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Um Estado, dois Estados

Soluções para o conflito Israel-Palestina
Autor: Benny Morris
Editora: Sêfer
SKU: 13218
Páginas: 279
Avaliação geral:

Examina minuciosamente o histórico das metas do movimento nacional palestino e do movimento sionista, e considera as várias propostas de um e dois Estados oriundas de ambos os lados. Analisa a boa ou a má vontade dos dois lados de encontrar uma solução baseada no conceito de compromisso e de "abrir mão" de alguma coisa, e avalia a viabilidade e a praticabilidade das soluções propostas à luz de realidades complicadas.

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Descrição

Análise histórica do conflito Israel-Palestina e das propostas de paz no decorrer das últimas décadas.
Inclui mapas.

Ao comentar o lançamento do livro Um Estado, Dois Estados em artigo para a revista norte-americana New Yorkero crítico David Remnick assim escreveu: “O que é marcante no trabalho de Benny Morris como historiador é que ele não favorece o preconceito de ninguém, muito menos o seu.”

Comprometido com a objetividade que caracteriza sua forma de abordar qualquer assunto, Morris, nesta obra, concentra sua atenção no legado dos eventos de 1948 e nas opções concretas para o futuro da Palestina e de Israel.

Ele examina minuciosamente o histórico das metas do movimento nacional palestino e do movimento sionista e considera as várias propostas de um e dois Estados oriundas das diferentes vertentes dentro de ambos os movimentos. Analisa, ainda, a boa ou a má vontade dos dois lados de encontrar uma solução baseada no conceito de compromisso e de “abrir mão” de alguma coisa, e avalia a viabilidade e a praticabilidade das soluções propostas à luz de realidades cáusticas e complicadas.

Durante toda sua carreira inovadora, Morris reformulou a compreensão sobre o conflito árabe-israelense. Neste livro, ele apresenta um novo jeito de refletir sobre os desacordos.


[...] o problema da Palestina-Israel e sua solução, nas atuais circunstâncias, representa também uma questão prática. É uma questão de ciência política relativa à melhor ordenação possível da sociedade humana ou duas sociedades humanas em um determinado espaço, tendo em conta a demografia, geografia, política, realidades econômicas, questões culturais, e assim por diante. A questão resume-se à melhor concatenação possível de demografia e de política para os povos que vivem entre o rio Jordão e o Mediterrâneo.



Apresentação

Benny Morris se tornou mundialmente conhecido como um dos “novos historiadores”, parte de um grupo de intelectuais israelenses que, utilizando os arquivos do final da década de 1940 disponibilizados pelo governo israelense, permitiu reescrever a história da guerra de 1948-1949 que sedimentou a criação do Estado de Israel e deu origem ao problema dos refugiados palestinos e ao título de seu livro – The Birth of the Palestinian Refugee Problem (1988).

Ao longo de mais de duas décadas, Morris publicaria vários outros títulos sobre o tema, tendo sido inicialmente identificado como um antissionista, pela denúncia dos atos cometidos pelas forças judaicas durante a guerra. Mas em uma polêmica entrevista ao jornal israelense Haaretz em 2004, Morris esclarece suas posições; nela afirma que, ainda que suas obras tenham trazido à luz fatos desconhecidos e desmistificado o ideal sionista, de nenhuma forma deveriam ser interpretadas como uma condenação. Segundo ele, “sem a expulsão de parte da população palestina o Estado de Israel não teria sido criado, e em determinadas condições a expulsão não pode ser classificada de crime; se uma sociedade está engajada na sua destruição, ela te força a destruí-la”. Morris expressa ainda sua simpatia pelo povo palestino e por sua perda, mas esclarece que “desde o momento em que a comunidade judaica na Palestina começou a ser atacada pelos árabes, culminando com a invasão dos países vizinhos após a declaração de independência em maio de 1948, não havia opção a não ser expulsar uma população hostil; o que só se tornou possível no curso dos combates”. 

Morris passou por uma profunda transformação. Começou investigando os rumores de crimes praticados durante a guerra para, uma década depois, passar a explicar por que foram cometidos; transformou os palestinos de vítimas em responsáveis pelo destino que os acometeu; e culminou, com seu último livro, numa análise da viabilidade existencial de dois Estados lado a lado, entre o Mediterrâneo e o rio Jordão.

