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Compreender Israel exige ir além das manchetes.
Poucos países despertam tantos debates quanto Israel. Para entender sua história, seus conflitos e seu papel no mundo contemporâneo, é preciso olhar além das notícias imediatas e voltar às raízes de uma trajetória marcada por fé, sobrevivência, guerra, inovação e esperança.
Em O Enigma de Israel, o jornalista Henrique Cymerman, correspondente no Oriente Médio há mais de três décadas, conduz o leitor por um retrato profundo e ponderado de uma das nações mais complexas do mundo. Judeu nascido em Portugal, Cymerman entrevistou todos os líderes do Hamas desde a década de 1990, acompanhou de perto os bastidores da diplomacia regional e colaborou com o Papa Francisco em iniciativas pela paz.
Das raízes milenares do povo judeu à fundação do Estado moderno de Israel, da ressurreição do hebraico às operações do Mossad, das tensões internas da sociedade israelense aos acontecimentos de 7 de outubro, o autor revela as luzes e sombras de um país em permanente reinvenção.
Leitura indispensável para quem deseja compreender Israel, o Oriente Médio e as manchetes que continuam a moldar o presente.
PREFÁCIO
INTRODUÇÃO
PRÓLOGO
OS ISRAELENSES: A SEGUNDA GUERRA DA INDEPENDÊNCIA
1. BREVE HISTÓRIA DA TERRA DE ISRAEL
O povo de Israel: 4 mil anos de existência
Emancipação
O judaísmo na Península Ibérica
Dona Gracia: a mulher mais poderosa da sua época (1510-1569)
2. SIONISMO E ALIÁS (1881-1918)
Davi a David: do rei de Jerusalém ao primeiro-ministro Ben-Gurion
O sionismo moderno
A Primeira e a Segunda Aliás
A Declaração Balfour: 67 palavras que mudaram a história
A Terceira e a Quarta Aliás
Altalena: Israel à beira de uma guerra civil
A Quinta Aliá
Shoá: Holocausto
3. A CONSTRUÇÃO DO ESTADO (1918-1948)
Os kibutzim marcam as fronteiras
Os britânicos tentam impedir a imigração judaica
A primeira oportunidade perdida para a criação do Estado Palestino
Os britânicos deixam a chave debaixo do tapete
Não há tempo para festas: a invasão árabe do novo Estado
A Guerra da Independência (1948): o drama dos refugiados palestinos
A Guerra da Independência (1948): o drama dos refugiados judeus do mundo árabe
4. O ESTADO DE ISRAEL
Hino e bandeira
A única democracia liberal entre a União Europeia e a Coreia do Sul
Demografia: Israel ultrapassa os 10 milhões de habitantes
Economia israelense: Moisés enganou-se
Estados Unidos: o principal aliado
Israel, Terra Santa para judeus, cristãos e muçulmanos:
demasiada história para tão pouca geografia
O julgamento de Eichmann em Jerusalém: sarar o maior trauma de um povo
Será que Israel vai desaparecer? A maldição da oitava década
O movimento de protesto em Israel: Shikma Bressler
Os líderes mais destacados da história de Israel
David Ben-Gurion: o primeiro
Golda Meir: a primeira mulher a liderar Israel
Moshe Dayan: o arquiteto da grande vitória militar de Israel
Menachem Begin: um líder de convicções e contradições
Isaac Rabin: o general da paz assassinado pelas suas ideias
Benjamin Netanyahu: o líder com mais tempo no poder
Shimon Peres: um visionário à frente do seu tempo
Naftali Bennett: o principal rival de Netanyahu
Yitzhak Herzog: Chefe de Estado no período mais conturbado
Yair Lapid: um centrista convicto numa era de radicalismo
Benny Gantz: seguindo os passos do general Rabin
5. O CONFLITO MAIS LONGO
O conflito Israel-Palestina
A essência do eterno conflito
O Hamas controla Gaza
O futuro de Gaza: exílio palestino ou regresso da Autoridade Palestina?
Ainda é possível um Estado Palestino? Ou tornou-se uma miragem após o massacre de 7 de outubro?
