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Do otimismo à esperança

Coletânea de pensamentos do dia a dia
Autor: Jonathan Sacks
SKU: 12538
Páginas: 164
Avaliação geral:

O Rabino Lord Jonathan Sacks é considerado um dos maiores líderes espirituais da atualidade. Durante mais de uma década, ele foi uma das estrelas da rádio BBC de Londres, com seu programa "Reflexões para o Dia". Este livro reúne uma breve e sensível seleção desses discursos, o que o torna uma obra leve e dinâmica, e que tem encantado leitores ao redor de todo o mundo.

R$ 40,00 no Cartão
Disponibilidade: Imediata

Descrição

O Rabino Lord Jonathan Sacks é considerado um dos maiores líderes espirituais da atualidade. Seus livros e discursos trazem esperança e encorajamento a pessoas de todos os credos, principalmente nos turbulentos tempos em que vivemos, nos quais muitas se sentem ameaçadas pela complexidade e pelos desafios do mundo contemporâneo. Durante mais de uma década, ele foi uma das estrelas da rádio BBC de Londres, com seu programa "Reflexões para o Dia", no qual comentava de modo conciso, lúcido e inteligente os mais diversos assuntos do nosso cotidiano, trazendo aos seus ouvintes insights extraordinários. Este livro reúne uma breve e sensível seleção desses discursos, o que o torna uma obra leve e dinâmica, e que tem encantado leitores ao redor de todo o mundo.

Índice e trechos

Índice

Introdução
Prefácio à Edição Brasileira

A sabedoria de decidir
Comunidade
Escrevendo no Livro da Vida
O portal da esperança
Sem discrição
A sociedade com uma face humana
A jornada para a liberdade
Histórias dos nossos dias de ontem
Uma chama de esperança
Rembrandt e o Prêmio Turner
Dois livros da vida
O que ensinamos às crianças
Quando as palavras falham
A opção por ter filhos
O Gueto de Varsóvia
A paternidade como um privilégio
A paz como um paradoxo
Residentes temporários
A captura de Saddam Hussein
Por que o terror sempre fracassa?
O jogo da culpa
Pensando em termos globais
Deixem-me em paz ou mantenham-me informado?
Lucros e profetas
O mundo de cabeça para baixo
Spike
A coragem de viver com a incerteza
Perdão
Arriscando o salto
A era da insegurança
O mundo que construímos amanhã
Manter-se jovem
Público ou particular?
Estabelecendo a paz
Do ponto de vista do espaço
Entre a justiça e a vingança
Correr para parar
Dançando com o passado
Captando a reflexão para o dia
O direito de ser diferente
A vitória que dura
Terror em Mombasa
Transmitindo nossas esperanças
A fé chamada casamento
Arrependimento
Dia nacional do perdão
George
Falando às claras
Filhos de Abrahão
Comendo e nos reunindo
Fazendo nossa parte
A educação e a dignidade humana
Entre dois males
O choro de uma criança
A ciência como uma bênção
É necessário mais do que a guerra para assegurar a paz
Diga a seus filhos
Sobre exércitos e escolas
Kindertransport
Elogiando os professores
A coragem de perdoar
A luz de casa
Reverência, responsabilidade, restrição
Abandonando o passado
Abandonando o ódio
O herói sem túmulo
Pais
Terror em Madri

Prefácio

Falando com franqueza, esse programa é um dos elementos mais inusitados do dia a dia britânico. São quase oito horas da manhã e lá está você passando geleia no pão ou preso no trânsito, se preparando para enfrentar mais um dia quando, em meio às últimas notícias sobre um terremoto, discussão política ou ataque terrorista, sai do rádio uma voz inocente e descaradamente alegre fazendo um sermão. Deveria ser o suficiente para te fazer querer jogar tudo para o alto ali mesmo.
Mas eu sou um dos fãs de Reflexões para o Dia, aquela pausa não comercial na metade do Today, o jornal matinal da Rádio BBC4. Eu sempre adorei o programa Today desde os tempos em que Jack de Manio era o apresentador e espalhava a confusão ao dar a hora errada, fazendo uma significativa fatia da nação pensar que ou deveria voltar para a cama ou estava desesperadamente atrasada para o primeiro compromisso do dia. Se ele podia errar, o que dizer de nós? Era uma aula sobre como manter o senso de proporção.
E Reflexões para o Dia trata justamente de como manter o senso de proporção. Acho que é um resquício da época em que a BBC, ainda observando seu legado reithiano,* se considerava a consciência da nação, certificando-se de que houvesse um ato de louvor no horário nobre do rádio todos os dias, exceto no domingo à noite (houve uma época em que a televisão matinal não existia), para que as pessoas não tivessem desculpa para não ir à igreja. 
Daí Reflexões para o Dia, uma reflexão religiosa em meio a alguma notícia das últimas 24 horas, para nos lembrar de que, além de notícias, existem também as (e por que não criar um termo específico?) olds:* a sabedoria do passado, um eco da eternidade, uma maneira de se afastar do ritmo e dos empurrões dos dias de hoje e observar os eventos de uma perspectiva mais distante – 
o que é bom fazer de vez em quando.
Afinal, existe aquela pequena questão que é a tentativa de entender o sentido do que está acontecendo no mundo lá fora, de enxergar a história de um modo diferente daquele proposto por Joseph Heller, autor de Ardil 22: “um saco de lixo de coincidências aleatórias espalhadas pelo vento”. O Homo sapiens é um animal que procura sentido nas coisas, razão pela qual existe o fenômeno que chamamos de religião – a maior tentativa coletiva da humanidade de encontrar o sentido desta breve e tempestuosa sequência de dias, muitas vezes recheada de dor, que chamamos de vida.
Hegel, o filósofo muitas vezes impenetrável, disse uma vez que o homem moderno lê os jornais como um substituto para a oração. Se assim for, é um substituto bem pobre, porque a oração pelo menos incorpora, de alguma forma, a fé de que, pelo menos de uma perspectiva celestial, as coisas têm sentido, enquanto os meios de comunicação não têm esse comprometimento. Uma dieta composta exclusivamente de notícias tem poucas chances de nos convencer de que existe um script do qual fazemos parte, um plano de cujo desdobramento somos testemunhas, alguma narrativa que nos permita compreender o que está acontecendo e por quê.
É por isso que há tantos anos gosto de fazer Reflexões para o Dia. É uma forma de dizer: “Espere aí, gente, vamos fazer uma pausa, parar e pensar no que tudo isso significa!” Como nossos antepassados ​​o entenderiam? O que nossos netos pensarão a respeito quando olharem para trás? E como isso se encaixa nesse drama cósmico no qual fomos forçados a entrar, querendo ou não, pelo tempo que estivermos aqui para nos importarmos.
Acredito – e na verdade esta é uma das maiores contribuições da Bíblia para a civilização, algo totalmente revolucionária à sua época – que o tempo é uma narrativa; que a história é um diálogo contínuo entre nós, nossos instintos mais básicos e nossos mais altos ideais; que ele conta uma história, se nos esforçarmos o suficiente para decodificá-la. Também não é por acaso que contamos histórias, entre as quais as mais importantes são sobre de onde viemos, aonde vamos e por quê. Sem isso, a vida não tem sentido.
É claro que nesta era secular sem precedentes, muitos acreditam exatamente nisso: que a vida não tem sentido e que as notícias – a roda gigante do mundo, girando infinitamente, um London Eye* global – são tudo o que existe. Esta visão é certamente coerente. É antiga, bem como moderna (o filósofo grego Epicuro também pensava assim, e nos alertou para não alimentarmos esperanças, porque elas sempre acabam em desilusão). Mas, para mim, isso é estar surdo aos tons. Há música sob o ruído, ou seja, sob a superfície, mas temos de parar para ouvi-la. A religião é mais do que um sistema de crenças. É um ato de escuta focada no roteiro do qual somos os heróis e, junto com Deus, os coautores.
Afinal, isso era o que Tolstoi pensava, e continuou afirmando através daquele que talvez tenha sido o mais grandioso romance já escrito, Guerra e Paz. Ele acreditava que as pessoas no centro da batalha nunca sabiam o que estava realmente acontecendo. Para tanto, era preciso o olhar de um romancista. Mais tarde, ele chegou à conclusão de que o necessário era o olhar da fé, e prontamente desistiu de escrever romances e dedicou-se às boas obras e panfletos religiosos. Uma das coisas boas de Reflexões para o Dia é que é, sem dúvida, mais curto que Guerra e Paz. (Tem duração de dois minutos e quarenta e cinco segundos. Costumava durar três minutos, mas a BBC decidiu encurtá-lo, alegando que ninguém consegue mais se concentrar por três minutos. E isso já merece uma Reflexão.)
Os anos dos quais essas reflexões foram tiradas (de 1995 ao primeiro dia de 2004) foram inquietantes e perturbadores. O ano 2000 testemunhou o colapso do processo de paz no Oriente Médio e uma campanha de atentados suicidas que deve figurar entre as mais destrutivas e autodestrutivas da história daquela terra conturbada. Um ano depois veio o 11 de Setembro, um ato de violência calculada, que derrubou mais do que as Torres Gêmeas de Nova York. Ele acabou com a era de otimismo cauteloso que acompanhou o fim da Guerra Fria, a queda do Muro de Berlim, o colapso do Apartheid na África do Sul e – pelo menos no Ocidente – o mais longo boom econômico de que há memória.
Desde então aconteceram guerras no Afeganistão e no Iraque e as derrubadas do Taliban e de Saddam Hussein – vitórias em certo sentido bem-sucedidas, mas inseguras, se de fato se provarem vitórias. Aprendemos que é fácil derrotar tiranos, mas muito mais difícil construir sociedades livres com as autorrestrições e noções de civilidade que elas requerem. A “nova ordem mundial” se parece de forma suspeita com a velha desordem mundial descrita pela Bíblia como o estado da humanidade antes do Dilúvio. E este foi memoravelmente caracterizado por Hobbes em Leviatã como uma guerra de “todos contra todos”, na qual existe “um constante temor e perigo de morte violenta. E a vida do homem é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta”.*
Hobbes escrevia nas décadas de 1640 e 1650, tendo como pano de fundo as guerras religiosas que haviam lançado a Europa em turbulência durante um século. Talvez este seja nosso maior medo à medida que encaramos o século 21: de estarmos diante de outra era de guerras religiosas (ou como Samuel Huntington as chama, “choques de civilizações”), mas desta vez com armas de poder destrutivo muito maior. De fato, uma coisa que o 11 de Setembro fez foi nos lembrar de que até mesmo os mais inocentes objetos podem ser usados para fins assassinos. Antes disso, quantos de nós imaginávamos que aviões jumbo, arranha-céus e estiletes escolares seriam armas letais, capazes de causar a morte de milhares? Se alguma coisa foi aprendida com aquele dia, é que o mal não está nos objetos do mundo externo, mas sim na mente humana e na sua capacidade para o ódio. Freud estava certo: a civilização é sustentada na psique, a palavra que significa “a alma”, e na eterna batalha entre o que ele chamou de Eros e Tanatos, o “princípio do prazer” e o “instinto da morte”. Na verdade, as palavras que ecoam com mais força daquele dia 11 de Setembro, tinham sido escritas 62 anos antes por W.H. Auden (em seu poema “1º de Setembro de 1939”):
O inominável cheiro da morte
Conspurca a noite de setembro...
Tudo que tenho é a voz
Para desfazer a mentira velada,
A mentira romântica no cérebro,
Do mundano homem das ruas
E a mentira da Autoridade
Cujos prédios apalpam o céu:
Não existe o Estado
E ninguém existe sozinho...
Devemos amar uns aos outros ou morrer.
Nas linhas finais de seu poema, Auden define sua obrigação enquanto poeta, que certamente serve para todos nós (sei que serve para mim): “Poderia eu, composto da mesma matéria que eles/ De Eros e de pó,/ Restrito pelas mesmas coisas/ Negação e desespero,/ Exibir uma chama afirmativa.”
Foi o que tentei fazer em muitas dessas Reflexões – articular uma esperança, “mostrar uma chama afirmativa”. Não há nada de inevitável ou lógico na esperança. Há culturas em que ela não existe. Não há nenhuma razão – com base na lei científica ou na experiência histórica – para acreditar que amanhã será melhor do que hoje (minha esposa Elaine tinha um cartaz na parede que dizia: “Eles disseram: ‘Anime-se – as coisas poderiam ser piores’. Então eu me animei... e com certeza elas pioraram”). Como a chamou o sociólogo Peter Berger, a esperança é um sinal de transcendência – algo que conversa conosco de um lugar além de onde estamos. Se eu tivesse de definir a tarefa a que me propus nos últimos quatro anos, diria que era ser agente da esperança.
A esperança é, em última análise, uma emoção religiosa. Ela nasce da convicção de que somos mais do que uma cega concatenação de “genes egoístas”. Essa pode ser uma das maneiras de descrever o que somos, mas não é tudo o que somos, e acreditar no contrário é estar surdo para a música da própria vida.
Filósofos, tanto antigos quanto modernos, algumas vezes se pronunciaram como se fosse um ato de coragem intelectual acreditar que não há significado para a existência humana, que somos poeira cósmica em um universo cego às nossas esperanças, indiferente às nossas orações. Eu, no entanto, nunca tive certeza de que o niilismo é uma postura mais corajosa que a fé – fé que a própria existência do universo e o surgimento de um ser capaz de perguntar “por quê?” testemunham, em sua pura improbabilidade, para algum propósito real (ainda que indubitavelmente obscuro).
Estamos aqui, creio eu, porque Alguém queria que existíssemos; Alguém que nos criou do amor, que conhece nossos medos, ouve nossos clamores e acredita em nós mais do que acreditamos em nós mesmos, nos erguendo quando caímos, nos dando força quando a força falha, que perdoa nossos erros quando reconhecemos que foram erros, que nos segura em Seus braços eternos e que nunca nos rejeita, mesmo que outros o façam. E se tudo isso se revelar falso, então eu prefiro ser acusado de assumir o risco de acreditar no melhor da existência do que de ter me refugiado na segurança de acreditar no pior.
E se tudo isso é metafísico demais, deixe-me colocar de outra forma. Um tempo atrás nosso escritório alugou um carro com GPS. É um dispositivo brilhante. Você digita o destino e uma voz educada e um mapa lhe orientam por qual caminho ir. Mas os motoristas judeus sempre sabem mais – um atalho aqui, um desvio ali (“Como o computador pode saber mais do que eu, que cresci aqui?”). O que me fascina é a forma como o dispositivo responde. Ele faz uma pausa por um momento para assimilar o fato de que suas instruções foram ignoradas. Em seguida sinaliza: “Recalculando a rota” e – vejam só – ele cria uma nova rota com base em sua posição atual. É a este milagre eletrônico da persistência que eu devo uma das grandes lições da vida: que onde quer que você esteja e onde quer que queira estar, há uma rota entre aqui e lá. Se isso não for motivo para esperança, não sei o que pode ser. E foi isso que, de uma forma ou de outra, eu quis expressar com estas Reflexões.
No entanto, às vezes temos de criar a esperança. Ela não está lá esperando para ser simplesmente apanhada como a fruta de uma árvore que outra pessoa plantou. E aqui eu tenho de ser sincero quanto ao medo mais profundo que tem me assombrado nos últimos três anos e roubado meu sono em muitas noites agitadas.
O século 21 testemunhou – se não na Grã-Bretanha, em muitas outras partes do mundo – um ressurgimento da religiosidade. As razões são complexas, mas pelo menos uma parte da história é contada de forma simples. Em uma época de mudanças, buscamos refúgio nas coisas que não mudam. Em tempos de confusão temos sede de certezas. Os termos da política mudaram. Se o século 20 foi a Era da Ideologia, o século 21 será visto como a Era da Identidade na qual as pessoas desiludidas com a política se voltaram para as questões mais fundamentais de todas: “Por que estou aqui?” e “Quem sou eu?”
Estas são questões que não podem ser respondidas pela política ou pela economia, que nos dizem o que e como, mas não por que ou quem. A busca por significado e identidade sempre acaba em religião. Mas no próprio ato de fornecer uma solução, ela também cria um problema. A religião une as pessoas em uma rede de “pertencimento”. A palavra em si vem de uma raiz latina que significa “ligar”. Ela transforma ‘eu’ em ‘nós’. Ela funde individualidades díspares em uma única comunidade. Mas o “nós” é definido por contraste com “eles” – os que não são como nós, cujos ideais, valores, rituais e narrativas são diferentes dos nossos. A religião divide tanto quanto une. Dizemos: “Se pelo menos o resto do mundo fosse como nós – nós que valorizamos o amor e a paz, o perdão e a fraternidade.” Mas o mundo não é como nós, nem será até o fim dos tempos. A valorização da diversidade nunca foi o forte da religião.
No passado isso importava menos do que hoje. Na maior parte da história, muitas pessoas conviviam em estreita proximidade com aqueles com quem compartilhavam uma cultura e um modo de vida. Isto mudou. Através das comunicações globais, da facilidade de viajar, das migrações e da fragmentação da cultura, agora vivemos na presença contínua e consciente das diferenças. O que, para muitas pessoas, é profundamente ameaçador.
O resultado é o fundamentalismo, especificamente o uso da violência para impor nossa visão sobre os outros. Os resultados podem ser encontrados em zonas de conflito em todo o mundo. Vivemos uma época em que, nas palavras de Jonathan Swift, “temos religião suficiente para nos fazer odiar uns aos outros, mas não o suficiente para fazer-nos amar uns aos outros”.
Isto pode parecer bem distante de Reflexões para o Dia, mas estranhamente, não é. Reflexões pede a seus colaboradores uma coisa muito rara hoje em dia. Ele convida cada um de nós, seja qual for a nossa fé, a falar com pessoas que não são da nossa fé. Ele nos pede para difundir, não fundir. Ele nos obriga a falar de forma inclusiva, respeitando a diversidade de quem ouve. É um convite permanente à generosidade de espírito. Ele nos lembra de que, apesar de nossas crenças serem muitas, o nosso destino é um só.
E, sendo rabino, eu não poderia terminar sem ilustrar esta lição com uma história. Esta é verídica. No final de 1990, o Dr. George Carey havia sido eleito, mas ainda não tinha tomado posse como Arcebispo de Canterbury. Eu tinha sido eleito, mas ainda não tinha tomado posse como Rabino-Chefe. Não sei como, mas uma pessoa descobriu que ambos éramos torcedores apaixonados do Arsenal. Essa pessoa entrou em contato conosco e perguntou se queríamos que nosso primeiro encontro ecumênico ocorresse em seu camarote no Estádio Highbury – uma partida no meio da semana por razões religiosas óbvias. Ambos respondemos com entusiasmo que sim.
O grande dia chegou. Faltou pouco para ser o próprio Paraíso. Chegamos ao camarote e fomos levados para conhecer os jogadores. Saímos e ficamos sob as luzes dos holofotes, no gramado sagrado para entregar um cheque para caridade. Os alto-falantes anunciaram nossa presença. Dava para ouvir o burburinho em torno do campo.
Independente do lado que se escolhesse na aposta teológica, naquela noite o Arsenal tinha amigos nas altas esferas. Eles não poderiam perder. Um tog nachtiger, como minha avó dizia: Quem dera fosse assim. Naquela noite, o Arsenal entrou em campo para sua pior derrota em casa em 63 anos. Eles perderam por 6 a 2 do Manchester United. O Arcebispo ficou fora de si de agonia.
No dia seguinte, um dos jornais nacionais publicou a história e concluiu que se, mesmo combinadas, as orações do Arcebispo de Canterbury e do Rabino-Chefe não conseguiram garantir uma vitória para o Arsenal, isto não provava de uma vez por todas que Deus não existe? No dia seguinte eu respondi dizendo: Ao contrário, o que isso prova é que Deus existe. Só que Ele torce para o Manchester United!
Que é uma maneira de dizer que se nos lembrarmos de que Deus está do nosso lado, mas que Ele também está do outro lado, teremos uma chance de perceber que aos olhos do Céu estamos todos do mesmo lado, o lado da humanidade. O jogo é mais importante do que os times e o que está em jogo envolve a todos nós. Devemos, como disse Auden, amar uns aos outros ou morrer.