É esse o tema desta obra. Sionistas e árabes palestinos apoiavam até o final da década de 1930 a criação de um único Estado na região, sempre dominado por seus próprios povos. Foi a conclusão da Comissão Peel em 1937 que levou a facção majoritária do sionismo a apoiar a ideia da partilha, que viria a se concretizar dez anos depois. Quase setenta anos depois, a questão ainda não foi resolvida. Jordanianos e egípcios ocuparam por vinte anos a maior parte do território destinado à criação de um Estado palestino independente, e desde a Guerra dos Seis Dias Israel tem controlado o território e uma população de milhões de civis palestinos. Ao longo de sucessivos governos, de esquerda e de direita, Israel promoveu a construção de assentamentos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, parte deles com o claro objetivo de determinar uma nova fronteira, viável, que corrigisse as aberrações decorrentes da linha de cessar-fogo de 1949, que se tornou a fronteira de facto entre Israel e a Jordânia. Na década de 1980, o rei Hussein abandonou sua demanda pelo território, o que tornou a Organização para a Libertação da Palestina o legítimo representante do povo palestino, quase concomitantemente com o surgimento do grupo Hamas. 

Após dois levantes populares violentos, e um fracassado processo de paz, Morris coloca em questão a viabilidade de um Estado palestino independente, assim como a de um Estado binacional. Sua lógica baseia-se na conclusão de que os palestinos não estão dispostos a aceitar a partilha do território e, portanto, a questão básica é a decisão da ONU de 1947 e não a redefinição das fronteiras de 1949 (ou 1967).

A proposta do autor para solucionar o problema remete a alegações passadas de líderes israelenses, que definiam a Jordânia como um Estado palestino já existente e detentora da maior parte do território do mandato da Palestina histórica. Um retorno ao status quo ante de junho de 1967 uniria a Cisjordânia e a Faixa de Gaza ao reino hachemita e solucionaria o problema israelense, mas certamente não atenderia às reivindicações palestinas. 

O tema do conflito israelo-palestino vem sendo cada vez mais discutido no Brasil, exaltando ânimos e provocando discussões acaloradas e muito pouco embasadas. Assim, a  publicação de Um Estado, Dois Estados vem contribuir para o debate e para aprofundar o conhecimento sobre o tema, ainda que não esgote a discussão nem apresente propostas definitivas. 



Samuel Feldberg

São Paulo, fevereiro de 2014





Índice e trechos

Sumário

Apresentação  

Prefácio à edição brasileira  1

Agradecimentos  15

Mapas  6

Siglas  23

1. A retomada da discussão sobre
    um único Estado  25

2. Histórico das soluções contemplando
    um Estado e dois Estados  55

3. Perspectivas para o futuro  201

Notas  247

Bibliografia  271


Prefácio

Prefácio à edição brasileira


Um Estado, Dois Estados
é um trabalho histórico-político. Descreve a evolução, ou a não evolução, da ideologia básica e das plataformas políticas de dois movimentos nacionais, o judaico (sionismo) e o árabe-palestino, de suas origens até os dias atuais. Está focado nas várias atitudes relativas a questões nacionais e à partilha, ou não, da Palestina, e nas trajetórias históricas dos dois movimentos, entre 1882 e 2009, data da primeira edição deste livro.

Os dados históricos e a análise fornecida neste trabalho levaram-me à conclusão política, quase inevitável, de que o movimento sionista e Israel estiveram e continuam abertos, em princípio, à ideia de um acordo de paz que contemple dois Estados. Não é o caso, por outro lado, do movimento nacional palestino, tanto de sua ala islamista quanto de sua ala secular.

A meu ver, nada mais mudou desde então. Ou, talvez, muito tenha mudado no Oriente Médio – mas nada que contribuísse positivamente para a solução do conflito israelo-palestino.

