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Dom Isaac Abravanel foi um grande estadista judeu que desempenhou papel importante na história europeia. Em 1492, ele e sua família se juntaram aos seus correligionários na infame expulsão dos judeus da Espanha. Ao lado de seu trabalho como ministro de Estado, ele redigiu um importante e monumental comentário sobre a Torá, que agora, pela primeira vez, o público de língua portuguesa tem acesso.
A coleção completa é composta de 4 volumes, que são vendidos também separadamente:
Volume 1 - Bereshit
Volume 2- Shemot
Volume 3 - Vayikrá e Bamidbar
Volume 4 - Devarim
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Veja outras coleções com estudos sobre a Torá:
Torá Interpretada (5 volumes)
Coleção Or Hachayim (5 volumes)
Como essa é minha primeira incursão no terreno de publicações, as pessoas, quando ficam sabendo da minha tradução do comentário de Abarbanel sobre a Torá ("Pentateuco", os Cinco Livros de Moisés), arqueiam uma sobrancelha e perguntam, curiosas, o que me incentivou a realizar essa obra.
Encolhendo os ombros, respondo-lhes que o que me levou a fazer essa tradução não foi uma experiência dramática. O meu interesse pelos ensinamentos de Abarbanel foi despertado muitos anos atrás, quando comecei a estudá-los e achei-os muito estimulantes. Quanto mais os lia, mais eu adorava lê-los. Foi um apego que se desenvolveu ao longo dos anos e cresceu com o tempo. Não posso apontar um acontecimento específico que me influenciou para a realização dessa obra, mas uma coisa é certa: em algum ponto ao longo do tempo, uma ideia se desenvolveu na minha mente – de que era preciso assumir a missão de desbloquear os tesouros de Abarbanel para os leitores de língua inglesa, para que pudessem tirar proveito dos seus ensinamentos.
A busca de uma boa interpretação sobre um versículo sempre me fascinou. Não foi de surpreender, portanto, que eu tenha me maravilhado com a abordagem única de Abarbanel pela interpretação literal e sensata do texto – Peshutó shel mikrá.
Contudo, não pense que eu não estava ciente, desde o princípio, da existência de muitos comentaristas bíblicos que seguiram uma abordagem literal e simplista para a compreensão do texto do Chumásh – luminares grandiosos tais como Rashi, Nachmânides e Ibn Ezra. Todos eles buscaram uma interpretação literal do texto. No entanto, eu achei a abordagem de Abarbanel única.
Quando comecei a ler Abarbanel, o seu modus operandi – de considerar cada episódio como uma unidade per se – ficou muito claro a meus olhos.
No seu estilo único, ele começa levantando muitas dúvidas sobre o texto. Acompanhando as suas perguntas, ficamos invariavelmente perplexos, pois achávamos que possuíamos um bom entendimento do texto, até Abarbanel surgir e demolir as nossas suposições, uma pergunta após a outra, até nada mais restar além de, simbolicamente, uma pilha de tijolos! E depois de desafiar a nossa inteligência com inúmeras perguntas, até deixar-nos totalmente atordoados, ele se aprofunda no texto e oferece explicações perspicazes que abrem os nossos olhos e nos fazem descortinar uma visão panorâmica inédita sobre todo o episódio. Então, conforme ele desenvolve as suas respostas e as elabora com incrível habilidade, as dúvidas inicialmente apontadas vão se dirimindo, uma depois da outra. Ficamos imbuídos de uma sensação edificante quando terminamos um estudo, por termos podido apreciar a história por meio de uma abordagem nova e revigorante.
Além disso, um aspecto muito importante do estilo de Abarbanel é iluminar o texto, destacando o seu elemento humanístico. Por exemplo, quando encontramos Iossêf e seus irmãos, nos familiarizamos com a humanidade dos seus pontos fortes e também dos seus pontos fracos. Ao mesmo tempo, somos brindados com uma visão inspiradora do desenvolvimento do caráter do jovem Iossêf e da vida inocente e despreocupada que levava sob a tutela cuidadosa de seu pai Iaakov. Também quando encontramos o Faraó, ficamos cara a cara com a decadência e com o seu caráter maligno. Começamos então a entender como a sua índole vil causou a sua própria queda.
Desnecessário dizer que a mesma abordagem se aplica a Moshé e Aharón. Abarbanel é capaz de descrever para nós as preocupações, os pontos fortes e até mesmo as limitações humanas desses grandes personagens.