Nada é mais difícil e poucas coisas envolvem tantas conse-
quências do que saber quando declarar guerra. Nos tempos antigos, o povo de Deus seguia a voz de Deus. Tinha profetas e oráculos. O Livro de Eclesiastes, em palavras que eram verdade então e são verdade hoje, diz que há um tempo para a guerra e um tempo para a paz. A diferença é que, naquela época, as pessoas tinham certeza de quando era tempo de uma e de outra. Hoje, enxergamos as coisas como se através de um vidro escurecido, embaçado. Hoje, quem disser que ouve a voz de Deus incitando-o a matar é um mentiroso, uma fraude. Se nós soubéssemos o futuro, poderíamos agir com certeza. Mas ser humano é conviver com a incerteza e, ainda assim, ter a coragem e a sabedoria para decidir.
Muita gente de grande coragem disse que declarar guerra contra o Iraque é errado. Haverá mortos e, entre os mortos, inocentes. Pouco se sabe das armas de Saddam Hussein, e como e contra quem exatamente ele pretende utilizá-las. Como pode uma mera possibilidade ter mais peso do que a certeza do sofrimento e morte que a guerra causará? Este é um argumento sério, importante, e eu o respeito das profundezas da minha alma.
Mas também ouço destas mesmas profundezas outra voz. A tragédia e devastação de 11 de Setembro foi apenas o começo, o primeiro raio de uma tempestade que ameaça o mundo inteiro. Vivemos uma era de terror global e governos imorais, sem qualquer respeito pelos protocolos de guerra tal e qual os conhecemos.
Impiedosos em seu descaso pela vida, eles são capazes de segurar a espada de Dâmocles sobre todos nós; se não agora, então no tempo dos nossos filhos. Com o futuro à mercê de seus planos e intenções, como podemos permitir que seja assim, sem detê-los, sem exercer qualquer tipo de controle sobre eles? 
Há 12 anos, durante a Guerra do Golfo, eu, minha esposa e nossos filhos ficamos 39 vezes nos abrigos antiaéreos em Jerusalém, enquanto mísseis Scud choviam sobre as ruas da cidade, sem nunca saber se o próximo conteria armas químicas ou biológicas. Ao olhar para nossa filha de oito anos usando sua máscara de proteção, pensei: “Este não é um mundo para ela ou para qualquer outra criança.” De alguma forma devemos dizer: “Chega.”
E assim eu rezo: “Querido Deus, poupe-nos da necessidade de uma guerra. Mas, se tiver de ser, dê sabedoria aos nossos líderes e capacidade aos que lutam para minimizar o sofrimento e a perda de vidas. Permita que este seja o início do final de um reinado de terror, para que possamos encontrar um novo caminho.” 

Anos atrás, um amigo meu foi assaltado. Ele estava voltando à noite para casa da sinagoga quando um grupo de jovens o atacou, agrediu e o jogou no chão. Ele chegou em casa com dificuldade, ferido não só fisicamente como psicologicamente.
Então algo inesperado e muito comovente aconteceu. Quando ele não apareceu na sinagoga na manhã seguinte, as pessoas sentiram sua falta e telefonaram. Eles descobriram o que tinha acontecido e, a partir daquele momento, um fluxo constante de visitantes passou a ir à sua casa, alguns trazendo comida, outros para lhe fazer companhia, até ele se recuperar. Quando os policiais vieram registrar seu depoimento, ele disse: “Sei que isso pode parecer estranho, mas eu quase tenho vontade de agradecer aos meus agressores. Eles me mostraram os amigos que eu nunca soube que tinha.”
Trata-se de um exemplo extremo, creio, mas nos diz o que é comunidade em sua melhor forma. É um lugar no qual estamos presentes para as outras pessoas, e elas estão presentes para nós, não por causa da situação do mercado financeiro, não por um relacionamento que envolve poder ou troca, mas exclusivamente pelo vínculo que nos une mutuamente, uns aos outros. É um lugar onde o “Nós” tem precedência sobre o “Eu”.
Nas últimas semanas tivemos algumas mensagens importantes sobre o significado de comunidade. Ouvimos o Ministro das Finanças clamar por um novo senso de civismo comunitário e, na última quinta-feira, o Primeiro-Ministro abriu uma grande conferência sobre as comunidades e o trabalho voluntário. Foi a mensagem certa na hora certa. De acordo com uma pesquisa publicada hoje, um terço das pessoas não conhece os próprios vizinhos, e nunca houve mais gente do que agora morando sozinha. No Livro do Gênesis, somente uma coisa “não é boa”: Não é bom para o homem estar só. Hoje, nós precisamos fortalecer a estrutura de união sobre a qual uma sociedade é construída.
No judaísmo, chamamos uma casa de oração de bet knésset, no sentido de lar da comunidade. Em sua melhor forma, as religiões são instituições que constroem comunidades. Como rabino, ouço mais pessoas do que gostaria enfrentando crises e, ao mesmo tempo, fico emocionado ao ver aquelas que correm de um lado para o outro, prestando ajuda e oferecendo consolo, apoio e força. Uma comunidade é o lugar onde criamos coisas que não podemos comprar em lojas ou receber do governo: amizade, lealdade, generosidade, confiança – coisas que só podem existir se compartilhadas.
Nós precisamos de comunidades para atenuar as situações por vezes brutais do mundo inclemente em que vivemos. Quase sempre a sociedade é um lugar de estranhos, onde precisamos de uma grande família feita de amigos. Assim, se você me perguntasse o que é uma comunidade, eu responderia que é o lugar onde sabem quem você é e sentem sua falta quando você não está presente. Comunidade é a face humana da sociedade – 
o lugar onde nós sabemos que não estamos sós.
Amanhã e depois de amanhã serão os dias de Rosh Hashaná, o Ano Novo judaico. Se me pedissem para tentar definir o que estes dias representam, eu diria que são o equivalente judaico de Reflexões para o Dia, ou, com mais acerto, Reflexões para o Ano, uma pausa em meio à agitação do dia a dia. Em Rosh Hashaná nós não pensamos nas manchetes do jornal; pensamos sobre a vida e em como temos vivido a nossa. Contamos as bênçãos recebidas e enumeramos nossas falhas. Pensamos nas vezes em que poderíamos ter ajudado a outros, mas não o fizemos. Falamos a Deus do nosso arrependimento e pedimos que Ele nos perdoe. E rezamos para ser inscritos no Livro da Vida. É um pouco parecido com o sistema das duas pastas que mantenho sobre a minha mesa de trabalho. Uma delas, bastante volumosa, tem a etiqueta “urgente” na capa. A outra é mais fina e um tanto negligenciada. Sua etiqueta diz “importante.” Rosh Hashaná é o momento em que ignoramos o urgente e nos concentramos no importante: a vida como a dádiva mais preciosa de Deus.
Por isso, este ano pensarei em dois amigos que perdi ao longo dos últimos 12 meses, dois homens que escreveram grandes páginas no Livro da Vida. O primeiro foi Yitzhak Rabin, o Primeiro-Ministro de Israel. Rabin foi um dos heróis militares de Israel, um oficial das mais altas patentes. Mas, perto do fim de sua vida, com a dor e o pesar causados pelas guerras se acumulando, ele tomou outro rumo. Deu a mão a antigos inimigos e começou a trilhar o caminho longo e cheio de obstáculos em direção à paz no Oriente Médio. Assumiu grandes riscos, e acabou sendo assassinado. Algumas semanas antes de sua morte, partilhamos nossas visões sobre a situação. Eu falei das tensões cada vez mais intensas em Israel. Mas ele, gigante como sempre foi, estava determinado a continuar. Não podia tolerar, disse, ver tantos pais e filhos enlutados, tantas pessoas mortas nos conflitos. Ele nos ensinou a coragem de buscar a vida. 
O outro amigo que perdi foi Hugo Gryn, locutor e rabino da sinagoga Oeste de Londres. Embora Hugo e eu ocupássemos polos opostos no âmbito religioso, éramos amigos. Ele vivera o inferno de Auschwitz ainda criança. Quem o culparia se tivesse passado o resto da vida traumatizado e aterrorizado? O extraordinário foi que, ao invés disso, dedicou sua carreira a ajudar os outros e a trabalhar por um entendimento melhor entre as religiões. Era inacreditável, mas ele nunca perdeu seu senso de humor, sua fé na humanidade, sua atitude de esperança. Ele nos ensinou a coragem na afirmação da vida. 
Para mim, esses dois amigos mostraram o que realmente importa: inscrever outras pessoas no Livro da Vida. 

A morte do presidente sírio Hafez al-Assad no último fim de semana deixou o mapa político do Oriente Médio em estado de confusão. Nós certamente desejamos bons resultados ao seu sucessor na longa busca por uma fórmula que permita a todos os povos daquela região tão sofrida conviver em paz. 
Nesses momentos não consigo deixar de pensar em histórias muito pessoais. No começo da década de 1870, meu bisavô, um rabino, deixou a Lituânia para viver em Jerusalém. Fez isso como um ato de peregrinação ao lugar que há três mil anos vive no coração das preces judaicas. 
Mas, em 1881, acontecimentos mudaram sua vida de uma hora para outra. Os pogroms se espalhavam por toda a Rússia. Ele se deu conta de que a Europa não era mais um lugar seguro para os judeus, e começou a viajar pelas localidades onde eles se concentravam, persuadindo as pessoas a deixar o continente. Num gesto notável para mim até hoje, ele, um rabino, se tornou agricultor e pioneiro. Foi para um pântano infestado pela malária e ajudou a construir a primeira comunidade agrícola judaica na Terra Santa. Hoje ela é uma cidade próspera. Mas através do nome dado a ela pode-se sentir a visão religiosa daqueles primeiros colonos. Usando uma frase do profeta Oseias, chamaram o lugar de PetachTikvá – “Portal da Esperança”.
Qual era sua esperança? Não a de que alguém perdesse a posse, mas que, juntos, árabes e judeus pudessem fazer aquela terra milenar florescer de novo. Infelizmente, não foi o que aconteceu. Doze anos depois, os colonos judeus foram atacados, meu bisavô viu que não era mais seguro viver ali e foi para a Inglaterra. Aquela foi uma oportunidade perdida, como tantas outras desde então até hoje.
Da guerra, nada se ganha. Da paz, todos se beneficiam. Você vê isso nas páginas da história e nos lugares que visita ao redor do mundo. Por que, então, é tão difícil alcançar a paz? Meu bisavô teria uma resposta simples. Quando os judeus rezam, terminamos com uma prece pela paz e, nesse momento, damos três passos para trás. Para alcançar a paz, você tem de dar espaço para outra pessoa. Tem de abrir mão de uma pequena parte do seu sonho em nome do sonho de outros. Eu rezo para que, junto com os líderes de Israel, o novo presidente da Síria tenha essa coragem e, derrubando os muros da desconfiança, eles finalmente construam o portal da esperança. 