É verdade que as negociações de paz entre Israel e os palestinos foram retomadas em 2013, após uma interrupção de cinco anos, e que esse diálogo é por si louvável. Mas nada mudou em relação à disposição palestina de ceder. Os líderes palestinos continuam aferrando-se a posições que, explícita ou implicitamente descartam a ideia de dois Estados para dois povos: o Hamas, que venceu as eleições gerais palestinas em 2006 e controla a Faixa de Gaza, clama abertamente pela destruição de Israel e a criação de um Estado governado pela
sharia em toda a Palestina histórica (ou Terra de Israel, conforme a nomenclatura israelense); e a Autoridade Palestina, liderada pelo presidente Mahmud Abbas, continua a exigir de Israel o “direito de retorno” para os refugiados de 1948 (que com seus descendentes, como reconhecidos pela ONU, somam aproximadamente 5 milhões). Considerando a população israelense de 6 milhões de judeus e 1,4 milhão de árabes, a implementação de tal retorno transformaria Israel em um Estado de maioria árabe, ou seja, eliminaria o Estado de Israel. Abbas também continua a se opor à ideia de reconhecer Israel como “Estado judeu” (e a expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia majoritariamente habitada pelos palestinos certamente não contribui, levando muitos palestinos a sentirem que Israel não é séria em relação à paz). 

Mais amplamente, as enormes transformações que sacudiram o Oriente Médio árabe e o norte da África desde o início de 2011 resultaram, até agora, menos na emergência de democracias e mais na chegada ao poder de partidos e movimentos extremistas islâmicos. Enquanto estas linhas são escritas, os islamistas controlam a Tunísia, a Líbia e o Iêmen, e têm uma poderosa presença no Egito (onde governaram brevemente e de maneira absolutamente incompetente, tendo sido retirados do poder à força pelos militares). 

Na Síria, islamistas dominam diversos grupos que lutam contra o governo de Bashar al-Assad em uma sangrenta guerra civil. Em outras partes da região, no Bahrein e na Jordânia, os islamistas são menos proeminentes, mas apesar disso se mantêm como uma ameaça latente aos governos pró-ocidentais e à governança racional.

Todos os islamistas repudiam a legitimidade israelense e apoiam a destruição de Israel (como o faz o Irã, que concretamente apoia vários desses movimentos), fornecendo suporte material e político a aqueles palestinos que se recusam a negociar e assinar a paz com o Estado judeu. Com o fortalecimento do Islã militante nos corações e mentes ao redor do mundo árabe, há pouca esperança de que os palestinos farão importantes concessões para obter a paz. Ao contrário, com a sensação de que têm a história e a demografia a seu favor, podem sentir que tudo que precisam fazer é manter-se firmes e esperar, que Israel declinará e desaparecerá; e a Palestina – na sua totalidade – cairá em suas mãos como uma fruta madura.

Nas próximas décadas as coisas poderiam mudar: o Irã poderia se tornar uma democracia reformista; os seculares poderiam derrotar os islamistas no mundo árabe afora, instituir democracias verdadeiras e, eventualmente,
mesmo de forma relutante, aceitar a existência de um Estado judeu em seu meio, no centro do Oriente Médio. Mas duvido que isso aconteça. Enquanto isso, os israelenses e palestinos golpearão uns aos outros e talvez continuem a negociar. Mas não sou capaz de visualizar o fim deste conflito. 

Benny Morris

(traduzido por Samuel Feldberg)


Comentários

Entrevista/Debate no Programa Roda Viva da TV Cultura (23/06/14)




A seguir, uma sequência de matérias e entrevistas em veículos de imprensa brasileiros:


Folha de S.Paulo

Um jornal a serviço do Brasil


Acordo é cada vez mais difícil, diz historiador

DIOGO BERCITO
DE JERUSALÉM

13/02/2014  03h05

Em meio às tentativas de israelenses e palestinos de negociar a paz, apoiados pelos EUA, o historiador israelense Benny Morris resume seu pessimismo: "Os palestinos não estão prontos."

Para um dos acadêmicos mais respeitados de Israel, há uma diferença essencial nas aspirações dos dois lados.

Enquanto a liderança sionista foi impactada pelos eventos históricos e passou a aceitar a ideia de um Estado judaico só em parte do território do antigo protetorado britânico, os nacionalistas palestinos, segundo Morris, insistem até hoje na ideia de ter uma "Grande Palestina".

O historiador vem ao Brasil nesta semana, a convite da Federação Israelita do Estado de São Paulo e do Hospital Albert Einstein, para o lançamento da tradução de seu livro "Um Estado, Dois Estados" (editora Sefer).