Israel: um projeto colonial?
Oriente Médio: o inesperado é o mais previsível
6. CONQUISTAS E DESAFIOS
Conquistas
O hebraico: a Bela Adormecida ressuscita
O maior número de imigrantes per capita do mundo
As guerras de Israel: o exército mais poderoso entre a Indonésia e Gibraltar
A Guerra da Independência (1947-1949)
A crise do Suez (1956)
A Guerra dos Seis Dias (1967)
A Guerra de Yom Kipur (1973)
A primeira Guerra do Líbano (1982-1983)
A segunda Guerra do Líbano (2006)
Israel: uma força aérea com um país
Espionagem e sobrevivência: a pegada da Mossad
Os acordos de paz: Egito, Jordânia e OLP
A revolução do paradigma: ventos de mudança no Oriente Médio
A continuação dos Acordos de Abraão e a normalização histórica com a Arábia Saudita
Entre a “Start-up Nation” e a “Start-up Region”: das dentaduras de Perón ao maior número de empresas no Nasdaq
Os prêmios Nobel e a mãe judia
A central nuclear de Dimona: armas nucleares para evitar outro Auschwitz
Os satélites israelenses de espionagem
Desafios
O fantasma da queda do Terceiro Templo: como fazer a paz entre as quatro tribos de Israel
O desafio socioeconômico: um quinto da população israelense vive abaixo do limiar de pobreza
A luta pela democracia numa região onde praticamente não existem democracias
Israel: o único país do mundo sem fronteiras reconhecidas
Irã: a principal ameaça à existência de Israel
A primeira guerra entre Israel e o Irã: 13 a 23 de junho de 2025
Israel: centro do mundo midiático
Jornalismo McDonald’s: a primeira guerra do TikTok no Oriente Médio
A matança do Hamas de 7 de outubro
As feridas invisíveis
O desafio do antissemitismo a partir de 7 de outubro: o direito a ser diferente
Definições de antissemitismo e de sionismo
O antissemitismo nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina
O “eterno” conflito tem solução? Uma proposta de paz
A solução proposta
As Rotas dos Perfumes do século XXI
ISRAEL 2048: REFUNDAÇÃO?
O meu nome é Henrique Cymerman. Sou judeu, nascido em Portugal, com profundas raízes espanholas. Um dos meus antepassados chegou à Península Ibérica vindo da Alemanha no final do século XIII. Atualmente vivo em Tel Aviv.
Trabalho há mais de três décadas para diversos meios de comunicação (sobretudo televisivos, entre eles a sic) de dez países em quatro continentes. A minha especialidade é a política do Oriente Médio.
Além do que faço no meu trabalho profissional, por convicção pessoal sempre me empenhei na promoção do entendimento entre o país que adotei como meu e o mundo árabe. Por exemplo, sou o único jornalista que entrevistou todos os líderes do Hamas desde os anos 1990 e fui um dos fundadores da Câmara de Comércio e Inovação entre Israel e os países do Golfo. Em nome do Papa Francisco, colaborei com ele durante 12 anos no diálogo entre israelenses e palestinos, organizando a primeira Oração pela Paz no Vaticano entre os presidentes Mahmoud Abbas e Shimon Peres.
Na última década, contribuí para os Acordos de Abraão e procurei promover o diálogo entre muçulmanos e judeus.
Para mim, a paz no Oriente Médio é mais do que um desejo teórico e distante — é o culminar de um projeto pessoal. Por isso, sempre que o vulcão na margem oriental do Mediterrâneo desperta, levo as mãos à cabeça e penso: “Outra vez, não!”. Acredito que a nossa geração não se pode dar ao privilégio de deixar aos nossos filhos e netos a difícil missão de alcançar a paz. A chave para a mudança é a educação, isolando os radicalismos de todos os lados. Na minha família, não nos limitamos a falar disso — agimos nesse sentido. De fato, essa é a única esperança para mudar o futuro.