Ontem pela manhã, eu estava lendo sobre as impropriedades mais recentes cometidas por pessoas em altos cargos. Dessa vez, falaram de um advogado, já falecido, famoso por ensinar aos ricos e famosos como se manter longe da imprensa. Seu erro foi não ter sido esperto o suficiente e ter comentado com um amigo o que pensava de alguns dos envolvidos, e agora o amigo vendeu a história para os jornais.
Ainda existe alguma privacidade? Provavelmente não, a julgar pelo número de escândalos provocados nos últimos anos por confissões públicas e amigos indiscretos. Certa vez, Woody Allen fez uma brincadeira, dizendo: “Eles me expulsaram por ter ‘colado’ no teste de metafísica. Eles me flagraram examinando a alma de outra pessoa.” Hoje em dia, esmiuçar a vida alheia é nosso passatempo favorito. O que aconteceu com aquele antigo ditado que diz que “A melhor parte da coragem é a discrição”?*
Eu me lembro de um jantar em que me sentei ao lado de um destacado acadêmico a quem eu havia convidado para ser um dos jurados de uma premiação. A cerimônia aconteceria na semana seguinte. Não importa o que aconteça, eu disse a ele, não conte para ninguém quem é o vencedor. Ninguém deve saber antes da hora. Para minha absoluta surpresa, ele imediatamente falou em voz alta o nome do vencedor. Eu disse: “Mas é segredo.” Ele respondeu: “Eu aplico o modo ‘Oxford’ de guardar um segredo.” Perguntei: “E que modo é esse?” Ele respondeu: “Você só conta para uma pessoa de cada vez.”
Por sorte, o que ele fez naquele momento não chegou a causar danos. Mas nem sempre é assim. A fofoca suja a reputação dos mortos. Ela causa grande confusão nos relacionamentos entre os vivos. A discrição está para a fala como as roupas estão para o corpo. O excesso de nudez – nosso e alheio – acaba nos levando a odiar uns aos outros. 
Claro que há verdades que nós precisamos saber. Ocultar informação é errado, e existem segredos que devem ser expostos. Mas nem sempre é assim. Não por acaso a Bíblia ensina: “Não dissemine mexericos entre seu povo” (Levítico 19:16). As virtudes da discrição e de honrar confidências, há muito perdidas, nasceram do desejo de preservar pessoas e reputações. Elas trazem à luz os aspectos menos nobres da personalidade humana. Um mundo no qual as pessoas geralmente enxergam o bem nos outros é melhor do que aquele no qual suspeitamos que todos os santos sejam, na verdade, pecadores. Uma sociedade cínica é uma sociedade que perdeu a capacidade de admirar.
Nem tudo o que ouvimos precisa ser contado, e nem tudo o que nos contam podemos vender. Do contrário, estaremos criando um mundo desprovido de amizade, lealdade e confiança. E, no final, isso não é uma boa notícia. 
Esta semana vou participar de uma conferência diferente. 
O tema é religião e bem-estar social. Políticos de todos os partidos e líderes religiosos estarão reunidos para discutir como instituições construídas sobre os princípios da fé podem ajudar a criar uma sociedade na qual pessoas se importem e se dediquem umas às outras. 
Com isso em mente, eu procurei observar melhor, mais consciente, como foi aquele Shabat (sábado) na nossa sinagoga. Durante a semana, os mais diversos grupos se encontram na sinagoga, alguns deles voltados para pessoas mais velhas e aquelas que moram sozinhas, outros para crianças e adolescentes. É um lugar que fervilha com atividades sociais, educacionais e outras dedicadas ao bem-estar e a prestar apoio.
Mesmo no Shabat, nosso dia de descanso, foi fascinante ver a magia da qual é feita uma comunidade. Entre as preces e a leitura das Escrituras temos, como sempre, uma pausa para registrar momentos significativos nas vidas de nossos membros. Alguém foi agraciado na lista de honra publicada naquela manhã, e nós demos a ele os parabéns. Um jovem casal teve um bebê, e cantamos para eles uma canção de congratulações. Oferecemos palavras de consolo a uma senhora que tinha acabado de perder sua mãe e, obviamente, rezamos por aqueles que estavam doentes.
É um costume normal para mim, mas esta semana me dei conta do que, de fato, isso significava. Cada uma dessas pessoas estava compartilhando acontecimentos com a comunidade, sabendo que uma comemoração dobra de valor quando compartilhada, e que um pesar compartilhado é um pesar dividido ao meio.
Nós cometemos um erro ao pensar que a religião é uma questão apenas de fé. É também o sentimento de pertencer, um sentimento gerado por uma comunidade; uma delicada, mas poderosa rede de relacionamentos na qual aprendemos os fundamentos da moralidade – a estarmos presentes para os outros quando precisam de nós, cientes de que eles farão o mesmo quando nós precisarmos.
Uma pesquisa americana revelou que 25 por cento dos entrevistados recorreria ao governo se alguém de sua família precisasse de ajuda. Oitenta e seis por cento disseram: a um membro da minha congregação. Talvez esta seja uma forma de medir o quanto as entidades religiosas sustentam uma comunidade, e a importância de sabermos que não estamos sós.
Eu amo nossas congregações porque, hoje em dia, elas são praticamente os únicos lugares onde pobres e ricos, jovens e idosos, encontram a mesma dignidade e a mesma responsabilidade mútua. Para mim, comunidade é o lugar onde sabem seu nome e sentem sua falta quando você não está lá. É o rosto humano de uma sociedade, e uma fonte de bem-estar social que governo algum pode reproduzir. 
A campanha eleitoral tem sido muito estranha até agora. Tivemos as galinhas, com e sem cabeças, um leão inglês, um buldogue inglês e alguns sussurros sobre uma criatura europeia chamada EMU,* tudo isso dando um novo significado à expressão “animal político”, de Aristóteles. Mas sob as tentativas de humor, a briga e as reviravoltas, parece existir alguma evidência perturbadora de que as pessoas estão ficando entediadas ou até cínicas em relação à política, e de que os jovens simplesmente não votarão. Talvez porque uma sociedade livre seja, de certa forma, parecida com a nossa saúde. Enquanto a desfrutamos, não reconhecemos seu valor. Só quando corremos o risco de perdê-la é que tomamos consciência plena da sua importância.
É por isso que, a partir da noite de hoje, a comunidade judaica estará celebrando nossa festa mais antiga: Pêssach (Páscoa). São dias nos quais relembramos a história bíblica contada no Livro do Êxodo, de como os israelitas, até então escravos no Egito, foram resgatados por Deus e começaram sua jornada rumo à liberdade. Nós não apenas contamos a história – nós a vivenciamos. Comemos matsá, o pão ázimo da aflição. Sentimos o gosto do maror, a erva amarga da perseguição. Bebemos quatro copos de vinho, abençoando a liberdade. O foco da comemoração, que tem lugar em nossas casas, gira em torno das perguntas feitas logo no início pela criança mais nova à mesa: Ma nishtaná halaila hazê – por que esta noite é diferente das outras? Os eventos da narrativa aconteceram há mais de três mil anos, mas nós os relembramos como se tivessem ocorrido ontem, porque a liberdade precisa ser celebrada a cada geração. O que Pêssach nos diz é que a melhor maneira de fazer isso é lembrando o sentimento de não ser livre. 
No caso de uma eleição, a religião pode não nos dizer em quem votar, mas, sim, que votar é importante. A base da democracia é um dos ideais mais nobres, e sua semente está plantada na Bíblia, ainda que só tenha florescido depois de muitos séculos. Pêssach nos ensinou que Deus valoriza a liberdade humana e quer nos ver criando sociedades nas quais ela é respeitada. Isso significa governar por consenso e responder por seus atos para nós, os governados. Como disse Charles Peguy, pensador francês do século 19: “Todas as coisas começam no misticismo e terminam na política.” Isso é certamente verdadeiro na concepção de uma sociedade livre, nascida mais de três mil anos atrás no Êxodo e revivido em Pêssach. Assim, à medida que a data das eleições se aproxima, eu me sinto grato pelo direito de votar e por mais este passo na nossa longa jornada rumo à liberdade. 
Esta noite, minha esposa e eu nos sentaremos à mesa com nossos filhos para contar uma das histórias mais antigas do mundo: a história de Pêssach, a festa judaica da liberdade. O tema não se encaixa perfeitamente no nosso programa. Não trata da doença da vaca louca, das batalhas entre os políticos. Não se caracteriza, em definitivo, como assunto típico entre aqueles que costumamos abordar.
É sobre como um grupo de escravos, os antigos israelitas, deixou o Egito para trilhar o longo caminho em direção à Terra Prometida. Para torná-la ainda mais impressionante, mais do que uma simples história, acrescentamos um toque de realidade virtual. Comemos matsá, o pão não fermentado, como se estivéssemos no deserto. Comemos maror, as ervas que nos fazem sentir o gosto amargo da escravidão. E bebemos quatro copos de vinho, cada um representando uma das etapas do caminho que nos leva à liberdade. Celebramos Pêssach mais ou menos da mesma maneira que os israelitas devem ter feito há mais de três mil anos, e como os judeus têm feito desde então.
Creio que as perguntas aqui sejam: “Por quê?” e “Será que precisamos mesmo recordar um passado tão antigo, preparando um evento tão trabalhoso, para ensiná-lo aos nossos filhos?”
Do ponto de vista pessoal, tenho uma dívida imensa para com meus pais por terem me ensinado a história, as músicas, os rituais e as perguntas: Ma nishtaná halaila hazê – por que esta noite é diferente das outras noites?
Levou muito tempo até eu entender o que estava acontecendo de fato naquelas noites de Pêssach. Estava sendo ajudado a aprender quem eu era e a história do povo ao qual pertenço. Estava descobrindo os valores nos quais meus ancestrais se apoiaram nos tempos difíceis: confiança, amor profundo pela liberdade e pela justiça, um desejo verdadeiro de perguntar e aprender. Eu estava entrando na grande conversa entre as gerações, que é o que a educação deve ser. E, melhor de tudo, era prazeroso e cheio de alegria.
Há muitas razões positivas para desligar a televisão de vez em quando e conversar com as crianças sobre a jornada que nós e aqueles que vieram antes de nós empreendemos, e o que aprendemos ao longo do caminho. 
Às vezes temos pouca confiança em nós mesmos como pais. Subestimamos o quanto nossos filhos querem ouvir as histórias que dão sentido e propósito às nossas vidas, e que um dia darão força a eles. Os judeus nunca perderam o costume de contar a história às crianças. Talvez por esta razão tenhamos sobrevivido.
Valores não são invenções. Eles vêm do trabalho de muitas gerações, e por isso devemos transmiti-los às nossas crianças. Às vezes, contar a história de todos os nossos dias de ontem é a melhor ideia para hoje. 
Hoje é o primeiro dia de Chanucá, a festa judaica das luzes. 
E eu quero contar a história dessa festa pelo que ela nos diz sobre nosso mundo depois de 11 de Setembro.
Chanucá aconteceu cerca de dois séculos antes do nascimento do cristianismo. Israel se encontrava sob o domínio do império de Alexandre, o Grande. Então, o rei Antíoco tomou o poder, determinado a impor seus valores ao povo judeu. Ele proibiu a prática do judaísmo em público, colocou uma estátua de Zeus no Templo e profanou os lugares sagrados de Jerusalém. Foi tirania em altíssimo grau e, se Antíoco tivesse vencido, não só o judaísmo teria morrido, mas também não haveria cristianismo ou islamismo.
Um pequeno grupo de judeus se uniu em revolta e, surpreendentemente, em três anos derrotou o exército grego, restaurou a liberdade religiosa e restituiu ao Templo seu caráter sagrado. A palavra Chanucá significa “reconsagrar.”
Mas hoje, quando relembramos Chanucá, contamos uma história diferente. Contamos como os judeus, vasculhando os destroços do Templo, encontraram um único frasco de azeite intacto. Com ele, puderam reacender a menorá, o candelabro do Templo, e aquele mesmo azeite durou o número de dias exato para que mais fosse produzido. É por esta razão que acendemos as velas em nossos lares nessa época do ano. A vitória militar foi extraordinária, mas não durou. Duzentos e trinta anos depois, o Templo foi novamente destruído, dessa vez pelos romanos. O que ficou foi o milagre espiritual, a fé que, como o azeite, não foi extinta.
Este ano, a campanha militar no Afeganistão tem sido um sucesso. Um regime tirânico foi derrubado. A luta não acabou, mas muitas liberdades foram reinstituídas, ainda que a um custo muito alto de vidas humanas. Mas o que Chanucá nos conta, é que nem sempre os grandes eventos fazem diferença no longo prazo. Às vezes são os pequenos milagres que permanecem.
Não será uma vitória militar que mudará nosso mundo. 
O que pode mudar nosso mundo é saber se nós, do rico Ocidente, estamos dispostos a compartilhar algumas das nossas bênçãos com três quartos da humanidade que hoje vive em meio à pobreza, à fome e à doença. Eles têm tão pouco; nós temos tanto, e não é preciso muito para resgatar uma vida do desespero. Vitórias militares são temporárias; o que perdura são as vitórias espirituais. O verdadeiro teste da nossa era é saber se, para aqueles que sofrem nos lugares escuros do mundo, podemos acender uma chama de esperança. 
Dois eventos contrastantes do mundo das artes chamaram minha atenção essa semana. O primeiro foi o Prêmio Turner, outorgado pela Galeria Tate a um ceramista cujo trabalho foi descrito pela imprensa como especificamente voltado para a pornografia e a pedofilia, com peças intituladas, por exemplo, “Nós encontramos o corpo do seu filho” – companhia apropriada para ganhadores anteriores, como a “cama desarrumada,” o “excremento do elefante” e, naturalmente, a “ovelha em conserva”.
Eu me pergunto o que as gerações futuras pensarão de trabalhos como esses. Será que vão vê-los como nós vemos hoje os impressionistas, um escândalo na época e, agora, um paradigma de beleza? Ou será que os verão como símbolos de uma era confusa quanto ao papel e o significado da arte?
Isso me leva ao segundo evento: a publicação de um livro chamado “Os judeus de Rembrandt”. Ele conta da fascinação que o pintor holandês tinha pelos judeus que encontrava em Amsterdã, na maioria refugiados da perseguição religiosa na Espanha. Há alguma coisa de maravilhoso na maneira que aqueles retratos revelavam a beleza daqueles que outros tantas vezes desprezavam.
Quando o Rabino Abraham Isaac Kook foi obrigado a ficar em Londres durante a Primeira Guerra Mundial, ele encontrava inspiração ao visitar a Galeria Nacional, tantas vezes quanto lhe era possível, para ver as pinturas de Rembrandt, e fez um comentário marcante sobre elas: 
“A Bíblia diz que, no primeiro dia da Criação, Deus fez a luz. Mas Ele só criou o sol e a lua no quarto dia. O que era então aquela luz do primeiro dia? Os sábios dizem que era um brilho especial que Deus guardou para os justos nos tempos vindouros. Mas Deus pegou um pouquinho daquela luz e deu-a a Rembrandt!”
Acho que eu entendo o que ele quis dizer. Existe algo de religioso na arte que é grandiosa. A falecida Iris Murdoch costumava falar sobre o poder da arte em nos libertar da prisão das nossas ocupações e preocupações e, por um momento, olhar com reverência, gratidão e, sim, com humildade para o puro milagre daquilo que está ali, à nossa frente, congelado num momento de eternidade.
Eu penso que esta é a diferença entre a arte do passado e a arte de agora. A arte que visa nos chocar, choca apenas uma vez, enquanto aquela que aspira à beleza nunca perde o brilho. Como sensação, a primeira amortece nossas sensações, enquanto a segunda, com sua grandeza, as desperta. É por esse motivo que deixo o Prêmio Turner para mentes privilegiadas, e simplesmente sinto gratidão a Rembrandt e seu glorioso talento em sempre encantar nosso mundo tão desencantado. 
Há alguns dias fiz uma visita ao Lord Robert Winston, um dos mais famosos médicos e cientistas da Inglaterra, para conhecer um pouco do que estava sendo feito na nova unidade de pesquisa do Hospital Hammersmith. É uma experiência extraordinária ver de perto as últimas técnicas de fertilização in vitro, e a mais avançada pesquisa de desenvolvimento do embrião e do genoma humano. Não posso dizer que entendi tudo, mas fiquei deslumbrado com a decodificação do livro da vida e chegar ainda mais perto de ser capaz de tratar ao menos algumas doenças e condições genéticas – o futuro no presente.
E agora estou aqui, em Glasgow para celebrar, entre outras coisas, a finalização da escrita de dois Rolos da Torá (o Pentateuco), que até hoje são escritos da mesma forma que os Rolos do Mar Morto há mais de 2.000 anos: a mão, com uma pena, sobre pergaminho – uma conexão viva com o passado. E nós dançamos com os Rolos exatamente como fez o Rei David, três mil anos atrás, quando chegou com a Arca Sagrada em Jerusalém.
A surpresa, para mim, além do contraste entre os dois momentos e, também da conexão entre eles, foi que no escritório de Lord Winston, entre os últimos estudos científicos, encontrei um exemplar de Os Cinco Livros de Moisés, junto com vários livros de anotações. Lord Winston é um judeu ortodoxo e sua fé guia seu trabalho.
Nossa religião é muito voltada para o futuro. Não temos medo de novas tecnologias, precisamente porque elas nos permitem honrar, de maneiras jamais sonhadas por nossos ancestrais, alguns dos princípios mais antigos: curar doenças, tratar a infertilidade, e fazer de nós, como diz aquela linda frase judaica, “aliados de Deus na obra da Criação”.
Aqueles dois encontros – um com a medicina do amanhã, o outro com a fé do ontem – me fascinaram. Religião não significa viver no passado; significa viver com o passado – levando conosco a mensagem daqueles Rolos milenares na jornada rumo àquela terra desconhecida chamada futuro.
O maior erro que podemos cometer no século 21 é acreditar que acolher o futuro significa descartar o passado. Nosso conhecimento científico muda diariamente. Está sempre se desenvolvendo, é sempre novo. Mas nossa situação humana não muda. Continuamos a precisar dos ensinamentos dos nossos ancestrais e da voz de Deus, e quanto maior o poder que tivermos de curar ou ferir e consertar ou destruir, mais precisaremos das sábias verdades antigas que nos fazem relembrar a dignidade humana e a santidade da vida, responsabilidades nossas como guardiões da Criação. Aqueles que se mantém perto da sabedoria do passado podem enfrentar o futuro sem medo. 
Poucas vezes eu senti tão intensamente como nos últimos dois dias a ligação entre as notícias do “hoje” e o “ontem” das memórias religiosas. Por um lado, as imagens marcantes de Bagdá: tanques aliados frente a palácios presidenciais, cenas de júbilo nas ruas, a estátua de Saddam sendo quebrada até cair no chão – uma reprodução fiel, forte e sólida por fora e oca por dentro, vazia de qualquer traço de humanidade. Esta é a liberdade de agora.
Por outro lado, ao mesmo tempo, em lares judaicos por todo o país, estávamos nos preparando para Pêssach, a festa judaica na qual revivemos outro momento de libertação, quando há 3.300 anos, nos dias de Moisés, os israelitas se preparavam para dar adeus à sua própria experiência sob a tirania. Esta era a liberdade de então.
A conexão entre as duas é profunda e real. Para mim, isso é sintetizado no momento em que Moisés se dirige aos israelitas, logo antes do Êxodo, nos capítulos 12 e 13 do Êxodo. Moisés faz uma coisa surpreendente. Ele não fala sobre libertação ou sobre um futuro dourado, da “terra onde jorra o leite e o mel”. Ele nem mesmo fala das dificuldades que estão por vir, aquilo que Nelson Mandela chamou de “a longa caminhada até a liberdade”. Em vez disso, Moisés fala três vezes sobre pais e filhos, do nosso dever de passar a história do Êxodo às futuras gerações, que é o que fazemos em Pêssach. É uma das percepções mais profundas daquilo que faz uma sociedade ser livre.
A liberdade, Moisés disse, não vem da noite para o dia. Ela é trabalho de uma vida inteira; muitas vidas. O importante é a história que nós contamos às crianças. Para derrotar um tirano, você precisa de um exército. Para derrotar a tirania, você precisa de educação. Todos os anos você e seus filhos precisam comer o pão ázimo da aflição e as ervas amargas da perseguição, para que as futuras gerações nunca vejam a liberdade como algo garantido. A liberdade pode ser conquistada num campo de batalha, mas ela se mantém viva no coração humano. Por isso, disse Moisés, não apenas comemore. Eduque.
Eu sou grato àqueles que enfrentaram essa guerra com coragem, e rezo para que o povo do Iraque possa celebrar sua própria liberdade. Mas ainda há tanto ódio no mundo, tanto anseio por vingança e violência, que tenho uma prece a mais neste Pêssach: que as nações do mundo finalmente reconheçam que aquilo que ensinamos aos nossos filhos amanhã é tão importante quanto as vitórias que celebramos hoje.
Aqueles que fazem parte do movimento pela paz entre Israel e os palestinos o chamam de “Mapa da Estrada”. Mas existe uma diferença entre um mapa e uma estrada. Em um mapa, tudo é muito claro. A complicação começa quando você pega a estrada: engarrafamentos, distrações, atrasos. É aí que você precisa mais do que um mapa. Você precisa de paciência, da capacidade de resistir a uma centena de perdas e imprevistos e, ainda assim, seguir em frente. É disso que os dois lados precisam agora.
Até aqui, os sinais são positivos. Depois da Guerra do Golfo em 1991, um histórico processo de dez anos em direção à paz teve início: Madri, Oslo, Camp David e Taba. Nunca antes ambos os lados estiveram tão próximos. Tragicamente, o processo foi derrubado pela violência – e agora, quase três anos depois, podemos ver o que ela trouxe. Nada. Nada, exceto centenas de mortos e milhares de feridos de um lado e outro, deixando lesões profundas que levarão anos para curar. E agora, depois da Segunda Guerra do Golfo, os dois lados se reencontram. Os respectivos líderes têm feito progressos, dito coisas que seus seguidores nunca imaginaram ouvir e correndo grandes riscos por isso. Até aqui, os sinais são positivos.
Mas ainda há um obstáculo a ser superado. O erro mais grave – repetido muitas vezes ao longo da história – é acreditar que a paz seja um jogo de vencedores e vencidos. Se eu ganho, você perde. Se eu sou derrotado, a vitória é sua. Não é assim. A verdade é o oposto. Com a violência, os dois lados sofrem e perdem. Com a paz, ambos são vencedores. Por isso, demonizar um lado e exaltar o heroísmo do outro não passa de um desserviço à paz. A paz é um dueto de duas vozes, e quem pensa que uma delas pode sair vitoriosa se calar a outra, simplesmente não entende o que é um dueto.
Há um versículo extraordinário no começo da Bíblia que normalmente é mal traduzido. Literalmente, diz: “E Caim disse a seu irmão Abel; e quando eles estavam no campo, Caim repentinamente foi contra Abel e o matou.”
A sintaxe está interrompida. “Caim disse”, mas a Bíblia não relata o que. A sentença se quebra ao meio, e a mensagem é tão afiada quanto o fio de uma lâmina. Quando a conversação cessa, a violência começa, e a violência não tem vencedores, só vítimas. É por esta razão que, além de um mapa, os dois lados precisam também se comprometer a continuar o diálogo, haja o que houver. Guerras são ganhas com armas. A paz é conquistada com palavras.