*

Folha - O sr. viaja ao Brasil para divulgar o livro "Um Estado, Dois Estados". Qual é a tese da obra?
Benny Morris - O livro é um ensaio político sobre dois movimentos nacionais, o palestino e o sionista, e suas aspirações quanto a um Estado. Escrevo sobre como os eventos históricos os impactaram.
Quais eventos?
O movimento sionista, no fim do século 19, queria toda a Palestina para o Estado judaico. Na segunda metade dos anos 1930, alguns acontecimentos históricos influenciaram sua liderança para que aceitasse apenas parte do território. Entre esses eventos está uma revolta palestina, que convenceu sionistas de que havia um sério movimento social palestino e, assim, os judeus não poderiam ter todo o Estado.
Qual foi o desenvolvimento do nacionalismo palestino?
No lado palestino, que amadureceu mais tarde como movimento político, o objetivo inicial também era estabelecer um Estado em toda a Palestina. A diferença é que eles não mudaram, apesar dos desastres de 1948 [o deslocamento populacional pós-guerra de independência de Israel] e de 1967 [a ocupação de Gaza e da Cisjordânia]. O objetivo deles ainda é a totalidade do território.
O sr. é considerado um dos "novos historiadores" israelenses. Por que sua narrativa desvia da história tradicional?
Quando comecei a trabalhar, nos anos 1980, fiz parte da primeira geração de historiadores israelenses a trabalhar com documentos, não com memórias. Nossas teorias foram aceitas e são ensinadas nas universidades. Acertamos especialmente na questão dos refugiados.
Como?
A narrativa sionista tradicional é a de que os palestinos deixaram suas casas voluntariamente. A palestina, por outro lado, fala de um projeto de expulsões em massa.
Os documentos mostram uma imagem no meio do caminho. Na maior parte das regiões, os palestinos deixaram seus lares por medo de que houvesse ataques de judeus.
Houve limpeza étnica?
Houve expulsões, com uma limpeza étnica parcial. Na [extinta] Iugoslávia houve, porém, uma política deliberada de massacres que não ocorreu aqui. Não foi sistemático. Tanto que o Estado israelense foi criado englobando 160 mil árabes.
Tem sido dito que essa é a última chance para que israelenses e palestinos negociem a paz. O sr. concorda?
É verdade que, quanto mais povoarmos a Cisjordânia, mais difícil vai ser termos paz. Mas não sei se esta é realmente a última chance. Talvez a última chance tenha passado nos anos 1980. Sou pessimista, e acho que os palestinos não estão prontos para dois Estados.
O sr. acha que a comunidade internacional está posicionada contra Israel?
A moralidade da política mudou. Não é mais moralmente aceito ocupar outro povo, e temos ocupado outro povo desde 1967.

Mas o Ocidente oprimiu muito mais do que Israel, no passado.

Eles sentem culpa por seu passado imperialista e acabam projetando em Israel sua própria história.


Revista Época





O Globo







Benny Morris: ‘Cansei do conflito israelense-palestino’
Renata Malques 25/02/14 07:00

  • Um dos mais respeitados historiadores de Israel diz que Autoridade Nacional Palestina não está pronta para a paz
  • Polêmico, Morris é um dos chamados ‘novos historiadores’, que admitem os massacres e expulsões cometidos por Israel em 1948
    O historiador isralense Benny Morris. Divulgação
    Foto: Terceiro / Agência O Globo


  • RIO. Aos 65 anos, Benny Morris se cansou. O polêmico historiador israelense de língua afiada direciona suas críticas igualmente a Israel e à Autoridade Nacional Palestina (ANP) sem se importar com as críticas. Por anos, foi vítima delas. Afinal, Morris, hoje professor da Universidade Ben Gurion, inaugurou o que se chama de “a era do revisionismo” sionista, quando pesquisadores como ele e Ilan Pappé ousaram revirar arquivos para desconstruir a narrativa romântica da criação do Estado de Israel em 1948. E recorreram aos números para mostrar uma face bem menos bonita da História: perseguição, expulsões forçadas, aldeias árabes inteiras dizimadas e pelo menos 24 massacres cometidos após a partilha da Palestina — sendo o mais famoso deles o de Deir Yassin, próximo a Jerusalém.

