugar?
Na verdade, esta questão é abordada pelo Rabi Its’chac e é trazida no Tratado de San’hedrin (folha 21b). Pergunta o Rabi Its’chac: porque a Torá não trouxe a razão das mitsvót? Imediatamente, responde: há dois versículos que trazem as razões dos preceitos mencionados neles e, como consequência, o rei Salomão, conhecido como o mais sábio dos homens, acaba pecando nestes dois preceitos. Como isto aconteceu? Simples. O rei Salomão pensou: se esta é a razão, então em meu caso, não se aplica, e acabou errando. Trata-se da proibição do rei possuir muitas esposas e muitos cavalos. É proibido ao rei ter muitas esposas, pois estas podem desviar seu coração do caminho Divino. O rei Salomão achou que ele estava além desta ameaça. Enganou-se. É proibido ao rei ter muitos cavalos, pois, eventualmente, acabaria trazendo seu povo novamente ao Egito, para captar os cavalos. Salomão achou que com ele isto não aconteceria. Novamente, enganou-se.
Vemos que existe uma vantagem em ter oculto os motivos das mitsvót. A natureza do ser humano é fazer especulações e, deixando o assunto misterioso, torna-se mais difícil a especulação.
No entanto, vemos grandes e tementes sábios que se dedicaram a este estudo. Para conciliar as ideias, creio que podemos dizer que quando a Torá não revela o motivo da mitsvá, isto já cria dentro de nós certa cautela quando formos avaliar se esta se aplica em nosso caso ou não, pois, quem saberia qual o verdadeiro motivo e quantos são? Por um lado podemos procurar razões para cumprir determinada mitsvá, tornando seu cumprimento mais fácil e agradável, principalmente àqueles que estão retornando ao cumprimento da Torá. Por outro lado, não corremos o risco de cair no erro cometido até mesmo pelo mais sábio dos homens.
O autor do Sefer Hachinuch (preceito 159), sobre a mitsvá que trata da impureza dos sheratsim (animais rastejantes que ao morrer apresentam um tipo de impureza diferente dos outros), começa se desculpando que nem tudo é possível explicar, pois até mesmo Moisés, que alcançou o nível mais alto de compreensão, não recebeu o quinquagésimo e derradeiro grau de conhecimento. O mesmo vale para o rei Salomão, a quem foi privada a compreensão sobre o preceito da “Vaca Vermelha”. Por outro lado, ele diz que ninguém põe em dúvida que qualquer preceito ditado pelo Criador é para o nosso bem.
Portanto, ele conclui que, ao entendermos algum preceito, podemos nos contentar, e quando não o entendemos, devemos pensar que o Criador, que possui uma compreensão infinitamente maior que a nossa, entendeu que isto é bom para nós.
Em seguida, ele traz a questão que já mencionei: se vemos que o Criador ocultou o motivo das mitsvót, isto é sinal de que não devem ser reveladas, conforme explicado no Talmud. Então, como pode ele mesmo (o Sefer Hachinuch) ficar procurando explicação para as mesmas? Ele responde que não é o primeiro a fazer isto, e que esta é uma prática antiga dos nossos sábios como pode ser avaliado nos livros antigos. Creio que a resposta que trouxe acima complementaria esta outra. Explicações que foram oferecidas pelo homem não apresentam o risco mencionado, como ocorre no caso em que a própria Torá traz a razão. Por outro lado, trazem o benefício que a compreensão oferece aos que praticam as mitsvót. Por isso, tantos sábios se empenharam em procurar razões para cada mitsvá.
Vale a pena mencionar o comentário trazido no livro Chanucat Hatorá, do Rabino Heishil, na parashat Chucat. Ele cita um midrash que conta que o rei Salomão encontrou explicações sobre tudo o que a Torá nos ordena, mas quando chegou no caso da Vaca Vermelha (Pará Adumá), declarou: “Por mais sábio que fique, ela está distante de mim.”
É sabido que a razão da Vaca Vermelha, usada na purificação daqueles que tiveram contato com mortos, foi revelada apenas a Moisés. Contudo, encontramos diversas tentativas de explicações sobre ela. Podemos imaginar que o rei Salomão, com toda sua sabedoria, também tenha conseguido dar diversas razões lógicas para este preceito. Mas Salomão sabia que apenas a Moisés, foi revelado o segredo. Isto significa que apesar de todas as explicações que encontrou, ele ainda não sabia a verdadeira razão.