Em um dos jornais de ontem vi uma manchete que certamente deveria nos dar motivos para reflexão. Ela dizia: ”Bebês, quem precisa deles?” E prosseguia: “Elas disseram não à vida doméstica e aos relacionamentos tradicionais. Agora, uma em cada cinco mulheres diz não à maternidade.”
O artigo era sobre uma pesquisa publicada esta semana indicando que o número de mulheres sem filhos dobrou no intervalo de uma única geração. É claro que algumas querem, mas simplesmente não podem conceber. Sentimos muito por elas. Mas essa não pode ser a única explicação, já que as técnicas de tratamento de infertilidade foram aperfeiçoadas de forma significativa ao longo dos últimos 20 anos. Segundo a pesquisa, parece que cada vez mais mulheres estão simplesmente optando por não ter filhos. Este fato por si só não deveria nos surpreender já que as técnicas da medicina tornaram a paternidade muito mais uma questão de escolha do que costumava ser. E de forma compreensível, mais mulheres estão optando por ter relacionamentos e carreiras sem querer se prender aos bebês e ao lar. Mas justamente por ter se tornado uma questão de escolha, precisamos repensar o motivo de se fazer a opção por ter filhos.
Daqui a três dias os judeus do mundo todo comemorarão Pêssach (Páscoa), época em que contamos a história do nosso início como povo, sobre como já fomos escravos no Egito e iniciamos a longa jornada através do deserto para a liberdade.
E mais do que qualquer outra, esta é uma festa relacionada às crianças. O grande ritual de Pêssach, o Sêder, acontece em casa, e começa com a criança mais nova fazendo quatro perguntas sobre por que esta noite é diferente das outras. É um momento em que celebramos a família e a transmissão da memória de uma geração para a outra. Na própria Bíblia, Moisés diz repetidamente que o mais importante com relação ao Êxodo é a maneira como nós o ensinamos aos nossos filhos. E até hoje, durante a Páscoa, as crianças judias sabem que são elas o centro das atenções.
Por quê? Acho que é porque se nos importamos com alguma coisa além de nós mesmos, queremos que ela continue existindo. 
É importante que uma parte de nós continue vivendo depois que nos formos. Ter um filho, de certo modo, é a coisa mais extraordinária que um ser humano pode fazer. Trazer uma nova vida ao mundo, proteger, cuidar dela e saber que esta nova vida é o mais perto da imortalidade que a maioria de nós conseguirá chegar, não é uma coisa pequena. Talvez o segredo da sobrevivência judaica ao longo de 4.000 anos resida em termos sempre tentado colocar os filhos em primeiro lugar. 
O fato de que agora podemos optar por não tê-los, um dia poderá nos levar a repensar e perceber o quão precioso é o fato de podermos optar por ter filhos.
Amanhã à noite, em todo o mundo, os judeus celebrarão uma das cerimônias religiosas mais importantes do ano, o Sêder de Pêssach. É o momento em que nos reunimos com toda nossa família e recontamos a história do Êxodo do Egito, ocorrido há mais de 3.000 anos.
Mas fazemos mais do que recontá-la. Nós a revivemos. Comemos o pão ázimo da aflição, provamos das ervas amargas da escravidão e bebemos os quatro copos do vinho da liberdade. Conheço poucas ocasiões em que a história é representada de forma tão vívida. Você se sente como se tivesse estado lá. Como parte da cerimônia, dizemos: “Em cada geração, cada um de nós deve se sentir como se nós mesmos tivéssemos saído do Egito.” E é o que fazemos. Em Pêssach transformamos a história em memória viva. Mas por que é tão importante relembrar o que aconteceu há tanto tempo?
Quando me perguntam isso, eu me lembro de algo que ocorreu numa véspera de Pêssach há 52 anos. Os judeus da Europa estavam sendo assassinados aos milhões. No Gueto de Varsóvia, somente um quinto dos judeus ainda estavam vivos. Os demais tinham sido deportados para campos de concentração. Em seguida, chegou a notícia de que os judeus que ainda restavam seriam mortos no dia seguinte. Ao invés de celebrar a Festa da Liberdade, receberiam um decreto de morte.
O que aconteceu a seguir foi uma das histórias mais marcantes da Segunda Guerra Mundial. Os judeus reagiram. Era uma luta desesperada: 1.200 combatentes judeus com umas poucas armas contrabandeadas, cercados por tropas e tanques alemães. Eles sabiam que perderiam e poucos sobreviveriam. Mas lutaram, por dias e semanas, até junho. Como ato de resistência, foi extraordinário.
Na primeira noite, os sobreviventes do gueto sentaram-se entre os destroços e comemoraram Pêssach. Pouquíssimas vezes a antiga história da escravidão e libertação pôde ressoar com tanto poder, dando aos que a ouviam a força para viver e morrer pela causa da liberdade. Eles sabiam que essa era a sua história.
Em poucas semanas comemoraremos o cinquentenário do Dia da Vitória. E aqueles que, como eu, nasceram após esse evento, às vezes se perguntam: por que lembrar?
Mas Pêssach nos dá a resposta. Se quisermos valorizar e proteger a liberdade, devemos nos lembrar da alternativa: o pão da aflição e as ervas amargas da escravidão. Cada nova geração deve aprender agora como se lutou pela liberdade, e como ela foi penosamente conquistada. A memória é a melhor guardiã de nossa liberdade.
Ontem, o Secretário da Educação, Charles Clarke, anunciou que, no futuro, os diretores de escolas poderão solicitar o direito de multar os pais cujos filhos repetidamente cabularem aula. A disciplina, disse ele, começa em casa. O anúncio despertará polêmica, mas fez algo importante ao levantar uma questão: Quais são as responsabilidades dos pais?
Atualmente, no Ocidente, passamos por uma experiência inédita, um mundo onde o casamento é opcional, famílias estáveis são cada vez mais raras, e quase todas as responsabilidades da paternidade podem ser delegadas: a educação para as escolas, a aplicação da lei para a polícia, e os cuidados com as crianças para as babás ou conselhos tutelares. Na América, uma criança normal passa em média quatro horas por dia assistindo televisão, e apenas 40 minutos por semana conversando com seus pais. Nas palavras de Robert Reich, a família, assim como as empresas, está sendo reduzida e terceirizada. Poucas vezes a paternidade foi cercada de tanta confusão ou tida em tão baixa estima. E isso é uma má notícia.
Uma das coisas mais belas que a Bíblia Hebraica deu ao mundo foi a ideia de que Deus não é apenas uma força, mas também um pai. Nós O chamamos de “nosso Pai”. Ou, como disse Deus por meio do profeta Isaías: “Como alguém a quem sua mãe consola, assim Eu vos consolarei.” Adorei o comentário de uma mãe de primeira viagem que disse: “Desde que me tornei mãe, consigo me identificar mais com Deus. Agora eu sei como é criar algo que você não pode controlar.” E o único versículo em toda a Bíblia que explica por que Deus escolheu Abrahão para ser o fundador de uma nova fé diz: “Porque o conheci, e sei que ordenará a seus filhos e à sua casa depois dele, a fim de que guardem o caminho do Eterno, para fazer caridade e justiça..” O que tornou Abrahão e Sara especiais aos olhos de Deus foi apenas o fato de eles compreenderem as responsabilidades da paternidade.
Sem a ajuda dos pais, mesmo a melhor escola e os melhores professores podem falhar. Mesmo a criança mais talentosa pode enfrentar dificuldades emocionais. Sei que o que eu mais amava com relação aos meus pais era que eles dedicavam a nós, seus filhos, seu tempo. Quando nos saíamos bem, nós os deixávamos orgulhosos. Não há responsabilidade mais impressionante do que trazer uma nova vida ao mundo, e, tendo feito isso, não podemos simplesmente ir embora e deixar o resto para os outros. Não é só a disciplina que começa em casa, há muito mais. É por esta razão que temos de redescobrir que a verdade é que a paternidade não é um fardo, mas, sim, o maior de todos os privilégios.
Em janeiro deste ano eu estava no Ground Zero, impressionado com a escala da destruição, comovido pelas mensagens de pessoas que perderam familiares ou amigos. Eu estava lá junto com líderes de todas as grandes religiões vindos do mundo inteiro. O arcebispo de Canterbury fez uma oração. Um imã muçulmano também proferiu uma prece. O Rabino-Chefe de Israel leu uma reflexão. Um hindu aspergiu água sagrada do Ganges. Fiquei impressionado com a dissonância entre este encontro pacífico e o terrível extremismo religioso daqueles que planejaram e realizaram o ataque. A religião, de repente me dei conta, é como fogo. Ela aquece, mas também queima, e nós somos os guardiões da chama.
Longe de morrer, a religião continua a ser um fator significativo nas zonas de conflito em todo o mundo – Irlanda do Norte, Balcãs, Oriente Médio, Caxemira – porque, enquanto o século 20 girou em torno das políticas da ideologia, o século 21 concentra-se nas políticas da identidade. Quem sou eu e a que lado pertenço? Para estas perguntas, as grandes religiões são a nossa resposta mais antiga e mais profunda. O problema é que a política da identidade é inerentemente divisionista, porque a criação de um “nós” também cria um “eles”, pessoas diferentes de nós: o impenitente, o infiel, aqueles que estão fora do círculo ao qual pertencemos. É por isso que é tão difícil a paz atravessar o abismo que existe entre os diferentes credos.
A paz é um paradoxo. Quase todas as grandes religiões a elogiam, e condenam conflito e guerra. No entanto, aqueles que mostram coragem no campo de batalha são celebrados, e os que se arriscam por ela são quase sempre assassinados – Lincoln, Gandhi, Martin Luther King, Anwar Sadat e Yitzhak Rabin. A guerra fala ao nosso senso de identidade. Há um “nós” e um “eles” e não existe possibilidade de confundir os dois. Mas a paz envolve uma profunda crise de identidade. Quando os inimigos se apertam as mãos, quem agora somos “nós” e quem são “eles”? É por isso que a busca pela paz às vezes pode parecer uma espécie de traição.
É por isso que, à medida que o século prossegue, vamos precisar não apenas de força militar, mas também de coragem espiritual para estender a mão da amizade através das fronteiras, para reconhecer a integridade dos modos de vida diferentes do nosso, para ouvir as diferentes histórias contadas por outras pessoas e para enxergar os traços de Deus na face de um estranho. Deus fez muitas religiões, mas apenas um mundo no qual devemos viver juntos. E ele está ficando cada vez menor.
Uma reportagem publicada ontem exige que o governo adote uma política de energia mais cuidadosa com o meio ambiente, por meio de mais casas aquecidas por métodos eficientes e uma maior utilização de fontes de energia renováveis, como o sol, o vento e as ondas. Devo dizer que, neste momento da manhã e da semana, eu poderia fazer bom uso de um pouco de energia renovável, mas a questão é grave e urgente.
Nós estamos esgotando nosso petróleo, carvão e gás a um ritmo prodigioso e, no processo, estamos poluindo não apenas o meio ambiente e prejudicando a atmosfera da Terra. Também estamos comprando o presente à custa do futuro. Ao contrário da energia eólica, solar e das marés, a energia dos combustíveis fósseis não vai estar lá para nossos netos ainda não nascidos.
E acho que é aqui que uma perspectiva bíblica é útil. No primeiro capítulo do Livro do Gênesis, lemos que foi dito à humanidade para povoar a Terra e preservá-la, o que significa nossa obrigação de desenvolver a ciência e a tecnologia. Mas, no capítulo 2, lemos que o homem foi colocado num jardim [o Jardim do Éden] para cultivá-lo e protegê-lo, o que nos diz que a natureza tem sua própria integridade, a qual devemos respeitar e preservar.
O versículo que sempre ressoa para mim é aquele em que Deus diz: “A Terra não será vendida em perpetuidade, pois a terra é Minha, e vocês são apenas residentes temporários.” Isso quer dizer que a Terra não é nossa. No máximo, nos foi confiada por Deus que criou a ela, a nós e as futuras gerações que a habitarão. Daí derivam todas as leis da Bíblia que se referem a isso: não cultivar a terra a cada sete ano, não misturar espécies diferentes, não destruir árvores frutíferas durante uma guerra – provavelmente a primeira legislação ambiental do mundo.
Foi preciso profetas modernos da ecologia, os ativistas verdes, para nos levar de volta à Bíblia e nos fazer ouvir o que ela sussurrava para nós há milênios. Nós somos os convidados da natureza, os guardiões da Criação, e não seus proprietários, que podem fazer com ela o que quiserem.
Há um lindo comentário rabínico, escrito há pelo menos 1.500 anos, mas que poderia ter sido uma reportagem publicada ontem. Quando, no final da Criação, Deus fez o homem, Ele lhe mostrou todas as glórias da natureza. Veja a beleza do mundo, Ele disse, e Eu a entrego a você. Mas tome cuidado para não danificá-la, pois se o fizer, não haverá ninguém para consertar o que você destruir. Não esgote o que você não pode renovar.
Em dois dias começaremos a celebrar Chanucá, a festa judaica das luzes, mais conhecida por nosso costume de acender por oito dias seguidos o candelabro que chamamos de chanukiá, como a menorá que estava no Templo de Jerusalém. A coisa interessante sobre Chanucá, porém, é a forma como o seu significado mudou ao longo do tempo.
Podemos ler o início da história nos dois Livros dos Macabeus. Eles contam como Antíoco IV, um dos governantes do império de Alexandria, proibiu a prática pública do judaísmo e erigiu estátuas pagãs no Templo. Os judeus se rebelaram e conquistaram a vitória militar mais notável da história do judaísmo antigo. Eles reconquistaram Jerusalém, reconsagraram o Templo e recuperaram sua liberdade.
No entanto, os Livros dos Macabeus nunca fizeram parte da Bíblia Hebraica, porque a vitória militar foi de curta duração. Dentro de um século, Israel estaria novamente sob domínio estrangeiro, desta vez dos romanos, e 130 anos depois o Templo seria destruído. Se essa fosse a história completa, hoje não teríamos Chanucá e talvez nem o judaísmo.
O que durou não foi a vitória militar, mas a vitória religiosa. No espaço de um século, os judeus tinham se transformado de um povo organizado em torno de reis, soldados e poder, em uma religião construída em casa, na escola e na sinagoga. As luzes de Chanucá passaram a representar as palavras do profeta Zacarias: “Não pelo poder nem pela força, mas pelo Meu espírito – diz o Eterno.”
Chanucá contém uma mensagem de esperança para o povo do Iraque. A captura de Saddam Hussein significa que a campanha militar efetivamente chegou ao fim. Isso não significa que a violência vai acabar. Tragicamente, haverá mais terror, atentados suicidas e tensões entre os diferentes grupos religiosos e étnicos que compõem a população do Iraque.
Mas a questão agora será: pode o Iraque começar a longa jornada para uma sociedade livre, civil e democrática? Essa pergunta não pode ser respondida por forças externas, os Estados Unidos ou a Organização das Nações Unidas. Ela só pode ser respondida pelos próprios iraquianos.
O que Chanucá nos diz é que as vitórias militares são de curta duração. O que importa no longo prazo são os hábitos do coração. Podemos respeitar as liberdades de outros tanto quanto respeitamos a nossa? Podemos buscar a paz, e não apenas o poder? Isso depende do que ensinarmos à próxima geração em nossas casas, escolas e casas de oração.
Assim, nesta festa de Chanucá, vou fazer uma prece para as pessoas corajosas e sofridas do Iraque. Que elas também possam ver as últimas labaredas da guerra acenderem uma duradoura chama de paz.
Na véspera do Ano Novo judaico, eu, como muitos de nós, ainda estou em estado de choque. Enquanto eu viver, nunca vou esquecer aquelas imagens na televisão de um pesadelo se tornando realidade, incluindo a vista aérea da noite passada revelando toda a extensão da devastação. Vimos o pior lado da humanidade: um ato brutal de pura maldade. Mas também vimos o melhor, em incontáveis ​​atos de apoio e solidariedade humana. E hoje veremos o enorme poder da resiliência humana, à medida que as pessoas atendem ao pedido do presidente Bush para voltar ao trabalho e se reconectar com a vida normal novamente.
E é por isso que atos de terror, apesar de terem grande repercussão quando acontecem, no final sempre fracassam. Aqueles que os cometem acreditam que podem criar pânico e medo. Mas depois do choque inicial, seres humanos livres não reagem com pânico e medo. A resposta deles é tentar ajudar, para salvar, para consolar, para curar.
Será que algum dia esqueceremos dos passageiros do quarto avião, que lutaram contra os sequestradores, ao custo das suas próprias vidas, para salvar a vida de pessoas em terra? Será que algum dia esqueceremos aquelas últimas mensagens telefônicas de amor, de pessoas que sabiam que estavam prestes a morrer? Ou a onda de emoção compartilhada pelas pessoas que ouviram a notícia e imediatamente uniram-se aos feridos e enlutados em sofrimento e oração? Ou as lágrimas derramadas nos primeiros funerais, durante o fim de semana, enquanto bombeiros lamentavam os colegas que tinham dado suas vidas para resgatar outras pessoas?
Se alguma vez buscamos uma prova do poder do espírito humano, ela estava no vínculo de solidariedade e compaixão que, de Nova York à Nova Zelândia, transformou estranhos em amigos e transeuntes em membros da família. É como se o mundo tivesse colocado seus braços ao redor da América e a consolado na hora da dor. E nesse momento, uma nova esperança nasceu: que juntos podemos derrotar as forças da morte e encontrar uma maneira, por mais dolorosa e difícil que seja, para uma nova afirmação e defesa da vida.
E quando na quarta-feira passada, eu estava junto com líderes muçulmanos e cristãos, expressando nossa tristeza e nosso compromisso comum com a paz, eu sabia exatamente disto: que o amor é mais forte do que o ódio, a liberdade mais poderosa do que os seus inimigos, e que o espírito humano é resistente demais para ser intimidado por muito tempo. E assim eu rezo, em palavras adaptadas da liturgia do Ano Novo: “Ó Deus da vida, cuja dádiva é a vida, esteja conosco agora e no próximo ano, dando-nos a coragem de afirmar e valorizar a vida.”
E lá vamos nós de novo participar do esporte favorito da nação: “De quem é a culpa?” Desta vez o assunto é lei e ordem, na esteira do trágico assassinato do jovem nigeriano Demilola, dos ecos incessantes do relatório Macpherson e das várias acusações e contra-acusações lançadas nos últimos dias.
Alguns culpam a mídia, outros culpam a sociedade. Para alguns, é tudo culpa de uma elite liberal, para outros é do fracasso de uma contraelite autoritária. E é claro, todo mundo culpa a polícia – por ser dura demais ou não ser dura o suficiente, politicamente correta ou incorreta demais.
Tudo isso me lembra o professor de Bíblia que passou um ano tentando ensinar o Livro de Josué a uma classe bagunceira. No final, quando ele fez a mais simples das perguntas: “Digam-me, quem destruiu as muralhas de Jericó?”, do fundo da sala, o pequeno Marvin levantou a mão e disse: “Não fui eu, professor.” Esta é a essência do jogo da culpa: o que está acontecendo de errado é culpa de outra pessoa. Não fui eu.
Na verdade, a Bíblia tem um comentário profundo sobre isso, porque o jogo da culpa é dos mais antigos da história da humanidade. Ele começa com o primeiro homem e mulher juntos no paraíso. A primeira coisa que Deus lhes diz é para não comer certa fruta, mas é claro que a primeira coisa que eles fazem é comê-la. E quando Deus pergunta: “O que está acontecendo?”, o homem culpa a mulher, a mulher culpa a serpente, e o resultado é que todos são expulsos do Éden. “Por favor, senhor, não fui eu” é o caminho mais rápido para o Paraíso Perdido.
O fascinante é que, no versículo seguinte, Adão se vira para sua mulher e dá-lhe um novo nome: Eva, “porque ela é a mãe de toda a vida”. E aqui vai a minha interpretação deste versículo. No primeiro, Adão estava angustiado, pois pensava que tinha acabado de perder a imortalidade. Não viveria mais para sempre. Mas então ele percebeu: não, não é assim. Eu posso viver, não em mim, mas através de meus filhos. Mas ter filhos não é algo que eu possa fazer sozinho, mas, sim, em parceria com minha esposa. Ele parou de culpá-la e viu que eles poderiam criar algo duradouro, mas somente juntos.
E essa é a única maneira de combater e derrotar o crime: juntos, como famílias e comunidades, sem culpar a polícia, mas ajudando-a, porque nem eles nem nós podemos fazê-lo sozinhos.

Mais uma vez, agora em Gothenburg, um encontro internacional tornou-se cena de protesto e violência: três atingidos por tiros, 70 feridos, 500 presos. É fácil assumir que essas manifestações sejam obra de anarquistas, mas elas não são apenas isso. As questões levantadas nos preocupam a todos: o meio ambiente, as armas nucleares, as corporações internacionais e o comércio mundial. E o que elas têm em comum é que expõem dois pontos fracos no cerne do nosso cenário político.
Em primeiro lugar, são questões globais, o que significa que dependem da cooperação para muito além das fronteiras de cada país. Durante dois séculos, a força política dominante era o estado. Mas, atualmente, o estado tornou-se grande demais para os pequenos problemas, e pequeno demais para os grandes. A questão é que quando se cria órgãos decisores internacionais, a política é levada a um ponto além daquele em que nossos votos fazem diferença, e é por esta razão que cada vez menos pessoas votam nas eleições.
O outro problema é que muitas das questões que nos afetam são de longo prazo. Elas dizem respeito à escolha do caminho a ser seguido, e os resultados dessas escolhas podem não ficar claros por uma década, ou mesmo um século. No entanto, a capacidade de atenção dos políticos raramente se estende para além da eleição seguinte. Como fazer com que uma empresa de curto prazo pense e aja a longo prazo?
O resultado é que o mundo parece um carro em alta velocidade, que ninguém tem certeza para onde vai e com mãos demais na direção, sendo que nenhuma delas nos pertence.
A última coisa que eu sugeriria seria entregar essas decisões aos líderes religiosos, mas as grandes religiões certamente têm algo a nos ensinar sobre nossa situação atual. Primeiro, porque elas são instituições de longo prazo. Não há nada mais longo do que a extensa jornada bíblica para a redenção. Segundo, são internacionais. A globalização pode ser uma palavra nova em termos seculares, mas há pelo menos 2.000 anos os judeus se dispersaram por todo o mundo e, ainda assim, eles sempre se viram como um único povo, dotado de um forte sentimento de responsabilidade coletiva. Terceiro, elas ficam próximas das pessoas, estão envolvidas nas comunidades locais onde cada indivíduo faz diferença. 
E quarto, elas levantam as grandes questões: que tipo de mundo nós buscamos criar? E que tipo de mundo é este onde poucos vivem na abundância e muitos morrem na pobreza?
A verdadeira política global vai começar, não com o choque de interesses nacionais, mas com uma verdade maior e mais abrangente: a de que somos uma só família sob a paternidade de Deus, guardiões de seu mundo para o bem das gerações que ainda não nasceram.
Houve bastante polêmica em torno da sugestão de ontem da Comissão da Câmara dos Comuns, de que deveria existir uma lei de proteção aos indivíduos contra as mídias exageradamente invasivas. Há, ou deveria haver, o direito à privacidade?
É uma área que pode dar origem a situações estranhas. Um amigo meu, americano, se envolveu num caso assim há alguns anos. Ele era professor de teologia e tinha dado uma palestra extremamente intelectualizada. Parte dessa palestra foi exibida, sem seu consentimento, em um filme de gângsteres de Hollywood de uma forma que o fez parecer um tanto ridículo. Bem, ele processou a empresa cinematográfica e, ao que parece, pela lei americana, se você é uma figura pública, pode ser considerado alvo legítimo de qualquer tipo de ataque. O resultado foi que os advogados do lado oponente alegaram que ele era praticamente uma celebridade, enquanto seus próprios advogados tiveram de provar que ninguém nunca tinha ouvido falar dele. Há momentos em que é impossível saber se é melhor ganhar ou perder.
E é isso que torna muitos casos de invasão de privacidade tão paradoxais. O que devemos pensar de alguém que passa a maior parte da vida em busca de publicidade e depois reclama quando a consegue, mas não em seus próprios termos? E como devemos equilibrar a preocupação com a privacidade e a necessidade de uma imprensa livre, da qual depende uma sociedade livre? 
A Bíblia Hebraica é bastante clara. Sim, existe no judaísmo o dever de respeitar a privacidade – os rabinos afirmaram que é preferível atirar-se em uma fornalha ardente do que envergonhar outra pessoa em público. Mas a Bíblia não nos poupa de alguns vislumbres muito íntimos da vida privada de seus heróis. A história do Rei David e Betsabá, por exemplo, é contada com uma franqueza implacável, e David não tenta se defender, alegando que sua vida particular era da sua própria conta.
O que torna a Bíblia tão poderosa é que nela ninguém está acima da crítica, e o papel da imprensa agora, como era o dos profetas naquela época, é expor as corrupções do poder. A verdadeira diferença reside no que é de interesse público e a lascívia, aquilo que realmente precisamos saber e o que apenas temos um desejo voyeurístico de ver. As falhas de um político são uma coisa, uma estrela se bronzeando é outra. Não deve ser impossível elaborar um código de conduta que seja justo, proteja ricos e pobres e que trace a delicada mas necessária linha entre o nosso direito particular de sermos deixados em paz e nosso direito coletivo de nos mantermos informados.
Você está numa loja e a pessoa no caixa lhe dá dez libras a mais de troco. Você agradece à sua estrela da sorte ou devolve o dinheiro? Há um emprego que você quer, mas não tem todas as qualificações necessárias. Você arrisca usar de certa ficção criativa na sua ficha ou diz a verdade, aconteça o que acontecer? Você está precisando de dinheiro e pode conseguir algum extra ao lançar despesas a mais na conta da empresa. Não faria muita diferença para eles, mas faria uma grande diferença para você. O que você faz? A maioria de nós enfrenta decisões como estas e a escolha entre fazer o que é certo ou optar por aquilo com que conseguimos nos safar é importante para nós como indivíduos, e coletivamente como sociedade.
É por isso que, dentro de dois dias, o Secretário da Educação, David Blunkett, e eu lançaremos um novo item nos currículos escolares chamado “Dinheiro e Moralidade”. É sobre a ética dentro do ambiente de trabalho e de comércio, e foi elaborado por uma das organizações das quais tenho muito orgulho de fazer parte: a Associação Judaica de Ética nos Negócios (JABE). Nós a fundamos há quase dez anos, na crença de que os negócios são uma iniciativa moral. Pode parecer estranho se você acredita que as empresas existem simplesmente para ganhar dinheiro, que negócios são um jogo no qual o vencedor leva tudo e a ética é para os fracos. Mas isso não é o que eu aprendi com os homens de negócios mais bem sucedidos que conheci. Sim, dizem eles, você consegue lucro rápido sendo inescrupuloso, mas ele nunca dura, e no final você sempre sai perdendo. O sucesso real depende da honestidade com os clientes, da decência com os funcionários, da qualidade do que você vende e da integridade da forma com que vende. Ou, como um dos mais importantes jornalistas financeiros do país me disse: “Está tudo na Bíblia: pesos certos, medidas justas e decência com as pessoas que trabalham com você. E, acima de tudo, a integridade, ou aquilo que a Bíblia chama de justiça.”
Então, depois de ter levado o debate ético para as nossas mais importantes reuniões de diretoria, agora o levaremos para as escolas. É um projeto criativo, não é enfadonho nem preconceituoso. Ele é baseado em estudos de casos reunidos por homens de negócios e jornalistas financeiros, que refletem o mundo real. E uma pesquisa com 34.000 adolescentes da Inglaterra e País de Gales nos diz que a educação faz a diferença. As crianças expostas a fortes diretrizes éticas agem com mais honestidade e responsabilidade. Pelo menos uma vez os profetas bíblicos e os lucros das empresas estão em total acordo: a moralidade funciona, e é por isso que, para funcionar, o trabalho precisa de um senso moral.