    Ele é polêmico — e pessimista. Embora tenha condenado as atrocidades cometidas àquela época, ele também diz acreditar que os judeus não tiveram alternativa. Defende a solução de dois Estados para dois povos, mas culpa a ANP pela falta de um acordo de paz que dê fim ao conflito israelense-palestino. Morris esteve no Rio esta semana para lançar seu novo livro “Um Estado, dois Estados” (Editora Sefer) e conversou com O GLOBO.

    O senhor no livro descreve muito os movimentos nacionalistas israelense e palestino. O que os define?

    Desde 1937, a maioria dos judeus estão prontos para um acordo territorial que permita dois Estados para dois povos. Foi quando o movimento sionista aceitou a ideia da partilha, quando a Comissão Peel, britânica, recomendou a partilha. Mas o movimento nacionalista palestino, desde sua formação nos anos 1920, sempre se opôs à ideia da partilha, exigindo por questões políticas e ideológicas, um governo árabe sobre toda a Terra de Israel. Eles nunca negociaram isso. Desde então, inúmeras vezes a comunidade internacional ofereceu solução baseada em divisão territorial para dois países... A ONU propôs em 1947; no ano 2000, o ex-premier israelense Ehud Barak e o ex-presidente Bill Clinton propuseram a Yasser Arafat; em 2008, foi Ehud Olmert quem propôs a Mahmoud Abbas. Em todas as vezes, o movimento nacionalista palestino rejeitou e exigiu, mesmo que sem dizer sempre publicamente, toda a Terra de Israel, a Palestina, para si só.

    E por que eles não estariam prontos para a solução de dois Estados?

    Porque eles acreditam que que a justiça determina que toda a Terra de Israel pertence aos árabes, que eles são os moradores legítimos da região. Os judeus, talvez, tenham vivido ali uns milhares de anos atrás, mas eles também rejeitam toda a história da ligação judaica com a Terra de Israel. Entre os que aceitam a história, dizem que isso é uma coisa do passado e não dá aos judeus nenhum direito sobre parte alguma da Terra de Israel; os judeus que vieram para Israel antes de 1882 (ano da primeira grande imigração judaica para a Palestina) são ladrões. A autoridade sionista, o Estado judeu, não são legítimos. A justiça diz que os moradores de Israel não pertencem ao lugar.

    Existem resistências também do outro lado, não?! Desenvolveu-se um status quo que, atualmente, é relativamente cômodo para Israel. Como o senhor vê a relação da sociedade israelense com o conflito hoje?

    Eu acho que toda pesquisa de opinião feita entre os judeus de Israel desde 1967 mostra que a maioria está pronta para um acordo territorial. É verdade que, em alguns períodos, governos de Israel afastaram a ideia de acordo territorial e defendeu a Grande Israel bíblica apenas para os judeus, como os anos em que o Likud governou, de 1977 a 1984, nos governos de Menachem Begin e Itzhak Shamir. Diria que, de maneira geral, de 1937 até 1977 havia sim a disposição de um compromisso territorial, e essa disposição se renovou com a eclosão da Primeira Intifada, em 1987. E desde 1987, os judeus entendem que é impossível controlar outro povo; que não há desejo de controlar outro povo; que há, sim, justiça nas demandas do outro lado e que é preciso dividir Israel. Até Benjamin Netanyahu, quando foi primeiro-ministro de 1996 a 1999 e rejeitou essas ideias, acabou adotando-as. Dois Estados para dois povos é a base da política israelense do governo. É verdade que no governo atual há gente que ainda defende a Grande Israel bíblica, mas isso não representa a visão política do governo.

    Isto é curioso, pois desde o assassinato do premier Itzhak Rabin, não temos mais ouvido o bloco pacifista israelense, mas apenas vozes mais radicais...

    Não diria isso. Eu diria que se ouvem mais alto as vozes mais radicais. Mas ainda existe um campo pacifista, ainda existe a chamada maioria silenciosa, uma ampla maioria a favor de um acordo territorial. Existe também uma minoria grande, uns 30%, 35% que ainda defendem a Grande Israel bíblica. Mas são uma minoria.