Salomão, ao estudar o assunto da Vaca Vermelha, deparou-se com uma dura realidade. Percebeu que mesmo quando achava que havia entendido algo, podia não ser verdade, e a prova disto era a Vaca Vermelha. Então, chegou à conclusão de que todas as explicações encontradas para os outros preceitos, os quais aparentemente já lhe estavam claros, podiam ser erradas ou insuficientes. Isto o levou a declarar: “Por mais sábio que eu fique, ela está distante de mim”. Segundo o Rabino Heishil, a declaração não se refere apenas à Vaca Vermelha, mas a toda a Torá.
Este comentário vai ao encontro do que nos conta o Gaon Rabino Eliahu de Vilna, no início de parashat Tazria: todas as mitsvót possuem sua razão revelada e sua razão oculta. Portanto, mesmo quando, aparentemente, em determinado caso, não precisamos cumprir certa mitsvá, devemos avaliar se não há alguma outra razão oculta pela qual devemos cumpri-la.
Cartas de Anuência
Agradecimentos
Prefácio
Sobre os motivos das mitsvót
Afinal, carne faz bem ou mal?
Os porquês das mitsvót relacionadas aos animais
Guid hanashê (O nervo ciático)
Otô veet benô
Trefá
Chelev (Sebo)
Dam (sangue)
Os decretos contra o abate casher
Ever min hachai
Carne com leite
Tolaim (vermes e insetos)
Peixes com escamas
Chazir (Porco)
Col haiotse min hatamê, tamê
Os porquês das mitsvót relacionadas aos vegetais
Chalá
Orlá e neta revai
Chadash (cereais novos)
Cuidado com as posses
Chamets em Pessach
Kitniyot
Yain nessech e stam yenam
Comentaristas e conceitos
Há alguns anos publiquei um livro sobre as leis da cashrut – a dieta alimentar judaica – que chamei de Casher na Prática. Graças a Deus, a crítica do público foi muito positiva. Sinto que tive o mérito de oferecer algo que realmente serviu à comunidade judaica brasileira.
Contudo, percebi que o trabalho ficou incompleto. Diversas pessoas disseram que não encontraram em meu livro respostas àquelas dúvidas que sempre tiveram, o que poderia tê-las interessado mais em seguir estes preceitos. O público mais observante obteve muito proveito desse livro de halachot (leis judaicas), pois ele expôs, de modo prático, como cumprir a cashrut. Já o público menos observante, que procurava em meu livro explicações sobre os comportamentos a serem seguidos e que lhes pareciam estranhos, obviamente não encontrou isso nele, pois o tema abordado não era esse.
No meu dia-a-dia como responsável por decisões que envolvem o tema da cashrut, também sou questionado constantemente sobre as razões desta ou daquela mitsvá (preceito) relacionada geralmente à cashrut. Muitas vezes, não soube exatamente o que dizer e como explicar estas questões. Isto se deve ao fato de o estudo das leis ser, em geral, muito técnico e focado em compreender suas minúcias, suas fontes e como as aprendemos. Geralmente, as razões e os motivos das mesmas não fazem parte da matéria tradicionalmente estudada. Quem deseja saber mais sobre este assunto, deve pesquisar em outros livros – como os dos comentaristas da Torá ou de machshavá (pensamento judaico), que abordam temas mais filosóficos.
Resolvi então que seria de grande proveito – não só para o público em geral, como também para os que já seguem todos os preceitos e participam de comunidades religiosas – compilar comentários sobre muitas das mitsvót (plural de mitsvá) relacionadas à prática da cashrut. Chamei esta obra de Casher na Teoria, sugerindo que a mesma vem complementar a anterior.
Sobre a importância das leis da cashrut, podemos dizer que elas são mitsvót diferentes de muitas outras sobre as quais a Torá nos diz “faça isto” ou “não faça aquilo”. A diferença é que, quando ingerimos um alimento proibido, ele passa a fazer parte de nós. Nosso corpo é composto do que comemos. Tudo que ingerimos influencia a nossa personalidade e, portanto, devemos ter um cuidado maior com estas mitsvót. Isto explica o fato de muitas famílias serem muito rigorosas com estes preceitos, até mais do que com outros.
Estou ciente de que há muito mais a ser explicado e que há outras mitsvót que poderiam ser abordadas, mas isto não invalida esta proposta. O importante é que o leitor saiba de antemão que a Torá e seus comentários são como um imenso oceano, e que o que foi trazido aqui não chega a ser sequer uma gota. Portanto, se não encontrar neste breve trabalho explicações que o satisfaça, não pense que isto é tudo e não desista de procurá-las em outras obras.
Aproveitei a oportunidade também para apresentar no final do livro breves resenhas sobre os sábios e mestres citados nesta obra, para que os leitores os conheçam melhor e se familiarizem com eles. Eles estão sinalizados por um asterisco.
Rabino Ezra Dayan
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