As imagens e os acontecimentos que se desenrolaram em Gaza desde o ataque do Hamas, em 7 de outubro de 2023, são dolorosos para qualquer pessoa — também para um judeu e para um cidadão israelense. Em Israel, não somos indiferentes ao sofrimento nem aprovamos acriticamente todas as medidas tomadas. Cada morte é uma tragédia.
O governo de Netanyahu é profundamente impopular em vastos setores da população e foi favorecido pelos acontecimentos de 7 de outubro. Como é sabido, os extremos alimentam-se mutuamente. Esta guerra já devia ter terminado pelo menos em março de 2025.
É também importante compreender que a incursão do Hamas em 7 de outubro encarnou todos os fantasmas e pesadelos dos israelenses (inclusive dos árabes israelenses, que também foram afetados). Tive oportunidade de ver o vídeo com imagens captadas após a entrada do Hamas nas localidades devastadas. Quando, dias depois, cheguei ao kibutz Nir Oz — onde um quarto da população foi assassinada ou raptada, incluindo amigos de Buenos Aires próximos do Papa Francisco —, vi coisas que gostaria de esquecer, mas que sei que jamais as conseguirei apagar da memória. Algumas revelei, outras não tive coragem de relatar por respeito aos pais, às mães e aos filhos das vítimas. Muitas vezes, estas famílias recusam-se a divulgar os pormenores do que se passou por pudor e respeito, algo muito enraizado na tradição judaica. Na época dos atentados suicidas do Hamas, nos anos 1990 e início dos anos 2000, já tinha percebido esse fenômeno: os familiares não queriam mostrar as imagens dos seus entes queridos assassinados. Quando há um dilema entre responder aos que afirmam que as violações são uma invenção israelense ou respeitar a privacidade das vítimas, a maioria dos israelenses não tem dúvidas.
Este livro é uma tentativa de explicar ao leitor em língua portuguesa o enigma de Israel para além da premência dos títulos noticiosos. A ideia nasceu na sequência dos terríveis acontecimentos de 7 de outubro de 2023, e por isso também quis que fosse publicado exatamente dois anos depois — para sublinhar a importância dessa data na história de Israel e no eterno conflito com o mundo árabe.
Como é possível que, apesar de ocupar milhares de manchetes nos meios de comunicação em todo o mundo, Israel continue a ser tão desconhecido? Será ignorância? Má-fé? Prefiro acreditar que é a complexidade — as verdades absolutas são absolutamente frágeis.
Para compreender o presente, é preciso conhecer o passado. Por isso, quis que este livro híbrido (abarca relações internacionais, política, atualidade) incluísse um forte componente histórico não apenas sobre Israel, mas também sobre o povo judeu.
Talvez, em Portugal, se veja Israel como uma grande potência militar apoiada por uma superpotência global. É verdade — mas não é toda a verdade. Basta olhar para o mapa da região e ampliá-lo: Israel é tão pequeno que, conforme a escala, nem sequer aparece. Esse território de 22.145 km², com uma população de 10,1 milhões de habitantes (dos quais 2,1 milhões são árabes), está rodeado por países que são mais ou menos hostis à causa israelense — ou, no mínimo, são árabes ou muçulmanos. A norte, até à Turquia; a oeste e sul, ao longo da margem Sul do Mediterrâneo até Marrocos e Iêmen; a leste, quase até à Indonésia. Ou seja, estamos falando de perto de 2 bilhões de pessoas. Esta perspetiva raramente é mencionada nos noticiários, mas faz parte da realidade que queremos analisar.
Como se verá nas páginas deste livro, os judeus são nativos desta terra há milhares de anos — muito antes de o rei Davi declarar Jerusalém como capital há três milênios. A história do Estado de Israel nasce no contexto do maior genocídio da história, o Holocausto, ocorrido no coração da Europa. Mas desde a proclamação do Estado de Israel, em 14 de maio de 1948, o país teve de enfrentar a hostilidade dos seus vizinhos. Durante anos tentou alcançar um entendimento para uma convivência pacífica. Também essa história dos esforços de paz explica muita coisa que não cabe nos títulos dos jornais.