    A ocupação alimenta nos últimos um movimento internacional de boicote a Israel. Mas, pela primeira vez, nas últimas semanas, o governo se reuniu para discutir isso. Essas iniciativas podem ter algum impacto sobre Netanyahu ou sobre as negociações de paz?

    Eu espero que sim! Eu acho que o governo de Israel acordou tarde demais para o perigo da deslegitimização, que se faz através de boicotes à economia, à academia ou a Israel como um todo. Acho que o boicote representa um perigo grande tanto para a economia quanto para o país. Que bom que finalmente o governo dá atenção a isso, e eu espero que consigam fazer o governo chegar a um acordo. Falo principalmente sobre um acordo sobre os assentamentos, que sempre foram um obstáculo à paz. Não acho que o maior obstáculo, mas um dos maiores. Netanyahu ajudaria se congelasse as construções durante as negociações, mas ele não fez isso até agora.

    Israel sempre usa alegações de antissemitismo ou de que alguns países do Ocidente se posicionam deliberadamente contra ela. Por quê?

    É confortável falar isso, mas nem sempre verdade. Existe uma dose de antissemitismo em algumas partes do mundo, principalmente em países árabes e muçulmanos, onde se vê o aumento não só do anti-Israelismo, mas do antissemitismo. No Ocidente, Israel pode ser um escudo para o antissemitismo: não se pode falar mal dos judeus, pois é politicamente incorreto, mas se pode falar mal de Israel. Mas eu vejo outros motivos históricos para isso para essa antipatia a Israel. Existe um peso na consciência dos europeus, por exemplo, por tudo o que fizeram em suas ex-colônias, no Congo, na Índia e em tantos outros lugares. O Ocidente ocupou e oprimiu muito mais que Israel no passado recente. Eles sentem culpa de seu próprio passado imperialista e jogam essa culpa sobre os judeus ou sobre Israel. Devo dizer também que o comportamento de Israel, dos soldados de Israel, nos territórios palestinos em épocas específicas, contribui para a antipatia pelo país e para o repúdio ocupação. Israel tem parte da culpa pela antipatia de parte da imprensa e dos governos ocidentais.

    Quando olhamos para a Cisjordânia hoje, vemos uma colcha de retalhos por conta não só dos assentamentos em si, mas de toda a infraestrutura ao redor. Ainda é de fato relevante falar na solução de dois Estados? Sem falar em Gaza, desligada do outro lado. É viável?

    Sobre Gaza, eu devo advertir que o isolamento é causado por dois lados, de Israel e do Egito. Mas sobre a Cisjordânia... Se é realista... Vamos esperar que sim, porque não há outra solução. Um Estado binacional não vai emergir; judeus e árabes provaram aqui nos últimos 100 anos que não podem viver juntos. Os judeus rejeitaram essa ideia nos anos 1920 e 1930; e os árabes sempre. Eles se recusam a cooperar com um governo controlado por judeus. O Estado binacional não existe nem no inconsciente dos dois lados. Concordo que a janela está se fechando, a realidade está tornando a partilha cada vez mais complexa por causa dos assentamentos. Mas reitero: esse não é o problema principal, o maior problema é os árabes não estarem prontos para dois Estados. Se eles não aceitarem esta ideia, a ocupação parcial da Cisjordânia vai continuar. Vamos continuar ocupando um povo, o status quo será mantido, e isso é o pior que pode acontecer para todo mundo.

    É verdade que este é seu último livro sobre o conflito israelense-palestino?

    Não sei se é verdade (risos). Mas é verdade que eu disse isso. Eu disse que não pretendo no futuro escrever outro livro sobre o conflito. Já há alguns anos, o conflito turco-armênio é meu foco de estudos, e até 2016 estarei terminando um projeto nessa área com outro colega. Talvez eu consiga cumprir o que disse, talvez me sinta tentado a escrever novamente, não sei...

    Então o senhor cansou do conflito israelense-palestino?

    Claro! Estou de saco cheio. Cansei como cidadão e como pesquisador. Acho que não há mais nada novo a desvendar, o que aprendi, publiquei em oito, nove livros e é isso. A minha parte eu já fiz.