Enquanto escrevo esse prefácio, me recordo daquele que considero ter sido o meu primeiro encontro emocionante com a abordagem única de Abarbanel. Foi quando eu li a sua descrição das dez pragas que assolaram os egípcios e me deparei com a sua interpretação de Tsefardêa, normalmente conhecida como "a praga de sapos". Abarbanel recusou-se a "seguir o rebanho" e, em vez disso, ensinou que a tradução de Tsefardêa é "crocodilo". Eu me surpreendi, já que nenhum dos outros comentaristas tinha oferecido tal opinião. Na sua explanação, Abarbanel prova que os répteis que invadiram o Egito foram de fato crocodilos, por terem sido privados de sua fonte de alimento, os peixes do rio, que tinham morrido devido à praga de sangue. Esfomeados, os crocodilos pulularam por todo o Egito e engoliram bebês, crianças pequenas e até mesmo adultos. Uma das suas provas bem fundamentadas, ao que me lembro, baseou-se no versículo que afirma:¹ "Contra eles enviou uma mistura de feras que os devoraram e Tsefardêa que os devastaram".
Em seguida, Abarbanel passa a provar, a partir da expressão Vatashchitêm ("que os devastaram"), que o elemento de letalidade relacionado ao Tsefardêa justifica a tradução desse termo como "crocodilo". Por outro lado, se o significado fosse "sapo", não haveria nada que o relacionasse à letalidade, mas apenas a um incômodo. Isso também explicaria o clamor dos egípcios diante dessa catástrofe. Por outro lado, se a praga consistisse de sapos, como a maioria explica, ela não teria gerado clamor, já que os sapos são apenas inoportunos, mas não letais.
Depois de aprender a apreciar o estudo de Abarbanel, achei que seria egoísmo da minha parte deixar de compartilhar com os leitores de língua inglesa esse rico tesouro.
Como sinal do grande respeito que os contemporâneos de Abarbanel tinham por esse gigante luminar, eles o chamavam de Nésher Hagadól, que significa "Grande Águia". Acredito que essa seja uma alcunha adequada para descrever tão grandioso pensador. Ele possuía uma sabedoria imensa e um intelecto aguçado.
Nessa altura, é adequado destacar que, apesar do seu status de tesoureiro do rei, Abarbanel era um homem de fé absoluta, permanentemente pronto para dar a vida por sua crença em Deus. Ele era porta-voz de seu povo e usava a sua alta posição para defender o bem-estar dos judeus.
Quis a Providência Divina que Abarbanel vivesse durante a trágica Inquisição Espanhola. Ele foi um dos milhares de judeus expulsos da Espanha por se recusarem a converter-se ao cristianismo, embora lhe tivessem oferecido riquezas e até promoção para um alto cargo no governo da Espanha caso aceitasse a conversão.
Dom Isaac Abarbanel mostrou que era mais leal ao Deus de Israel do que aos monarcas da Espanha e negou-se a ceder à vontade deles. Conta a tradição que quando o rei Fernando e a rainha Isabel da Espanha emitiram o édito de expulsão dos judeus, Abarbanel abordou-os e ofereceu um grande suborno para que cancelassem o decreto. Em meio às negociações, surgiu Torquemada, o chefe da Inquisição, que jogou a sua cruz no chão e gritou para Fernando: "Você seria capaz de trair Iêshu em troca de suborno, assim como Judas traiu-o em troca de trinta moedas de prata?"
Reconhecendo que a sua causa estava perdida, Abarbanel fugiu para a Itália na hora certa, pois estava prestes a ser morto por assassinos contratados.
Embora este não seja o lugar para a publicação de uma biografia completa, creio que muitos dos leitores queiram conhecer os destaques que moldaram a vida extraordinária desse homem notável.
Nascido em Lisboa, Portugal, em 1437, Abarbanel era ainda novo quando o rei Afonso V de Portugal reconheceu os seus notáveis talentos e habilidades políticas e convidou-o para o cargo de tesoureiro real. Essa posição ele ocupou até o reinado de João II. Acontece que o novo rei se cercou de subordinados perversos que odiavam os judeus e, cheios de ciúmes do status elevado de Dom Isaac Abarbanel, decidiram matá-lo. Avisado com antecedência que seria alvo de um atentado, Abarbanel fugiu para Castela e de lá para Toledo, Espanha. Ele ganhou o reconhecimento real do monarca espanhol mas foi novamente forçado a exilar-se em 1492, quando o rei Fernando e a rainha Isabel baniram os judeus da Espanha.
Em seguida, Abarbanel foi viver em Nápoles, Itália, mas três anos depois perdeu todas as suas posses, quando a cidade foi capturada pelos franceses. Depois de vagar de uma cidade para outra, ele finalmente se estabeleceu em Veneza, onde foi contratado como diplomata. Lá se aposentou do serviço público e passou a escrever comentários sobre os livros dos Profetas.
Abarbanel renovou então a sua ambição de redigir comentários sobre a Bíblia e os Profetas. Vale notar que ele dedicou grande parte das suas energias para escrever sobre a redenção final através do Mashiach, objetivando confortar os seus compatriotas, que se encontravam terrivelmente desmoralizados devido ao abominável exílio que lhes fora imposto.
Rabino Israel Lazar
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