Sempre afirmei que no Oriente Médio nada é o que parece. Ainda hoje fico fascinado ao descobrir fatos não divulgados que, se fossem conhecidos, surpreenderiam o mundo.
Para concluir esta introdução, gostaria de desconstruir cinco dos mitos mais falsos e surpreendentes sobre este tema:
1. Quando são citados números de mortes fornecidos pelo Ministério da Saúde de Gaza, é preciso entender que se trata da própria organização Hamas. Não por acaso, os seus combatentes vestem-se como civis para serem contabilizados como tal. Existem milhares de vítimas inocentes — uma tragédia que o povo palestino (e nenhum outro) merece. Desde 2007, mais de dois milhões de pessoas em Gaza são reféns de um grupo classificado como terrorista pela Liga Árabe e pela União Europeia (UE). Em vez de investir centenas de milhões de dólares em túneis — mais longos do que os metrôs de Nova Iorque ou de Paris —, esse grupo poderia tê-los investido em construção, escolas, hospitais e no futuro da sua população.
2. Quando manifestantes gritam palavras de ordem atraentes mas superficiais, muitas vezes escritas em Teerã, não compreendem que estão clamando pela destruição de um Estado reconhecido pelas Nações Unidas, onde vive metade do povo judeu. Quando chamam os israelenses de “supremacistas brancos”, esquecem-se de que mais da metade da população descende de judeus oriundos de países árabes, como Iraque, Síria, Líbano, Egito, Argélia ou Marrocos — além de haver em Israel uma comunidade significativa de origem etíope.
3. Quando se afirma que Israel é um Estado de apartheid, seria melhor olhar para os fatos. Os árabes israelenses estão representados no Supremo Tribunal, no parlamento, dirigem hospitais públicos, têm partidos que já integraram coligações de governo e têm direito de voto como qualquer outro cidadão.
4. Dias após o ataque do Hamas, e muito antes da incursão terrestre em Gaza, já se tinham registrado cerca de 2.500 manifestações hostis a Israel em todo o mundo, com mensagens uniformes e faixas impressas profissionalmente. O advogado canadense Warren Kinsella investigou e concluiu que os organizadores estavam sendo pagos, que se tratava de uma campanha organizada. Lembremo-nos: uma mentira repetida mil vezes continua a ser uma mentira.
5. O massacre de 7 de outubro radicalizou uma parte da sociedade israelense, que perdeu a esperança na paz. No entanto, sondagens mais profundas mostram que mais de dois terços dos israelenses sonham com a paz que englobe mais países árabes e muçulmanos — entre eles Síria, Líbano, Indonésia e, sobretudo, uma normalização histórica com a principal nação muçulmana, a guardiã dos lugares sagrados: o reino da Arábia Saudita. Para alcançar um compromisso com os palestinos, serão necessárias decisões históricas — e muitos apontam três condições essenciais: segurança, segurança e segurança. É fundamental que o fantasma de 7 de outubro seja enterrado para sempre e que nunca mais se repita um massacre semelhante.
Daí que israelenses e palestinos precisem de novas lideranças, menos ancoradas nos fantasmas do passado. Quero acreditar que os próximos Anwar Sadat e Isaac Rabin já nasceram — e já caminham entre nós.
Sou otimista… mas um otimista informado. E é por isso que acredito que, apesar da dureza destes dois últimos anos, talvez estejamos mais perto de uma solução do que em qualquer outro momento desde… a histórica Conferência de Paz de Madrid?
Henrique Cymerman é um jornalista premiado, correspondente da SIC, professor na Universidade Reichman de Governo, Diplomacia e Estratégia e presidente-fundador da Câmara de Comércio e Inovação Israel-Países do Golfo. Candidato ao Prêmio Nobel da Paz pelo seu trabalho com o Papa Francisco, cobre o Oriente Médio há mais de 30 anos e é conferencista internacional e especialista em geopolítica, segurança regional e relações Israel-mundo árabe. Nasceu e viveu no Porto e instalou-se em Israel quando tinha 16 anos.
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