Último Segundo.Ig.com.br


Palestinos rejeitam a solução de dois

Estados, diz historiador israelense

Por Leda Balbino , iG São Paulo 

Palestinos fazem jogo diplomático enquanto esperam que

demografia lhes dê toda a Palestina, diz Benny Morris ao iG

As atuais negociações de paz entre Israel e os palestinos estão fadadas ao fracasso porque os palestinos não querem a solução de dois Estados, diz o historiador israelense Benny Morris, que veio na semana passada ao Brasil para lançar seu mais recente livro, "Um Estado, Dois Estados" (editora Sefer), a convite da Federação Israelita do Estado de São Paulo e do Hospital Albert Einstein.



Para o conceituado professor da Universidade Ben Gurion, as negativas a propostas de paz como as feitas por Ehud Barak (1999-2001) a Yasser Arafat (1994-2004), em 2000, e por Ehud Olmert (2006-2009) a Mahmud Abbas (desde 2005), em 2008, exporiam uma falta de vontade política dos palestinos.

"Muitos dizem que Arafat não rejeitou a ideia de dois Estados, mas descartou a proposta para obter mais concessões", disse durante palestra promovida pela Câmara Brasil-Israel. "Mas discordo dessa leitura. Enquanto jogam o jogo diplomático, os palestinos aspiram a toda a Palestina, não querem a solução de dois Estados", afirmou.

De acordo com o historiador, o que alimentaria a posição palestina é a certeza de que o tempo joga a seu favor, já que muitos especialistas preveem que a população árabe superará a judia em Israel e nos territórios capturados na Guerra do Seis Dias (1967) - Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental - em alguns anos. "Os palestinos acreditam que, em 20, 30 anos, haverá mais árabes em todo o território do que judeus. Então teriam um Estado árabe-palestino com uma minoria judia", disse.

Crítico da expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia, Morris acredita que a contínua ocupação de Israel do território palestino somada ao fracasso das atuais negociações abrirão caminho em breve para um terceira intifada (revolta palestina). Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista que concedeu ao iG

iG: Em seu livro, o senhor diz que os eventos históricos forçaram os judeus a perceber que, diferentemente da aspiração do movimento sionista do século 19, não seria possível ter um Estado israelense em toda a Palestina histórica, enquanto os palestinos não evoluíram e mantêm a posição de querer todo o território. Não seria a expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia uma mostra de que o povo e o governo de Israel ainda estão presos na mentalidade do século 19?

Benny Morris: Parte da população e do governo de Israel defendem que toda a Palestina nos pertence e que os assentamentos ajudarão a retê-la. Mas isso é uma minoria. De acordo com todas as pesquisas de opinião desde 1987, quando começaram a ser feitas, a maioria dos israelenses gostaria de sair da Cisjordânia e ter um Estado palestino separado.

iG: Mas a expansão dos assentamentos mesmo durante as negociações de paz não seria um indicativo de que essa não é a posição do governo?
Morris: Oficialmente [o primeiro-ministro Benjamin] Netanyahu declara querer a solução de dois Estados e ter a disposição de fazer concessões dolorosas, como sair da maior parte da Cisjordânia. Há pessoas que duvidam da sinceridade de Netanyahu, mas [Ehud] Barak (1999-2001) também fez isso: expandiu os assentamentos enquanto pregava a paz e apresentava a solução de dois Estados. Para os árabes que questionavam sua intenção, respondia: os assentamentos ao longo da fronteira, que representam entre 5% e 7% da Cisjordânia, expandimos porque serão nosso território. Dos assentamentos dentro da Cisjordânia, que formará um Estado palestino, sairemos depois de um eventual acordo e deixaremos para trás prédios prontos para os refugiados. Embora racionalmente esse argumento tenha sentido, psicologicamente faz os palestinos pensarem que Israel mente quando diz desejar a paz. Essa é uma das razões por que me oponho aos assentamentos. No entanto, eles não são o principal problema. O principal é a mentalidade palestina, que não quer a solução de dois Estados. Pergunte a qualquer palestino: 'Você pensa que Israel é uma presença legítima no Oriente Médio? Você acha que o sionismo é legítimo?' Eles responderão não. Para eles, Israel deveria ser destruído, e tentarão destruí-lo se puderem. Acham que é ilegítimo e que em algum ponto deixará de existir.