Adeus 2003. Você deu o melhor de si, mas com exceção do rugby, não foi das melhores safras. Foi o ano da guerra no Iraque e do terremoto no Irã; o ano em que tanto Vladimir Putin quanto  George Bush fizeram visitas oficiais à Grã-Bretanha, lembrando-nos de quanto o cenário político mudou, mas também da violência no Zimbabue e do terror em Istambul, lembrando-nos do quanto ele permaneceu o mesmo. Maio viu o caminho para a paz no Oriente Médio, mas também a publicação de um mapa de Londres impresso de cabeça para baixo, com o Sul na parte superior, presumivelmente para beneficiar as pessoas que veem o mundo de cabeça para baixo.
E sabe de uma coisa? Talvez todos nós o vejamos assim. Tem uma pequena experiência que eu às vezes faço quando dou uma palestra sobre a felicidade. Eu mostro uma folha de papel em branco com um ponto preto no meio e pergunto às pessoas o que elas veem. Elas dizem: um ponto preto. Então eu saliento que o ponto é menos que um por cento da página. O que elas não notam são os 99 por cento do papel que está branco e limpo.
É por isso que as más notícias são manchete, enquanto as boas raramente são. Somos geneticamente condicionados a perceber as coisas que são estranhas, discrepantes, que estão fora do lugar. 
O fato de notarmos o mal nos diz que estamos rodeados pelo bem. É que nós não percebemos isso, do mesmo jeito que não percebemos o papel branco em torno do ponto preto. Se uma boa notícia se tornasse manchete, então teríamos razão para nos preocupar.
Assim, este ano, por que não tentar ver o mundo do jeito certo? Vá a algum lugar sem o celular. Observe crianças em um parque chutando folhas caídas, lembre-se de como o mundo era quando você tinha essa idade e saiba que ele não mudou; por que então você deveria? Quando estiver preso no trânsito, sorria. Isso vai animar você, enfurecer todas as outras pessoas e lembrá-lo que o humor é sempre mais humano do que a raiva. Da próxima vez que se sentir bombardeado por anúncios do que você ainda não tem, lembre-se do que você tem: o milagre absoluto que é estarmos aqui, o mundo que nos rodeia e que temos o privilégio de ver.
Respire e deixe-se levar pela inércia do mundo girando ao seu redor. Lembre-se que um dos mais significativos atos da Criação de Deus foi ver o mundo, e que ele é bom. Ou como W. H. Auden disse em uma de suas adoráveis frases: “Na prisão de seus dias, ensine o homem livre a louvar.”
Vou sentir saudade de Spike Milligan, aquele comediante doido, anárquico e adorável que morreu há dois dias. Ele foi o criador do The Goon Show, e quem de nós que foi criança na década de 50 não esperava para ouvi-lo toda semana, com suas tramas surreais e personagens loucos: Harry Secombe como Neddy Seagoon, Peter Sellers como Bloodnok Major, o próprio Spike como Eccles e Count Moriarty. Naquela época, a maioria de nós, dos meus colegas de escola até o Príncipe de Gales, passava grande parte do tempo fazendo imitações torturantes do Goon, e é só o meu respeito pela BBC que me impede de fazer uma agora. Não tenho nenhuma dúvida de que neste momento, lá no céu, ele está entretendo os anjos. E, aqui na Terra, continuou fazendo piadas até o fim. Ele pediu que em sua lápide fossem gravadas as seguintes palavras: ‘Aqui jaz Spike Milligan. Eu disse que estava doente.”
Eu não sabia, até ler seu obituário ontem, que ele sofria de psicose maníaco-depressiva e que teve pelo menos dez surtos graves. Mas eu poderia ter imaginado. Há um tipo de humor que só pode vir de uma dor profunda, e o fato de ele ter passado dos 80 anos de idade indica que talvez esse humor tenha feito mais do que nos provocar o riso. Ele o manteve vivo.
Foi o sociólogo americano Peter Berger que disse que o humor é um sinal de transcendência, e chegou a escrever um livro sobre seu significado religioso. Ele o chamou de Redeeming Laughter 
(Riso redentor). O que eu acho que ele quis dizer foi que o humor é um dos grandes sinais do poder do espírito humano para superar a tragédia e derrotar o desespero. Se podemos rir de uma coisa, podemos sobreviver a ela. O humor é parente próximo da esperança.
Portanto, não é de surpreender que os grupos que mais sofreram, muito frequentemente contam as melhores piadas. Eu adorava o comediante judeu Jackie Mason, que começava sua apresentação dizendo: “Eu posso começar devagar, mas pouco a pouco eu morro de uma vez.” Ou a famosa frase de Woody Alien: “Eu não tenho medo de morrer. Só não quero estar lá quando isso acontecer.”
O Talmud conta a história de como o profeta Elias veio à Terra um dia e mostrou a um rabino duas pessoas destinadas a uma recompensa especial no mundo vindouro. O rabino foi até eles e perguntou-lhes o que eles faziam. “Somos bobos da corte”, disseram. “Quando vemos alguém triste, nós o alegramos. Transformamos lágrimas em sorrisos.” Foi isso que você fez por nós, Spike. E que você possa compartilhar dessa recompensa.
Esta noite começa a festa judaica de Sucót, também conhecida como Tabernáculos. É uma comemoração simples. Pegamos um ramo de palmeira, uma cidra, algumas folhas de murta e salgueiro para nos lembrar dos poderes de sobrevivência da natureza durante os dias escuros do inverno que está por vir. Sentamo-nos numa sucá, o tabernáculo em si, que é apenas uma cabana, uma choupana a céu aberto, só com uma cobertura de folhas servindo de telhado. É a nossa recordação anual de como a vida é vulnerável, como ela está exposta às intempéries. Ainda assim chamamos Sucót de nossa Festa da Alegria, pois ali, sentados no frio e ao vento, nos lembramos de que acima de nós e ao nosso redor estão os braços protetores da Presença Divina. Se eu tivesse de resumir a mensagem de Sucót, diria que é uma lição de como viver com a insegurança e, ainda assim, celebrar a vida.
E viver com a insegurança é o que fazemos no momento. Nestes dias incertos as pessoas tem cancelado voos, adiado férias, decidido não frequentar cinemas e lugares públicos. Os danos físicos de 11 de Setembro podem ter acabado, mas os danos emocionais vão se prolongar por meses, talvez anos. Ontem, um colunista de jornal escreveu que, ao olhar para trás, os historiadores do futuro chamarão esses dias de “Era da Ansiedade”. Como conviver com o medo criado pelo terrorismo?
Para a nossa família, ele trouxe de volta memórias de uns dez anos atrás. Nós tínhamos ido morar em Israel por algum tempo, antes de eu me tornar Rabino-Chefe, para absorver inspiração na Terra Santa e encontrar a paz. Ao invés disso, nos encontramos no meio da Guerra do Golfo. Trinta e nove vezes tivemos de pôr nossas máscaras de gás e nos abrigar em um quarto fechado, enquanto mísseis Scud choviam sobre a cidade. E quando soavam as sirenes, nunca sabíamos se o próximo míssil conteria armas químicas ou biológicas, ou se ele nos atingiria. Era para ser um momento aterrorizante, e foi. Mas a minha bondade me ensinou uma coisa. Eu nunca soube antes o quanto eu amava a minha esposa e os nossos filhos. Eu parei de viver para o futuro e comecei a agradecer a Deus por cada dia.
E foi aí que aprendi o significado da festa dos Tabernáculos e sua mensagem para o nosso tempo. A vida pode ser cheia de riscos e, ainda assim, ser uma bênção. Ter fé não significa viver com segurança. A fé é a coragem de conviver com a incerteza, sabendo que Deus está conosco na difícil mas necessária jornada para um mundo que honra a vida e valoriza a paz.
Nessa época do ano quase dá para sentir a aproximação do dia mais sagrado do judaísmo, o Iom Kipúr, Dia do Perdão, que começa na noite do próximo domingo. É um dia que passamos em jejum e oração, no qual derramamos nosso coração a Deus, pedimos desculpas pelo mal que fizemos e suplicamos que nos conceda a chance da reparação. Uma ocasião solene, embora possa haver alguns momentos involuntariamente divertidos.
Lembro-me de um ano em que uma sinagoga estava tão cheia, que tiveram de acomodar as pessoas a mais em um cinema local. Quando o dia terminou e a congregação estava saindo, eles olharam para trás para ver o que estava em exibição naquela semana. Era um filme chamado “Os Imperdoáveis”. Espero que eles tenham tido mais sorte no ano seguinte.
Mas o perdão é importante demais para ser confinado a locais de adoração. É a palavra mais importante na resolução de conflitos. O que significa isso? Não é um substituto para a justiça. Pedir desculpas por si só não corrige um erro. Também não significa esquecer, porque nós nunca devemos esquecer o passado se queremos evitar repetir os mesmos erros no futuro. Perdoar significa riscar o passado, dizer adeus aos ressentimentos e começar de novo. É um dos dons mais abençoados que a Bíblia Hebraica já concedeu à humanidade.
Pense em quantos relacionamentos fracassam porque uma das partes não sabe como pedir desculpas ou aceitar um pedido assim. E o que se aplica aos indivíduos aplica-se também às nações e às religiões. Existe um notável grupo de pessoas que têm trabalhado juntas no Oriente Médio nos últimos oito anos: israelenses e palestinos que perderam seus filhos no conflito atual. Se alguém tem direito à amargura, eles têm. Ainda assim, a dor os uniu em vez de separá-los. Não porque eles considerem a paz uma saída fácil, mas porque, depois de pagar um preço tão alto, eles não querem que outros tenham de passar pela mesma coisa. E assim eles vão às escolas falar sobre a necessidade de reconciliação. Isso exige muita coragem, mas nesses dias sombrios eles acenderam uma chama ardente de esperança.
Era uma vez um homem perdido numa floresta, que, de repente, ouviu o som de alguém se aproximando. O estranho chegou perto dele e disse: “Amigo, não posso lhe dar instruções, pois eu também estou perdido. Mas não vá pelo caminho de onde eu vim, pois ele não leva a lugar nenhum. Agora – disse ele –, vamos procurar um novo caminho juntos.” 
Perdão significa procurar um novo caminho em conjunto, e às vezes ele é o único caminho.