iG: Outro motivo para a expansão dos assentamentos não seria a necessidade de apaziguar partidos linha-dura na própria coalizão de governo?
Morris:
Sim. Se um governo precisar de alguns partidos para sua coalizão, terá de fazer concessões. Não é que o primeiro-ministro queira necessariamente expandir os assentamentos. Estou certo que Barak não queria, [Yitzhak] Rabin (1992-1995) antes dele também não, mas o fizeram porque havia pressões políticas. O pensamento era que devolveremos o território quando houver paz. Mas há o problema psicológico, porque transmite aos árabes falsidade.

iG: Há alguma chance de sucesso para atuais negociações de paz?
Morris:
As atuais negociações não terão sucesso. Apesar de a maioria dos israelenses querer de forma sincera a paz, não estou tão certo de que Netanyahu queira. Ele sabe que tem de seguir a liderança dos EUA, não pode aliená-los. Ele não se conformará ao ponto de congelar os assentamentos, mas pelo menos negociará. Quanto aos palestinos, não creio que queiram um acordo. Querem estender as negociações de forma perpétua até que haja tantos palestinos que a Palestina se transformará em um Estado árabe. Como têm mais filhos do que os judeus, acreditam que, em 20, 30 anos, haverá mais árabes em todo o território do que judeus. Assim, dirão: 'Isso é um Estado de segregação. Nos dê direitos.' Então teriam um Estado árabe-palestino com uma minoria judia. Os palestinos jogam com o tempo e a diplomacia, não são sinceros. 

iG: A questão demográfica, ou seja, estar sob risco de perder sua característica como um Estado judeu, seria a principal motivação de Israel para buscar a paz?
Morris:
Sim. Esse é o principal interesse próprio de Israel para sair da Cisjordânia: evitar tornar-se um Estado binacional ou de segregação. Os israelenses querem um Estado judeu, não querem compartilhá-lo com os árabes e certamente não querem governá-los.

iG: Para o senhor, há a possibilidade de haver uma terceira intifada (levante palestino) imediatamente ou anos após o colapso das atuais negociações porque não há como os palestinos aceitarem a ocupação. As atuais medidas de segurança israelense, principalmente com o Muro da Cisjordânia, não diminuem o risco de Israel ser atingido?
Morris: Também havia medidas de segurança na primeira (1987) e na segunda intifadas (2000), com forças de Israel na Cisjordânia, postos de controle, operações contra terroristas e assim por diante. A Cerca da Cisjordânia (há um muro apenas em um trecho dela) dificulta atingir alvos em Tel Aviv e Jerusalém, mas não é uma garantia contra foguetes ou mesmo que algum suicida consiga atravessá-la. De qualquer forma, há um risco maior para os colonos nos assentamentos do que para a população dentro de Israel, embora esta seja o principal alvo de desejo dos terroristas. Eles odeiam os colonos, mas sabem que é mais veemente explodir um ônibus em Tel Aviv.

iG: Israel está mais isolado agora?
Morris:
Não está, mas vem regularmente perdendo apoio no Ocidente. Enquanto a ocupação continuar, quanto mais houver expansão dos assentamentos, mais perderá apoio no Ocidente. Essa é a equação.

iG: Em seu trabalho, o senhor fala da dinâmica entre Israel e Autoridade Nacional Palestina, que governa a Cisjordânia, e não aborda o fator Hamas (grupo islâmico que governa a Faixa de Gaza) para uma eventual paz. Por quê?
Morris: Não abordo, porque o Hamas tem uma Constituição de 1988 que diz que Israel deveria ser destruído, é isso que eles acreditam, são sinceros. [O presidente da ANP, Mahmud] Abbas engana. Acho que ele também quer a destruição de Israel, mas finge que não. Os israelenses e principalmente os americanos pensam que, se a paz for alcançada com o representante da maioria da população palestina, ou seja, a da Cisjordânia, forçaria de alguma forma o Hamas a aceitar um acordo. Não acredito nisso. Acho que, se a ANP o assinar, o Hamas o subverterá e matará Abbas como vingança. Os americanos são mais otimistas que eu. Ou dizem que são.


RENATA MALKES

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