Se você deu uma olhada em seu calendário recentemente, provavelmente já se lembrou de que amanhã é Leap Year Day (Dia de Ano Bissexto),* dia em que, de acordo com um velho costume britânico, as mulheres têm a chance de pedir os homens em casamento. Ao que parece, tudo começou em 1288, com a duvidosamente feminista Rainha Margaret da Escócia. Foi ela quem determinou que um dia a cada quatro anos, em 29 de fevereiro, as mulheres pudessem pedir a mão de qualquer homem em casamento e, a não ser que já fosse casado ou noivo, ele era obrigado a aceitar ou pagar uma multa pesada. E talvez valha a pena reviver este costume, dado o atual declínio no número de casamentos e da relutância que os homens parecem ter hoje em dia em assumir o que se tornou conhecido como a palavra C: compromisso.
Digo isso por causa de uma experiência bem estranha que tive outro dia, quando ajudei a lançar a Semana Nacional do Casamento. Lá estava eu, exaltando as virtudes do casamento, quando um entrevistador me perguntou: “Isso não é muito politicamente incorreto? Quem realmente ainda acredita no casamento?” Ao que tive de responder: “Eu acredito, porque nesta nossa sociedade em que tudo se compra, se usa e joga fora, existe algo mais duradouro ou mais gracioso do que o compromisso de compartilhar sua vida com a pessoa que você ama e, através desse compromisso, trazer uma nova vida ao mundo?”
O casamento, santificado pelo vínculo da fidelidade, é o mais próximo que a vida chega de uma obra de arte. É o que eu chamo de poesia do cotidiano. E embora os costumes morais de hoje, assim como as notícias de ontem, um dia vão virar pó, de uma coisa eu tenho certeza: o casamento ainda estará lá como o maior resgate da nossa solidão, o ponto onde alma encontra alma e sabemos que não estamos sozinhos.
E ontem, quando eu estava sob um dossel nupcial oficiando o casamento de um casal que conhecemos, senti novamente a beleza absoluta da encantadora cerimônia judaica que, apesar de ter 2.000 anos de idade, continua atual. Então pensei que talvez seja por isso que o judaísmo sobreviveu: porque sempre valorizamos o casamento, a família e o lar.
Sim, às vezes ele não dá certo. Sei também que relacionamentos fracassam. Mesmo assim, há com certeza poucos riscos que valham mais a pena, porque quando há paz entre marido e mulher, é possível superar todas as dificuldades que a vida impuser, sabendo que estarão lá um para o outro, tanto nos tempos ruins, como nos bons. E tudo começa com a palavra C, compromisso, o melhor investimento que qualquer um de nós pode fazer no nosso futuro. Assim, para todos vocês que já pensaram em fazer o pedido, mas acabaram deixando para depois, lembrem-se que amanhã é um grande dia para fazê-lo, e espero que a resposta seja sim.
Hoje à noite começa a festa judaica de Sucót, ou Tabernáculos. Por oito dias, deixamos o conforto de nossos lares e vivemos em cabanas ou tendas, com apenas uma cobertura de folhas como telhado. É a nossa maneira de lembrar os 40 anos nos quais os israelitas vagaram pelo deserto nos dias de Moisés, sem casas ou lares, vulneráveis ​​às intempéries e sempre prontos a seguir em frente. É uma festa antiga, mas ainda penso nela como uma comemoração adequada ao nosso tempo.
O século 21 é e continuará a ser a Era da Insegurança. Raras vezes na história o amanhã foi tão incerto. O fim da Guerra Fria não trouxe a paz, mas, sim, uma série de conflitos locais incontroláveis. Nossa sensação de segurança na vida cotidiana foi abalada pelo 11 de Setembro, legando-nos uma campanha contra o terror na qual nem sempre temos certeza de quem são ou de onde vêm nossos inimigos. E não sabemos quando nem se ela foi ou será bem-sucedida. Enquanto isso, nosso mundo muda mais rápido do que podemos suportar. Enquanto cada geração anterior à nossa teve recursos aos quais recorrer em tempos de mudança – um emprego para a vida toda, um casamento para vida toda e um lar para a vida toda –, estas coisas também se tornaram difíceis de encontrar. Como se vive com a insegurança?
Isso é uma coisa que os judeus sempre souberam melhor do que a maioria dos outros povos. Por quase 2.000 anos – exilados, dispersos e espalhados por todo o mundo –, eles raramente sabiam se no ano seguinte ainda estariam ali ou se seriam forçados a ir para outro lugar. À medida que revejo a história de meus próprios antepassados, penso em suas jornadas de país em país, levados pelos ventos incertos do preconceito e da perseguição. Para eles, a insegurança era um modo de vida. E seu símbolo era a sucá, a habitação temporária de telhado de folhas, exposto à chuva, ao vento e ao frio.
E o que eu acho tão emocionante que quase não há palavras para descrever, é que eles chamaram esta festa da insegurança de zeman simchatênu, “nosso tempo de alegria”. O que eles queriam dizer é que podemos enfrentar qualquer coisa, contanto que saibamos que não estamos sós. “Não temerei mal algum, pois Tu estás comigo.” Protegidos por nada mais além da sensação da Presença Divina, nossos antepassados ​​viveram tempos difíceis e seu senso de humor manteve-se intacto, seu apetite pela vida nunca diminuiu. E esta, eu acho, é a mensagem de Sucót para o nosso tempo. Fé não é certeza. É a coragem de viver e até comemorar no coração da incerteza, sabendo que Deus está conosco, dando-nos a força para enfrentar qualquer desafio que a desconhecida terra do amanhã possa trazer.
E o conflito armado continua. Assistimos na televisão as primeiras imagens dos mísseis iluminando o sombrio céu do Iraque. E hoje de manhã já recebemos notícias de vítimas, os soldados britânicos e americanos que morreram quando um helicóptero caiu ao retornar de uma missão. Nesses momentos é quase um instinto natural não só assistir e ouvir, mas também querer rezar por aqueles que servem nas forças armadas e suas famílias. E também pelo povo do Iraque, para que eles possam encontrar liberdade e segurança para construir um futuro melhor.
Eu oro por todos os povos da região, para que este momento seja um prelúdio de uma nova era de paz, e não o primeiro trovão de uma tempestade cada vez maior. Eu oro por nós, da Grã-Bretanha, para que nos próximos dias e semanas a verdadeira amizade que existe entre nossas diferentes religiões não seja abalada, mas, sim, reforçada.
Acima de tudo, oro pelas crianças do mundo, para que este se torne um momento de mudança na história dos conflitos, quando nos encontramos face a face com o conhecimento do poder absoluto que agora temos em nossas mãos. Querido Deus, ensina-nos a usá-lo para dignificar a vida, e não destrui-la numa escala sem precedentes.
Mas será que a oração faz alguma diferença? Eu acho que faz. Pode parecer uma coisa absurdamente frágil quando comparada às bombas “corta margaridas”,* aos mísseis teleguiados a laser e a toda a complexa tecnologia bélica moderna. E ainda me pergunto às vezes se, de fato, ela não é a coisa mais poderosa que existe.
O poder cresce no cano de uma arma, enquanto a paz nasce no coração humano. O que faz toda a diferença é se acreditamos que o universo é cego, um lugar onde rege o poder e só o mais forte sobrevive, ou se somos capazes de abrir nossos corações e ouvir a voz do Criador dizendo: “Vocês são todos Meus filhos, e até mesmo seus inimigos carregam o traço da Minha Presença, a marca da Minha imagem.”
Todos os armamentos do mundo juntos não possuem a capacidade de escolher entre alternativas de futuro. Isso recai sobre nós e nossa fé – expressa na oração – de que o universo não é surdo ao nosso grito, que alguém está conosco em nossos esforços desajeitados para tornar o mundo um pouco menos brutal, um pouco mais humano.
É por isso que, nos próximos dias, nossas orações vão fazer a diferença, dando coragem para alguns, consolando outros e, acima de tudo, dando àqueles que vivem com medo o poder sustentador da esperança. O mundo que construímos amanhã nasce nas orações que pronunciamos hoje.
Hoje em dia passo bastante tempo visitando casas de repouso para idosos e, para minha surpresa, elas se tornaram um dos meus lugares favoritos. Os residentes, normalmente na casa dos 90 anos de idade, parecem ter uma inalterada vontade de viver. Eles brincam, discutem, reclamam da comida e, em geral, são tão briguentos, que não parecem ter a idade que têm. Com frequência me pego desejando ser tão jovem quanto eles. 
Lembro-me de ter conhecido uma senhora de 105 anos em Manchester. Ela estava numa cadeira de rodas e me disse: “Não quero que o senhor pense, Rabino-Chefe, que eu ando sempre de cadeira de rodas. É que ontem à noite foi meu aniversário de 105 anos e nós exageramos um pouco.”
Esta semana me chamou bastante a atenção o debate sobre o futuro do Serviço Nacional de Saúde e cuidados com pessoas idosas, especialmente com relação aos enfermeiros, que se sentem desvalorizados. Não consigo pensar em qualquer outro grupo de pessoas que mereça ser mais valorizado. Após cada visita a um hospital ou lar para idosos, eu saio impressionado com a bondade e paciência dispensadas pelos funcionários no dia a dia. E nunca vou esquecer como meu falecido pai, durante as muitas operações a que foi submetido quando tinha seus 80 anos, costumava me dizer: “Eu ainda não estou no céu, mas esses enfermeiros são uns anjos.”
O Levítico nos diz: “Diante de pessoas idosas te levantarás e honrarás a presença dos sábios.” E um dos versículos mais comoventes do livro dos Salmos é o apelo que diz: “Não nos deixe desamparados no tempo da velhice; não nos abandone quando fraquejarem nossas forças.” Eu tremo só de pensar naqueles que encaram os idosos como um fardo. Isso jamais deveria acontecer. As sociedades são julgadas pela forma como tratam os mais vulneráveis, e estes incluem os mais idosos.
Muitos anos atrás, eu ouvi Alastair Cooke contar uma história em uma de suas Cartas da América. Ele dizia que antropólogos encontraram uma tribo remota cujos membros com frequência chegavam a idades bem avançadas. Uma equipe de pesquisadores foi despachada para descobrir a razão dessa longevidade. Era por causa da dieta deles? Do estilo de vida? Do clima? Acabou não sendo nenhum destes fatores. O que os pesquisadores descobriram foi que este grupo considerava uma grande honra ser idoso. Quando valorizamos a longevidade, ajudamos a criá-la. É por isso que devemos sempre dedicar cuidados aos idosos, sem buscar nada em troca. Isso poderá ou não adicionar anos às vidas deles, mas certamente acrescentará vida aos anos de vocês.
Uma história que causou bastante discussão nos Estados Unidos esta semana foi a revelação de que Colin Powell decidiu não concorrer à eleição para a presidência porque sua esposa ameaçou deixá-lo se ele o fizesse. Ela disse: “Se você concorrer, eu vou embora.” Isso foi em 1995, quando as pesquisas apontavam que ele teria ganhado a nomeação republicana e derrotado Bill Clinton na corrida presidencial. Na época, tudo o que ele declarou em público foi que tinha decidido não concorrer porque não tinha a paixão e o comprometimento necessários. Quando ele disse essas palavras, sua esposa Alma irradiou felicidade. Agora sabemos que ele fez isso por ela.
Que escolha a fazer! Vida pública ou vida particular? É uma daquelas decisões pessoais definitivas, para as quais não há regras. Pessoas de vida pública estão sob o escrutínio implacável da mídia. Elas têm de estar preparadas para críticas, tanto justas quanto injustas. Em alguns casos, há também perigos físicos. A sra. Powell acreditava que sendo o primeiro negro a ser eleito presidente, seu marido estaria correndo risco de assassinato. E é claro que não são só aqueles que estão no centro das atenções que têm de pagar o preço. Às vezes é mais difícil para suas famílias do que para eles mesmos. Então, eu admiro maridos e esposas que fazem sacrifícios pelas carreiras de seus cônjuges. Mas tenho o mesmo respeito por aqueles que fazem sacrifícios em suas carreiras por suas mulheres ou maridos.
E há um detalhe no judaísmo que quase poderia servir como comentário para a decisão de Colin Powell. Daqui a uma semana celebraremos Chanucá, a festa judaica das luzes. Chanucá comemora uma das maiores vitórias da história judaica quando, há mais de 2.000 anos, um pequeno grupo de judeus derrotou o exército sírio do império alexandrino e reconquistou sua liberdade religiosa. Em lembrança àquele tempo, acendemos velas durante oito dias.
Mas o que fazer, perguntaram os rabinos, se na sexta-feira à tarde você tiver apenas uma vela? Você a acende por Chanucá ou pelo Shabat, que também começa com o acendimento de velas? A resposta deles foi simples. Você a usa como uma luz de Shabat, não de Chanucá. A razão dada foi que a vela do Shabat simboliza shalom bait, a paz no lar. E a paz no lar – entre marido e mulher, pais e filhos – tem precedência até mesmo sobre a maior das vitórias de guerra.
Então eu saúdo Colin Powell, que valorizou seu casamento mais do que sua ambição; sua esposa mais do que sua carreira, lembrando-nos de que a luz particular da família queima com tanto brilho quanto a luz pública da fama.
Ao nos aproximarmos do Dia do Perdão, o dia mais sagrado do calendário judaico, os eventos nos Estados Unidos e no Afeganistão ainda ocupam nossas mentes. Passamos por todos os estágios do luto: primeiro o choque, então a descrença, daí a raiva e agora uma tristeza profunda pelos milhares que morreram e pelo senso de segurança que morreu também. E isso vai exigir não só uma resposta diplomática e militar, mas também uma resposta religiosa.
Já vimos o poder da religião para exprimir sofrimento, consolar e dar esperança. Houve relatos de que ontem, na Grã-Bretanha e na América, sinagogas, igrejas e outros locais de adoração têm ficado mais cheios do que de costume à medida que as pessoas procuram a companhia de outras, e as orações por meio das quais possam se expressar.
Mas vimos também a outra face da fé, na ira dos que cometeram esses atos terríveis, aparentemente em nome de Deus. Isso não tem nada a ver com o islã, uma religião antiga e honrada. Tem tudo a ver com certa mentalidade, para a qual qualquer fé é vulnerável  e que visa simplificar as complexidades da vida. O fundamentalismo religioso é a tentativa de impor uma verdade única a um mundo plural. E isso pode ser mortal.
Como crente religioso que sou, tenho de encarar o fato de que a religião não é sempre uma coisa boa. Normalmente ela se comunica com o melhor em nós, mas pode às vezes falar com o pior. Religião é como fogo. Aquece mas também queima. E nós somos os guardiões da chama.
As grandes religiões enfrentam hoje seu mais profundo desafio desde as guerras religiosas dos séculos 16 e 17. Poderá a visão profética de paz provar ser mais forte do que o apelo à guerra santa? Uma coisa é certa: se a religião não é parte de uma solução, ela certamente será parte do problema.
Ontem, durante visita ao Cazaquistão, o Papa falou da lógica do amor que poderia resolver o conflito entre as grandes religiões. E há outra, tirada do Dia do Perdão: a lógica de perdoar. Deus, disseram os sábios, perdoa os nossos pecados contra Ele, mas não perdoa, nem pode perdoar nossos pecados contra os outros, até que eles também tenham nos perdoado. E só podemos ficar em paz com Deus quando fazemos as pazes com os nossos companheiros seres humanos. Esse é o grande antídoto ao fundamentalismo. Deus nos deu muitas crenças, mas apenas um mundo no qual temos de aprender a viver juntos. E nesta era global, ele está ficando cada vez menor.
Vocês viram aquelas imagens impressionantes enviadas pela nave espacial Galileo antes de ela cair na atmosfera de Júpiter há dois dias? Lá estavam elas: imagens nítidas dos anéis de Júpiter e suas várias luas, quase cinco bilhões de quilômetros de distância, uma das quais, coberta de gelo, pode conter alguma forma de vida. E isso me faz imaginar como a vida na Terra deve parecer de uma distância dessas.
É o grande paradoxo. Por um lado, todo o planeta Terra é um ponto minúsculo em um universo de 18 bilhões de anos-luz de diâmetro, e nós tão pequenos, de vida tão curta, somos apenas pó sobre a superfície da eternidade. Mas, por outro lado, que milagres somos capazes de realizar! Afinal de contas, faz apenas 100 anos que Wilbur e Orville Wright fizeram o primeiro vôo motorizado e agora estamos enviando sondas para o espaço distante.
Somos tão insignificantemente pequenos, e assim mesmo continuamos a ser a única forma da vida no universo conhecido capaz de perguntar por que estamos aqui. Isso tudo foi dito com tanta precisão no livro dos Salmos há 3.000 anos: “Quando eu contemplo os céus, obra dos Teus dedos, a lua e as estrelas que puseste no lugar – o que é o homem para que Te lembres dele, o filho do homem para Te importares com ele? No entanto, Tu o fizeste pouco menor que os anjos e o coroaste de glória e de honra.” Somos pequenos, mas temos anseios imortais, e esse é o tema de Rosh Hashaná, o Ano Novo judaico, que começa nesta sexta-feira à noite.
Nossas outras festas recordam grandes momentos da história judaica, mas o Ano Novo é a nossa celebração anual da Criação, o Big Bang no qual a ordem surgiu do caos, dando origem a estrelas e planetas e à vida e a nós. É o momento em que ficamos mais conscientes de que estamos na presença do infinito, como se estivéssemos lá em cima com a nave espacial Galileo olhando aqui para a Terra.
E é difícil não ouvir um sussurro da alma do universo que chamamos de Deus, dizendo: “Seu planeta é tão pequeno, a sua vida tão curta, por que vocês desperdiçam tanto com conflito e discórdia, causando sofrimento uns aos outros, às vezes até em Meu nome? Daí de baixo, as coisas pelas quais vocês lutam podem parecer grandes. Daqui de cima, elas parecem muito pequenas.” Talvez não seja uma má ideia, uma vez por ano, celebrar o universo e aprender a desfrutá-lo, e não a destrui-lo. Que este seja um bom ano para todos nós e para o mundo que nos foi confiado por Deus.

Até dois dias atrás eu nunca tinha compreendido totalmente aquela estranha passagem bíblica sobre o direito às Cidades de Refúgio, mas agora acho que entendi. A Bíblia Hebraica exprime um horror sem paralelo ao assassinato, pois quando ela disse que cada um de nós foi feito à imagem de Deus, ela deu à vida humana uma dignidade insuperável. Quem destrói uma única vida humana destrói um mundo inteiro.
No entanto, nem todo ato de matar tem o mesmo grau de culpabilidade. Há casos em que não há intenção ou responsabilidade, e é por isso que as Cidades de Refúgio foram criadas. Eles estavam lá para fornecer um abrigo seguro para as pessoas a quem os tribunais decidiram não aplicar a penalidade máxima da lei; elas as protegiam da vingança. Assim, enquanto os assassinos ficassem dentro dessas cidades, estariam a salvo, defendidos pela lei, daqueles que sentiam que sua pena não tinha sido severa o suficiente.
De repente, tudo isso ficou claro para mim com a reação pública à libertação dos assassinos de Jamie Bulger. Este crime foi singular e terrível, uma criança de dois anos de idade, sequestrada e brutalmente assassinada por outras duas de dez anos de idade. Ainda me lembro da revolta que tomou conta do país, sentimento que eu também compartilhei. E quando os assassinos foram condenados, houve um desacordo entre o Ministro do Interior e o juiz sobre quanto tempo eles deveriam cumprir. Eles haviam cometido um crime horrendo, mas também tinham dez anos, idade em que ainda não se tem plena responsabilidade pessoal.
Bem, eles cumprirão a pena que lhes foi determinada, e agora um novo fator entrou na equação: a possibilidade de vingança por parte de alguém que acredite que a lei foi muito leniente. Assim, uma enorme operação de sigilo teve de ser posta em prática para, na medida do possível, impedir que eles sejam identificados. Tivemos de reinventar, embora longe de oferecer tanta segurança, algo parecido com essa antiga instituição, as Cidades de Refúgio.
O que a Bíblia estava dizendo era para nunca confundir justiça com vingança. É fácil confundir as duas. Ambas são formas de o criminoso pagar por seu crime. Mas entre elas há uma significativa diferença, a diferença chamada lei. Uma coisa é a sociedade, através dos tribunais, punir um malfeitor. Outra coisa é os indivíduos tomarem a lei em suas próprias mãos. A justiça sustenta o Estado de Direito; a vingança o destrói. É por isso que, sejam quais forem nossos sentimentos em relação aos assassinos de Jamie, agora eles devem ser protegidos da vingança. A justiça redime o mal. A vingança o dobra.
Estive em Nova York há algumas semanas para uma reunião de líderes religiosos mundiais nas Nações Unidas. Como se pode imaginar, houve uma quantidade enorme de discursos, então confesso que, enquanto estava lá, dei uma escapada por alguns minutos e fui tomar um pouco de ar fresco no Central Park. Foi lá que vi uma coisa extraordinária.
Os novaiorquinos têm tendência a ser maníacos por saúde, e há sempre muita gente correndo no parque. Um deles, no entanto, obviamente não queria perder um minuto sequer longe dos negócios e por isso estava usando um daqueles aparelhos celulares de ouvido no qual ele falava tentando fechar um acordo. Lá estava ele, correndo, discutindo, negociando e gesticulando freneticamente. Foi a primeira vez que eu vi alguém tentando manter a forma e correr o risco de sofrer um ataque do coração – tudo ao mesmo tempo.
Daí eu pensei: que símbolo para a nossa era. A nossa deveria ser a Era do Lazer, mas ao invés disso muitos de nós nos pegamos trabalhando mais, por mais tempo e mais rápido do que nunca para ganhar o suficiente para construir uma casa que estamos ocupados demais para desfrutar, um casamento que estamos atribulados demais para aproveitar e filhos que estamos com pressa demais para ouvir. Às vezes conseguimos ficar tão ocupados ganhando a vida que mal temos tempo para viver.
É por isso que, como judeu, eu sinto a necessidade de comenorar as grandes datas sagradas – Rosh Hashaná e Iom Kipúr – que em poucos dias marcarão o Ano Novo judaico. A pergunta que Deus nos faz nesses dias é: como é que usamos nosso tempo no ano passado? O que fizemos com a mais preciosa de todas as dádivas, o dom da vida? Há todo tipo de desigualdades no mundo, mas há uma coisa que é idêntica para todos nós, que é o tempo em si. Se formos ricos ou pobres, continua havendo apenas 24 horas no dia, 365 dias no ano, e um período de vida que é curto demais.
O que eu aprendi depois de uma vida consolando pessoas em luto, é que o que fica depois que nos vamos é a diferença que fazemos nas vidas de outras pessoas. Um telefonema para alguém que se sente solitário, uma visita a alguém que está doente, um ouvido amigo para uma pessoa em crise, o tempo dedicado aos membros da nossa família. Essas são as coisas que as pessoas nunca esquecem – e não quantos telefonemas fizemos durante a corrida. Acho que as últimas palavras de alguém à beira da morte não são: eu gostaria de ter passado mais tempo no escritório. A mensagem do Ano Novo judaico é que o tempo é um presente de Deus, vamos usá-lo para fazer uma boa ação por dia.
Acabei de voltar de uma visita à comunidade judaica de Manchester, e uma das coisas que fizemos ontem – algo que parecemos fazer com frequência hoje em dia – foi consagrar um novo Sêfer Torá, um novo Rolo da Lei. Foi um momento maravilhoso. Sempre é. Nós dançamos pelas ruas, carregando-o em turnos sob um dossel nupcial, com uma alegria parecida com a do Rei David quando, há três mil anos, ele levou a Arca Sagrada para Jerusalém.
E fiquei impressionado, como fico muitas vezes, com os estranhos contrastes da vida judaica. A nossa religião é bastante voltada para o futuro. Recebemos com entusiasmo os avanços científicos e tecnológicos. A lei judaica não hesitou em acolher a fertilização in vitro como uma bênção para os casais que, de outra forma, não poderiam ter filhos, assim como faremos com a engenharia genética como meio para curar doenças hereditárias. Os judeus religiosos estão entre os usuários mais entusiasmados da internet para fins educativos e, em Israel, um país de apenas cinco milhões de pessoas, os judeus criaram a maior indústria de alta tecnologia fora dos Estados Unidos.
No entanto, quando se trata da Torá, os livros de Moisés, de Gênesis a Deuteronômio, ainda os escrevemos exatamente como nossos ancestrais têm feito por milhares de anos: à mão, em pergaminho, usando uma pena, de modo que um manuscrito de hoje é quase idêntico aos Rolos do Mar Morto, que remontam a um tempo antes do nascimento do cristianismo.
Existe uma opinião – que eu ouço na mídia quase todos os dias – que diz que, numa época como a nossa, de mudanças sem precedentes, nossos valores também devem mudar. Esqueça o casamento e a família estável, esqueça virtudes como honra, fidelidade, civilidade, moderação e, acima de tudo, esqueça a religião. São coisas velhas cuja data de validade já passou. Pelo amor de Deus, não estamos vivendo no século 21? 
Esse ponto de vista não poderia ser mais equivocado. É quando os ventos golpeiam mais forte que você precisa de raízes mais profundas. É quando está entrando em território desconhecido que você precisa de uma bússola para lhe dar um senso de direção. O que nos dá força para lidar com mudanças são coisas que não mudam – uma família amorosa, uma comunidade que dá apoio e os textos religiosos que preservam a sabedoria do passado.
E enquanto eu levava o Rolo da Torá pelas ruas de Manchester, eu sabia, sem sombra de dúvida, que aqueles que carregam consigo a herança do passado são os que conseguem enfrentar o futuro sem medo.
Outro dia recebi o telefonema de um cavalheiro que queria saber o que eu achava do programa Today. Ele está escrevendo sua história oficial e queria saber a minha opinião. Bem, o que eu poderia dizer exceto que não consigo pensar numa maneira melhor de ser acordado numa manhã de segunda-feira do que pelos tons graciosos de Sue McGregor ou da rebeldia bem-humorada de John Humphrys ou James Naughtie? Sou fã, e sempre fui, desde os dias de Jack Demanio, que sempre dava a hora errada, e do saudoso Brian Redhead, um dos maiores mestres que o rádio já teve.
E então ele quis saber o que eu achava de Reflexões para o Dia. “Não é um tanto estranho”, disse ele, “ter uma espécie de mini-sermão no meio de um programa de notícias?” “Totalmente”, respondi. “É doido, excêntrico e totalmente benéfico. Exatamente como tudo que é grandioso na cultura britânica. Não há nada mais estranho do que a Constituição britânica, e ainda assim, por séculos, tem servido de modelo vivo ao mundo de como criar uma sociedade livre. Não há nada mais estranho do que o formato de um táxi de Londres, ou da imensa roda-gigante chamada London Eye, mas nós os amamos tanto que não desejaríamos que fossem diferentes. É o que é insólito que dá identidade a um país.”
E aí falei sério, porque Reflexões para o Dia faz duas coisas que são realmente muito sérias. Em primeiro lugar, ele deu uma enorme contribuição para a nossa sociedade multirreligiosa. Quando falo dentro de uma sinagoga, estou me dirigindo a pessoas iguais a mim. Mas agora estou me dirigindo a um público cuja maioria não é judia, e isso significa que tenho de falar de uma maneira que abrange as diferenças e se comunica transpondo barreiras. Esse é um hábito que todos temos de aprender se quisermos nos manter fiéis a nós mesmos e dar espaço às pessoas que não são iguais a nós. É isso que Reflexões para o Dia força as pessoas como eu a fazer, e a Grã-Bretanha ficou melhor por causa disso.
Em segundo lugar, ele nos lembra que existe algo além das notícias. É o que chamamos de perspectiva. A notícia é sobre hoje. Mas as grandes religiões nos lembram do ontem e do amanhã. Elas são nosso diálogo vivo com o passado e o futuro, essas duas coisas essenciais chamadas de memória e esperança. Não há nada mais garantido para fazer-nos tomar decisões erradas do que viver apenas no presente, esquecendo as lições do passado e nosso dever para com as gerações que ainda não nasceram. Assim, num mundo em que as chamadas dos noticiários e a capacidade de atenção são cada vez menores, não faz mal ter um lembrete diário da eternidade. E este, para todos os efeitos, foi a minha reflexão para o dia.
Nos próximos dias, o Parlamento vai debater uma lei de emergência para proibir a clonagem reprodutiva humana. Isto se dá porque um juiz do Supremo Tribunal determinou recentemente que esse procedimento não está previsto na atual legislação. E o debate tornou-se urgente, pois um médico italiano foi em frente com a clonagem humana, mesmo com a desaprovação da comunidade médica.
O que é a clonagem reprodutiva e por que ela é errada?
É a tentativa de fazer com os seres humanos o que o Dr. Ian Wilmut e sua equipe fizeram no caso da ovelha Dolly: você pega uma célula normal, isola seu material genético, insere esse material em um óvulo do qual o núcleo tenha sido removido, deixa que ele comece a se dividir como um embrião normal e depois o implanta no útero de uma mãe de aluguel. Se funcionar, o resultado será uma criança que, ao invés de ser uma mistura dos genes de seus pais, será geneticamente idêntica a um único adulto. Poderá ser o gêmeo idêntico de seu pai. Ou, creio eu, poderá ser um clone de qualquer um disposto a doar seu DNA: Julia Roberts, Dave Beckham ou o ator que interpreta Harry Potter. É um novo significado para a frase “genes de grife”.*
Então você pode perguntar: o que há de errado nisso?
Bem, o procedimento não é testado, aprovado nem seguro. No caso do experimento que produziu a ovelha Dolly, 277 ovos foram clonados, apenas 29 desenvolveram os embriões e somente um sobreviveu e chegou a termo. O que é pior: camundongos clonados desenvolveram subsequentes anormalidades genéticas não detectadas no nascimento. Além de a clonagem não ser segura agora, existem bons motivos científicos para acreditar que ela nunca será. Portanto, não joguem roleta russa com a vida de uma criança.
Mas há uma questão mais grave. O que nos torna humanos é o fato de que fomos concebidos, e não projetados. Porque cada criança é uma nova combinação de genes de duas pessoas, ela é parecida, mas diferente de seus pais. Ela tem espaço para ser ela mesma, e não o que seus pais decidirem que ela deva ser. Há dois mil anos, os rabinos deram uma explicação melhor. Eles disseram: “Quando um ser humano faz muitas moedas com o mesmo cunho, elas saem todas iguais. Deus faz cada ser humano na mesma imagem, à Sua imagem, mas todos eles saem diferentes.” A glória da Criação é que a unidade no Céu cria diversidade aqui na Terra. Deus quer que cada vida humana seja única. Toda criança tem o direito de ser uma surpresa total para seus pais – o que significa ter o direito de não ser o clone de ninguém.
Hoje à noite e durante as próximas sete noites, se você vir uma casa com velas acesas na janela ou passar por um candelabro gigante, é porque estamos comemorando Chanucá, a festa judaica das luzes. E não consigo deixar de sentir que isso traz uma mensagem para o nosso tempo.
Chanucá recorda o momento, há mais de 2.000 anos, no qual os greco-sírios tentaram forçar a helenização dos judeus na Terra de Israel. Eles proibiram a prática pública do judaísmo e matavam aqueles que os desafiavam. Uma estátua de Zeus foi erguida no Templo sagrado de Jerusalém. Os judeus reagiram. Eles estavam em menor número, mas, no final, ganharam. Eles recuperaram a liberdade e reconsagraram o Templo. Foi uma das maiores vitórias militares do mundo antigo. Mas a questão é que a vitória militar não durou muito. Duzentos e trinta anos depois, um novo império surgiu, desta vez o romano, e os romanos não profanaram o Templo – eles o destruíram por completo. Chanucá, e mesmo o próprio povo judeu, poderiam ter desaparecido se não fosse por uma coisa. Os judeus se lembravam de um pequeno detalhe da história sobre como, ao reconsagrar o Templo, eles encontraram um único frasco de azeite intacto. Um milagre aconteceu e ele queimou por oito dias, ao invés de apenas um, até que mais óleo pudesse ser trazido. E é por isso que acendemos as Luzes de Chanucá como lembrança daqueles dias e símbolo da luz eterna do espírito humano. 
A vitória militar durou até o primeiro século; a vitória espiritual, a sobrevivência da fé judaica, dura até hoje.
Desde o 11 de Setembro, ouvimos muita coisa sobre a resposta militar ao terror: primeiro, o Afeganistão; agora, a inspeção de armas, a possibilidade de guerra no Iraque e, depois, quem sabe? Mas o que ouvimos sobre a resposta espiritual? Nós sabemos contra o que estamos lutando. Mas sabemos pelo que estamos lutando? Quanto a isso, o Ocidente tem se mantido estranhamente calado. Mas o fato é – e Chanucá é a prova – que as vitórias militares por si só não duram. As grandes batalhas conquistam as manchetes. Mas é a pequena batalha, a luz que acendemos em nossas casas e corações, que muda o mundo, porque muda a nós mesmos. A batalha espiritual em nome de Deus, pela santidade da vida e contra o terror mal começou. Chanucá fala da liberdade de sermos fiéis ao que acreditamos, sem negar a liberdade aos que acreditam no contrário. Trata-se de acender nossa vela sem ser ameaçados nem ameaçar a vela de qualquer outra pessoa. Nesse mundo de trevas, esta é a luz que precisamos neste momento.
Mombasa – o mais recente capítulo na crônica do terror que está se tornando o pesadelo do século 21. Quinze mortos, entre eles dois irmãos de 12 e 13 anos, a mãe e a irmã entre os 80 feridos. Poderia ter sido muito pior, se os dois mísseis orientados por calor tivessem atingido o avião com 261 passageiros, ao invés de errar por alguns metros. Onde termina esta história que começou com o 11 de Setembro e se mudou de Nova York para Moscou, Bali e agora para o ironicamente chamado Hotel Paraíso? Não o paraíso perdido, mas o paraíso destruído, conscientemente, brutalmente. Como lutar contra o terror que pode ser organizado em qualquer lugar, atacar em qualquer lugar, tomando como vítimas inocentes funcionários de escritório, frequentadores de teatro e pessoas de férias, no que parece não ter lógica, exceto o ódio e a raiva?
Os alvos do atentado suicida de ontem eram israelenses prestes a celebrar a festa de Chanucá, que começa hoje à noite. E talvez a própria Chanucá encerre uma parte da resposta. Ela recorda o momento, há quase 2.200 anos, em que o governante sírio do Império Alexandrino, Antíoco IV, tentou impor o helenismo em Israel. Ele proibiu a prática pública do judaísmo e erigiu uma estátua de Zeus no Templo. Ele detinha o poder e o usou para negar aos judeus a liberdade de viver sua fé.
Os judeus reagiram e, apesar de estarem em menor número, ganharam. Eles recuperaram sua independência e reconsagraram o Templo. Mas, curiosamente, em Chanucá nossa celebração não é focada na vitória. Nem sequer incluímos o livro que conta a história militar, o Livro dos Macabeus, na Bíblia Hebraica. Ao invés disso, acendemos velas durante oito dias, recordando o frasco de óleo intacto encontrado por aqueles que entraram em Jerusalém depois da guerra. E por todos esses séculos, nos lembramos neste momento das palavras do profeta Zacarias: “Não pelo poder nem pela força, mas pelo Meu espírito – diz o Eterno.”
Você pode ver a religião como uma batalha, uma guerra santa na qual você conquista uma vitória para a sua fé pela força ou pelo medo. Ou você pode vê-la como uma vela que é acesa para afastar um pouco da escuridão do mundo. A diferença é que o primeiro vê as outras religiões como um inimigo. O segundo as vê como outras velas que não ameaçam a minha, mas, sim, que se somam à luz que compartilhamos. O que os judeus se lembraram daquela vitória sobre os gregos, 22 séculos atrás, não foi um Deus da guerra, mas o Deus da luz. E é só o Deus da luz que pode derrotar a escuridão na alma humana.
Há 3.300 anos, um grupo de escravos foi libertado e começou aquilo que Nelson Mandela chama de “A Longa Caminhada até a Liberdade”. E desde então, nesta época do ano, nós revivemos a história deles pelo que chamamos de Pêssach, a Páscoa, a festa judaica do Êxodo, e vamos comemorá-la em breve, no início da próxima semana.
Para mim, isso levanta uma questão fascinante. Imagine se pudéssemos voltar no tempo e conhecer o grande faraó em pessoa, Ramsés II. Eu sei o que eu diria: “Ramsés, tenho boas e más notícias. A boa notícia é que um povo que existe hoje ainda existirá daqui a milhares de anos. A má notícia é que não será o seu. Será aquele grupo de escravos lá fora, trabalhando na construção de teus grandes templos, o povo que você chama de habiru ou hebreus, os filhos de Israel.”
Nada poderia soar mais absurdo. O Egito dos faraós era o maior império do mundo antigo, e os hebreus não eram nada – faziam trabalho escravo, eram impotentes, ainda nem eram uma nação. Mas foram eles, e não os faraós, que sobreviveram e continuam até hoje.
Como isso aconteceu? Acredito que a resposta seja esta.
O antigo Egito e a antiga Israel eram dois povos que fizeram a mais decisiva das perguntas: como, num curto período de tempo, é possível criar algo que perdure para sempre? Como é possível conquistar a imortalidade? 
Os egípcios deram uma resposta: construir grandes monumentos de pedra – templos, pirâmides – que resistirão aos ventos e areias do tempo. E assim fizeram. O que eles construíram continua em pé. Mas apenas os edifícios, e não a civilização que um dia lhes deu vida.
Os israelitas deram uma resposta diferente. Vocês não precisam criar monumentos. Tudo o que precisam fazer é contar a história geração após geração. Vocês precisam gravar seus valores nos corações dos seus filhos e eles nos dos filhos deles, de modo que vocês vivam dentro deles, e assim por diante, até o fim dos tempos. Vocês precisam construir uma civilização centrada no lar, na escola e na educação, como uma conversa entre gerações. Vocês precisam colocar as crianças em primeiro lugar. É isso que os judeus têm feito por milhares de anos, e é por isso que estamos aqui hoje.
E se há uma mensagem que eu gostaria de gritar para todo mundo ouvir seria esta: cuidem do casamento, da paternidade e da família. Vamos passar um tempo com os nossos filhos, contando nossa história, transmitindo a eles nossas esperanças e sonhos. Nós não fazemos isso o suficiente hoje em dia, e é isso que faz toda a diferença. É isso, e somente isso, que mantém uma civilização viva.
Parabéns a Fred e Olive Hodges, o casal cujo matrimônio é o mais longevo da Grã-Bretanha e que está celebrando 77 anos de vida em comum. E em algumas horas, junto com o cardeal Murphy O’Connor e outros, vou ajudar a lançar a Semana Nacional do Casamento. Não importando quais são nossas opiniões sobre os casamentos arranjados, de vez em quando o casamento em si merece um momento de celebração.
O que o torna uma das maiores de todas as instituições humanas é que ele reúne o que a vida contemporânea tantas vezes parece separar – sexo, amor, companheirismo, fidelidade – e faz deles algo maior do que a soma de suas partes. E longe de estar fora de moda, parece-me ter sido feito para o século 20.
Por quê? Porque o nosso mundo está mudando quase mais rápido do que podemos suportar. As coisas que uma vez deram aos nossos antepassados uma sensação de estabilidade – um emprego para a vida toda, um lugar ao qual pertencer, um conjunto de valores que parecia gravado em pedra – se foram.
Onde então encontraremos o amor duradouro, saber que outra pessoa se preocupa incondicionalmente conosco, algo que persista? Certamente não é nos relacionamentos que vêm e vão e que mudam tão frequentemente quanto nosso carro ou nosso aparelho de televisão. Eles não são a solução; são o problema.
Elaine e eu nos casamos há 31 anos, quando ela tinha 21 e eu 22 anos de idade. Naqueles dias, não tínhamos a mínima ideia do que a vida poderia trazer. Eu não tinha pensado em me tornar rabino, e os primeiros anos foram cheios de voltas e reviravoltas, becos sem saída e caminhos inesperados. O que fez a diferença para nós dois foi saber que o outro estaria lá; que quando as coisas ficavam difíceis, nenhum dos dois iria embora; e que tudo o que enfretássemos, não enfrentariamos sozinhos.
O hebraico bíblico tem uma palavra para esse tipo de compromisso. Ele o chama de emuná – erroneamente traduzido por fé –, pois o que realmente ele significa é fidelidade – comprometer-se com alguém num amor leal e mediante uma lealdade amorosa. Casamento é isso, e acho tocante que grandes profetas como Oseias e Isaías o viram como a metáfora mais próxima do amor de Deus por nós e do nosso por Ele.
É por isso que hoje vou adicionar um agradecimento pela dádiva do amor dado e recebido, o amor que cresce mais forte a cada ano, porque é renovado a cada dia. Pela coisa chamada casamento, que tece duas vidas juntas e transforma-as numa graça que nenhum de nós jamais conseguiria sozinho.
O que aconteceu com o arrependimento? Faço esta pergunta porque acabamos de começar a contagem regressiva para os dias mais sagrados do judaísmo: Rosh Hashaná, o Ano Novo, que começa hoje à noite, e Iom Kipúr, nosso Dia do Perdão, que é o momento no qual procuramos aqueles a quem possamos ter causado algum mal e pedimos seu perdão, para que, assim, Deus possa nos perdoar também.
Foi a antropóloga Ruth Benedict que apontou a diferença entre as culturas de vergonha e as culturas de culpa. Numa cultura de vergonha, o que importa é a forma como as outras pessoas veem você, sua imagem pelos olhos delas. Hoje em dia, a nossa é uma cultura de vergonha, e é por isso que existem tantos relações públicas e tanta preocupação com nossa imagem. 
Culturas de culpa não se preocupam com as aparências. Elas se baseiam na voz interior da consciência, que nós costumávamos chamar de voz de Deus. Numa cultura de culpa, não importa como os outros nos veem. O que importa é fazermos a coisa certa. O que conta não é a opinião alheia, mas se estamos em paz conosco. O real problema com as culturas de vergonha é que elas são implacáveis. Uma vez que você tenha caído em desgraça, acabou. Não tem mais volta. Assim, o mais importante numa cultura de vergonha é tentar esconder os erros. Isso nunca aconteceu, ou, se aconteceu, não fui eu, e se fui eu, não foi tão mau assim. 
Mas nas culturas de culpa há sempre um caminho de volta por causa do arrependimento e da pessoa chamada Deus. Deus perdoa. Acho que esse foi o mais importante dos conceitos singulares que a Bíblia Hebraica já deu ao mundo. Apesar de errarmos muitas vezes, sempre podemos recomeçar. Ao nos conceder o livre arbítrio, Deus nos deu a permissão de cometer erros. Ele nunca pediu que fôssemos perfeitos. Tudo o que Ele pediu foi que tentássemos fazer o melhor que pudéssemos, que assumíssemos nossos erros quando os cometêssemos e melhorássemos sempre. Quando acreditamos num Deus que perdoa, não importa se as outras pessoas perdem a fé em nós. Não importa nem se perdemos a fé em nós mesmos. Porque em algum lugar Alguém tem fé em nós e Deus nunca perde a fé. 
Eu gostaria de ver o arrependimento voltar. Pensem na diferença que faria se os políticos, homens de negócios ou qualquer um de nós pudéssemos simplesmente dizer “me desculpe, eu errei”, em vez de fingir que acertamos. Não haveria muito mais honestidade na vida pública e talvez na vida privada também se realmente nos lembrássemos de que, independente do que tenhamos feito, Deus nos ajuda a começar de novo?
A Aliança Evangélica determinou o dia de hoje como o Dia Nacional do Perdão, e esta é uma ideia adorável. É ela que está por trás do nosso próprio Dia do Perdão, que observamos duas semanas atrás. De todas as ideias bíblicas, o perdão é o antídoto mais radical ao ódio.
Eu me lembro de um dia, em 1999, no qual pela primeira vez senti o quanto ele é necessário. Eu estava visitando o Kosovo no final da campanha da OTAN. Era possível sentir a tensão. Alguns meses antes, os albaneses cossovares haviam fugido para ficarem em segurança. Agora era o outro lado, os sérvios, que temiam por suas vidas. Quando eu estava em Pristina entre os destroços da guerra, percebi que sérvios e albaneses só teriam um futuro se pudessem perdoar uns aos outros e agir de modo a serem perdoados. Caso contrário, eles repetiriam a hostilidade de séculos até o final dos tempos.
O perdão é um conceito religioso. Ele vem da ideia de um Deus que nos ama como um pai ama um filho. Na verdade, a palavra bíblica para misericórdia, rachamim, vem da palavra réchem, que significa útero. O significado é que, uma vez que um malfeitor pede desculpas por seu ato e faz todo o possível para reparar o dano, riscamos uma linha sobre o passado e começamos de novo. Um dos exemplos mais magníficos é no final do Livro de Gênesis, onde José diz a seus irmãos, que o haviam vendido como escravo: “Vocês pretendiam me prejudicar, mas Deus transformou suas intenções em algo bom.” Com esse ato de perdão, ele põe fim a gerações de rivalidade entre irmãos.
O perdão é a única maneira de viver com o passado sem ser prisioneiro dele. Por que então ele é tão difícil? Porque ele é conflitante com o nosso senso de justiça. O mal nos foi feito, portanto sentimos que ele deveria ser vingado. Quando o dano é histórico, sentimos que a lealdade ao nosso povo exige ainda mais reparação.
O perdão pode parecer uma traição. É por isso que ele é tão difícil. Por que então é necessário? Porque nós temos um dever para com o futuro, bem como para com o passado. Para com os nossos filhos, assim como para com os nossos ancestrais.
Há muito tempo, os sábios do judaísmo disseram que Deus procurou criar o mundo unicamente sobre o alicerce da justiça, mas Ele viu que o mundo não sobreviveria. É por isso que Ele nos deu a capacidade de perdoar. Em nossas vidas particulares, e em zonas de conflito em todo o mundo, precisamos do perdão agora.
Como criança que cresceu na década de 60, minhas lembranças da adolescência estarão para sempre ligadas à música dos Beatles. Então, não pude deixar de me sentir um pouco mais velho e um pouco mais solitário quando ouvi a notícia da morte de George Harrison. Na verdade, nós moramos a uma quadra de Abbey Road, e na maioria dos sábados, no meu caminho para a sinagoga, eu atravesso a mais famosa faixa de pedestres a enfeitar a capa de um disco de vinil. E podemos usar como medida do poder de resistência da música dos Beatles, o fato de que, mesmo agora, mais de 30 anos depois do grupo ter se desfeito, os fãs ainda virem para ser fotografados
ali. E neste sábado eles estavam lá às centenas, do lado de fora do estúdio onde o grupo gravou seus maiores sucessos, numa vigília em memória do mais introspectivo e, talvez, o mais intenso dos quatro.
George sempre foi um tanto solitário em comparação com os outros. E embora a maior parte da atenção tenha se concentrado em Lennon e McCartney, ele conseguiu produzir músicas impressionantes de sua autoria, que vão desde aquela previsão sobre a economia da década de 80, “Taxman”, até “Something”, uma das mais importantes canções de todos os tempos. Foi George quem introduziu o grupo à meditação transcendental, e com ela à música das cítaras indianas que ele estudou com Ravi Shankar. E esse amor pela espiritualidade oriental permaneceu com ele ao longo dos anos. Há algo na música popular que define o estado de espírito de uma época, e será sempre a música dos Beatles que capturará a inocência da década de 60, quando “tudo que você precisava era amor”, e “tudo o que dizíamos era para dar uma chance à paz”. O mundo ficou mais sombrio desde então, mas às vezes as nuvens se afastam e, quando isso acontece, ainda ouço George Harrison cantando “Lá vem o Sol”.*
Certa vez, eu estava numa escola e assistia um professor tentando explicar a uma classe bem jovem a diferença entre bens materiais e bens espirituais. Ele queria que eles percebessem que você pode perder o primeiro tipo, mas não o segundo. Passou a manhã fazendo com que as crianças construíssem o modelo de uma casa. Daí ele pôs uma fita e ensinou-lhes uma música. Então ele fez algo bem dramático. Ele fez a classe quebrar o modelo e desenrolar a fita. “Ainda temos a casa?”, perguntou ele. “Não”, responderam. “Ainda temos a música?” Devagar eles perceberam que ainda tinham. Obrigado, George, por toda música que você nos deu. Perdemos você. Mas ainda temos a música.
Parabéns a Donald Rumsfeld, agraciado com o prêmio Campanha do Inglês Claro, por suas palavras imortais: “Como sabemos, há coisas que sabemos... Também sabemos que há coisas que sabemos que não sabemos; mas também há coisas que realmente não sabemos, aquelas que não sabemos que não sabemos.”* Não há muito mais que se possa acrescentar. Parece um pouco com os poemas de Robert Browning, os quais, dizia-se, só duas pessoas conseguiam entender: Robert Browning e Deus. E agora só Deus.
É fácil rir do contorcionismo que os políticos fazem tentando evitar uma resposta direta a uma pergunta direta. Mas há uma questão séria por trás da Campanha do Inglês Claro. Assim como estamos preocupados com a pureza do ar que respiramos e da água que bebemos, também devemos nos preocupar com a clareza das palavras que falamos. Falar de forma evasiva, obscura, difícil, e usar jargões impenetráveis está para a comunicação como o aquecimento global para a atmosfera da Terra. A degradação da linguagem erode o ambiente em que se forma o pensamento.
Os capítulos iniciais da Bíblia são sobre a importância da linguagem. Deus diz: “Haja” e houve. No princípio era a palavra. Uma de nossas traduções antigas interpreta a frase “o homem se tornou um ser vivo” como “o homem se tornou uma alma que fala”. E quando Deus quis impedir as pessoas de construirem a Torre de Babel, Ele simplesmente confundiu suas falas. Não foi a destreza técnica que falhou, mas a capacidade de se fazer entender. Da mesma forma que Deus fez o mundo natural com palavras, nós fazemos o nosso mundo social com palavras, e quando elas perdem o significado, muitas outras coisas o perdem.
Quando cientistas se escondem por trás de terminologia técnica, ou especialistas usam uma linguagem que apenas um colega de profissão pode entender, é como se dissessem para o resto de nós: sabemos o que estamos fazendo, mesmo que vocês não entendam. Quando os políticos se refugiam em nuvens de verborragia, estão tentando uma forma de evitar a responsabilidade por coisas que temos o direito de saber. Falar claramente não é apenas cortesia. As pessoas que tomam decisões que influenciarão nossas vidas têm o dever de se comunicar de forma que possamos saber o que está em jogo. O que eu admiro nos profetas da Bíblia é que, apesar de terem as visões mais exaltadas, eles as traduziram em palavras simples cujo significado era impossível de ser confundido.
Para pensar direito, temos de falar de forma clara. Para nos comunicarmos, temos de falar de forma simples. E para ganhar confiança, temos de falar com honestidade. Ou, falando às claras, nunca acredite em quem você não consegue entender.
No meio de Jerusalém há uma pequena rua, numa vizinhança bem comum, repleta de restaurantes e cafés. É um dos meus locais favoritos da cidade, e eu o visito na maioria das vezes que vou lá. Nas noites de sábado, ela fica cheia de jovens que vão tomar uma bebida depois que o Shabat termina. E foi ali, logo depois da meia-noite do último sábado, que dois homens-bomba atacaram e, em seguida, um carro-bomba explodiu, deixando 10 mortos e 180 feridos. E enquanto eu e Elaine tremíamos com essa notícia ontem de manhã, alguém ligou para nos dizer que uma bomba tinha explodido num ônibus em Haifa. Mais 15 mortos, outros 40 feridos. Por que isso aconteceu agora? Porque o enviado americano Anthony Zinni está visitando o Oriente Médio, tentando engenhar um cessar-fogo. Aqueles que realizaram os ataques estavam dispostos a assassinar, mutilar e cometer suicídio, em vez de contemplar a possibilidade de paz.
Eu tenho apoiado todas as iniciativas de paz no Oriente Médio desde a Guerra dos Seis Dias, que aconteceu quando eu tinha 19 anos. Eu fiz isso pela mais simples das razões. Independente do lado com o qual simpatizamos, deveria ser óbvio que, com a paz, todos saem ganhando. Com guerra, violência e terror – todos perdem. As pessoas perdem seus empregos, seu futuro, sua segurança, suas vidas. Seja qual for a resolução a que se chegue, ela só poderá ser alcançada por meio de negociações, concessões e da lenta construção de confiança. Não há outro caminho. Nada jamais foi conquistado
por meio do terror no mundo moderno, e aqueles que o praticam acabam sempre por prejudicar seu próprio lado mais do que o de seus inimigos. Terrorismo – o ataque deliberado a vítimas inocentes – é perverso, não importa quem o pratica e contra quem ele é praticado, e se nos esquecermos disto, não há mais nada que valha a pena lembrar.
Existe, ainda hoje, uma fonte de esperança? Talvez apenas a seguinte: que tanto os judeus quanto os muçulmanos tentem traçar suas descendências a Abrahão, e que foi em sua época que a primeira disputa territorial registrada pela história ocorreu na Terra Prometida. Aconteceu entre os pastores de Abrahão e os de seu sobrinho Lot, e as palavras de Abrahão nessa época não perderam sua força até hoje. Ele se virou para Lot e disse: “Toda a terra está à sua frente. Se você for para a esquerda, eu vou para a direita. Se você for para a direita, irei para a esquerda. Só não vamos deixar acontecer uma briga entre nós, pois somos irmãos.” Que aqueles que acreditam no Deus de Abrahão escolham o caminho de Abrahão: o caminho da paz.
Foi apenas um pequeno item no final do noticiário da semana passada. Uma nova pesquisa mostra que apenas 15% das famílias da Grã-Bretanha, menos de uma em cada seis, se reúne para fazer as refeições. Alguns anos atrás, um escritor de gastronomia observou essa tendência e deu-lhe um nome. Ele escreveu sobre como, ao invés da tradicional refeição em família, hoje em dia as pessoas chegam em casa em horários diferentes, pegam um pedaço de pizza congelada no freezer, põem no microondas e comem assistindo a TV. Ele chamou isso de petiscar em série.
Talvez essa notícia não conquiste as manchetes, mas ainda vale a pena pensar a respeito. Recentemente, duas novas pesquisas – uma da Universidade de Essex e outra da Fundação Rowntree –, deram ainda mais uma evidência da ruptura do casamento e do efeito que isto tem nos filhos. Nem sempre, é claro, mas com frequência significativa, ela leva à depressão, distúrbios alimentares, drogas e abuso de álcool, desemprego, violência e criminalidade. Sim, muitas famílias com apenas um dos pais são ótimas, e sim, muitas crianças de famílias desfeitas ou lares temporários crescem bem. Mas veja este comentário de uma menina de 13 anos, registrado em um dos jornais deste fim de semana: “Eu gostaria de ter uma cerimônia de casamento”, disse ela, “mas não casar com ele de verdade. Eles sempre vão te trair e você vai ficar magoada.”
Quando li isso, pensei: que tipo de mundo nós demos a ela e seus contemporâneos no qual amor, lealdade, fidelidade, estabilidade e vontade de fazer sacrifícios um pelo outro simplesmente não existem? Ela vai ficar bem. Ela já aprendeu a lidar com isso. Mas o que demos a ela foi um mundo mais limitado, emocionalmente empobrecido. 
E o que isso tem a ver com comer juntos? Apenas isto: existem muitas teorias sobre a razão pela qual tantos casamentos fracassam ou nem mesmo acontecem. Alguns culpam nossa cultura materialista, outros acusam a TV e os meios de comunicação, e outros apontam na direção da pobreza e da discriminação social. Mas pode ser que pelo menos parte da explicação seja bem mais simples. Nós não dedicamos tempo às famílias. Tempo para nos reunirmos, comermos juntos, fazer companhia uns aos outros, compartilhando nossos problemas, nossas frustrações, nossas esperanças, as coisas simples que transformam uma família estável, em seu melhor momento, na poesia da vida cotidiana.
E talvez não seja por acaso que muitas religiões tenham como centro de seus rituais a prática de uma refeição compartilhada. Há uma sabedoria nisso que não devemos esquecer. Comer juntos significa passar tempo juntos, e o tempo é o maior presente que podemos dar àqueles que amamos.
Pessoas gordas, diz uma manchete de ontem, terão de fazer regime caso queiram ir ao médico. A proposta que está em estudos é que os pacientes podem ter de assinar contratos com seus médicos, comprometendo-se a perder peso, reduzir o fumo ou fazer mais exercícios; e aqueles que não o fizerem podem perder o direito ao atendimento gratuito. Uau!, pensei, me lembrando da minha batalha perdida para combater a gordura. Que ideia maluca – a de perder os serviços de seu médico quando você mais precisa dele.
Mas depois me lembrei de Moisés Maimônides, o maior rabino da Idade Média e um dos médicos proeminentes de seu tempo. E o fascinante é que ele fez praticamente a mesma sugestão há mais de 800 anos. Ele escreveu um trabalho pioneiro de medicina preventiva, com conselhos fortes e sábios sobre dieta, exercício físico, higiene e sono. O curioso é que ele não fez isso como um manual para manter a forma, mas como parte de seu clássico código da lei religiosa. Ele afirmou que o corpo é um presente de Deus, portanto temos o dever religioso de cuidar dele. Um dos erros mais comuns que cometemos, disse ele, é levar uma vida insalubre e depois culpar Deus quando ficamos doentes.
Amanhã à noite vamos celebrar a festa judaica de Shavuót, na qual relembramos a entrega dos Dez Mandamentos a Moisés e aos israelitas, o ponto culminante da jornada de sete semanas entre o Egito e o Monte Sinai, da escravidão para o grande momento da Revelação – a jornada que os levou à responsabilidade da liberdade. Ao dar aos israelitas um conjunto de leis, é como se Deus estivesse dizendo: “Eu vou te proteger, mas preciso que você faça a sua parte. Eu vou te ajudar, mas você tem de Me ajudar a te ajudar”.
A Bíblia tem um nome para este tipo de parceria. Ela chama isso de pacto, o que significa que ambas as partes comprometem-se uma com a outra, cada uma concordando em manter a sua parte do compromisso. E eu sempre acreditei que um pacto é um modelo não só para a nossa relação com Deus, mas para os relacionamentos em geral – com os nossos cônjuges, com quem partilhamos a vida, com os professores que cuidam dos nossos filhos, e sim, com os médicos que cuidam da nossa saúde. Então, talvez a ideia de uma aliança entre médicos e pacientes não seja tão louca, afinal. Eles nos ajudam, mas nós temos de ajudá-los a nos ajudar. Assim, apesar do fato de as festas judaicas geralmente envolverem comida, este ano eu vou optar por alimentar um pouco menos o corpo e um pouco mais a alma – na esperança de que minha médica continue a me atender, ou ainda melhor, que eu não precise do atendimento dela.
Dois dias atrás, a caminho de uma reunião no centro de Londres, fui parar no meio de uma marcha estudantil relacionada à ininterrupta discussão sobre as taxas universitárias. E se eu não tivesse de ir a outro lugar, acho que teria me juntado a eles.
Quando fui para a universidade, fui o primeiro membro da minha família a fazê-lo. Meu falecido pai, que chegara a este país como refugiado, teve de abandonar os estudos aos 14 anos para ajudar a sustentar a família. E uma das coisas que ele mais queria para seus quatro meninos era a educação que ele não pôde ter. Tanto ele quanto nós sabíamos que isso nos proporcionaria oportunidades a ele negadas. Se ela tivesse sido cara demais, nós provavelmente não teríamos tido essa chance. A educação tem sido uma paixão judaica desde o princípio. Naquela que se tornou a nossa oração mais famosa, Moisés disse: “Você deve ensinar essas coisas para seus filhos com dedicação.” Ezra, ao trazer os exilados de volta da Babilônia, instituiu um dos primeiros grandes programas de educação para adultos. Já no primeiro século desta era, 1.800 anos antes da Grã-Bretanha, o povo judeu tinha um sistema universal de educação obrigatória, pago com recursos públicos. Enquanto outras nações construíam castelos, os judeus construíam escolas e academias. Não é exagero afirmar que foi assim que conseguimos sobreviver.
Fico imaginando se, mesmo nos dias de hoje, nos damos conta de quão radical é a visão que está no coração da Bíblia Hebraica. Ao longo da história, houve duas grandes tentativas de formar sociedades com igualdade de dignidade. A primeira foi a que tentou criar condições em que todos tenham igualdade de acesso ao poder através do sistema político. A segunda concentra-se na igualdade de acesso à riqueza através do sistema econômico.
A Bíblia oferece uma alternativa revolucionária: concentrar-se na igualdade de acesso ao conhecimento através do sistema educacional. E é a única das três que realmente funciona – porque quando se alcança poder ou riqueza, quanto mais você compartilha, menos você tem. É por isso que a política e a economia sempre foram, e sempre serão, áreas de conflito. Mas quando você compartilha o conhecimento, ele não diminui. Quanto mais você compartilha, mais ele se multiplica. É por isso que o profeta Isaías disse: “E todos os vossos filhos serão ensinados sobre o Eterno, e grande será a paz ente vossos filhos.” Mais do que a riqueza e o poder, a educação é a chave para a dignidade humana. É por isso que quando se trata da busca pelo conhecimento, todos os nossos filhos devem ter as mesmas oportunidades.
À medida que avança a contagem regressiva para o início de algum tipo de confronto com o Iraque, raras vezes vi a Grã-Bretanha dividida de forma tão passional. Muitos acreditam que a guerra é equivocada e moralmente errada. Vai causar sofrimento para o povo iraquiano. Vai provocar o caos no país e desestabilizar o Oriente Médio. Vai incitar a raiva e gerar ainda mais terrorismo.
Mas há aqueles que, com a mesma paixão e princípios morais, estão convencidos de que se não enfrentarmos a tirania e o terror, além de perpetuar o sofrimento do povo iraquiano, vamos também garantir – se não para nós, para os nossos filhos – um futuro em que as armas de destruição em massa com alcance global estarão nas mãos daqueles que não se importam com a santidade da vida e que não fazem objeção ao assassinato em massa de inocentes. Em tal situação, pode parecer uma idiossincrasia citar algumas frases iniciais da Bíblia, mas é lá que encontramos um conceito notável geralmente mal interpretado.
Ela diz: “E disse Deus: Haja luz! e houve luz. E Deus viu que a luz era boa, e Deus separou entre a luz e a escuridão. E Deus chamou à luz Dia e à escuridão chamou Noite.” Mas a Bíblia não prossegue dizendo o que esperávamos: “E houve dia e depois noite” ou “E houve luz e depois escuridão”. São usadas duas palavras que ainda não conhecíamos: “E foi tarde e foi manhã.” E o que perdemos na tradução é que a palavra hebraica para entardecer, érev, significa uma mistura de luz e escuridão, e a palavra para manhã, bóker, significa romper, como os primeiros raios de sol que penetram o véu da noite.
O que a Bíblia está dizendo com grande sutileza é que, para Deus, pode existir o preto e o branco, mas o tempo humano é vivido em tons de cinza, misturas de luz e trevas. É por isso que decisões importantes e de grandes consequências são tão difíceis. Confrontos entre o certo e o errado são fáceis. Mas muitas vezes o confronto é entre dois males pelos quais não optaríamos num mundo ideal, mas entre os quais, sendo o mundo como é, temos de escolher.
É por isso que rezo para que Deus dê aos nossos líderes a sabedoria nos dias que estão por vir e, a nós, a generosidade de espírito para nos unirmos em nossa visão de um mundo mais seguro, mais justo, menos brutal, mesmo que discordemos de como chegar lá.
Hoje à noite é o início de Rosh Hashaná, o Ano Novo judaico. É o início de um período de dez dias de penitência no qual refletimos sobre o passado, repensamos nosso futuro e pedimos a Deus que nos inscreva no Livro da Vida no ano vindouro.
A tradição judaica vê o Ano Novo como o aniversário da Criação, o Big Bang, o momento no qual o universo começou. E há uma coisa que sempre me toca nestes dias: as leituras bíblicas que recitamos na sinagoga. Poderia se pensar que leríamos o majestoso capítulo de abertura da Bíblia: “E disse Deus: Haja Luz! e houve luz.” – a história da Criação.
Mas, na verdade, não. E vez disso lemos sobre o nascimento da primeira criança judia, Isaac, o filho de Abrahão e Sara, depois de muitos anos de espera. Nós lemos sobre Ana e sua oração por um filho, oração esta que também foi atendida. Acho isso profundamente comovente. Neste Dia dos dias não lemos sobre o ato de Criação de Deus, mas sobre o nosso; não sobre a vastidão do universo ecoando por cerca de 18 milhões de anos-luz, mas sobre a alegria e a responsabilidade de trazer uma nova vida ao mundo. Nós não pensamos em Deus como um cientista que elabora sistemas de organizada complexidade, mas como um Pai, amando e perdoando a nós, seus filhos.
Houve momentos, nestes últimos 12 meses, nos quais os problemas do século 21 – Afeganistão, Iraque, Oriente Médio, o meio ambiente, a economia global – pareciam quase impossíveis de serem enfrentados. O que fazer para entender questões tão difíceis de analisar, quanto mais resolver? No entanto, uma coisa me parece clara: o que importa não é só a inteligência crítica que usamos nessa análise, mas também a nossa visão fundamental, nosso ponto de partida. E nesta questão, o Ano Novo judaico tem algo simples mas bastante importante a dizer. Não pense no passado, nem mesmo em cálculos atuais de interesse político ou ganhos econômicos. Pergunte qual o impacto que isso vai ter nas futuras gerações. Tenha à sua frente a imagem de uma única criança.
As crianças são as vítimas sofredoras do século 21. Cento e treze milhões delas não têm nenhuma escolaridade. Cento e cinquenta milhões sofrem de desnutrição. Trinta mil morrem diariamente de doenças evitáveis. Elas não têm voto, nenhum poder, nenhuma voz, mas são elas que vão sofrer amanhã pelos erros que cometermos hoje. A mensagem de Rosh Hashaná é que, ainda mais importante do que compreender a Criação, é a capacidade de ouvir o choro de uma criança.
Que história maravilhosa por trás do anúncio de ontem, de que o cientista britânico, Sir Peter Mansfield, ganhou o Prêmio Nobel de Medicina. Ele é claramente um dos grandes cientistas do mundo, mas sua história traz uma mensagem de esperança para todos que não se saem tão bem nos estudos. Isto porque Sir Peter abandonou a escola aos 15 anos, sem qualificações e com a ambição de se tornar tipógrafo.
Na verdade, talvez ele jamais tivesse desenvolvido um interesse nas ciências se não fosse pelos foguetes V2 que caíram sobre Londres no fim da Segunda Guerra Mundial. Isso o levou a se interessar por explosivos, e uma coisa levou a outra. Portanto, nunca acredite que sair da escola sem nenhuma qualificação significa que as portas do futuro estarão fechadas. Duas das pessoas mais bem-sucedidas que já conheci ouviram de seus diretores que nunca seriam alguém na vida. De vez em quando, a esperança e uma mente focada podem derrotar qualquer revés.
A descoberta de Sir Peter também traz outra forma de esperança. Ele descobriu que os núcleos dos átomos têm uma rotação que pode ser controlada por um campo magnético, e quando voltam ao normal, a energia que eles absorveram os transforma em pequenos transmissores de rádio. O golpe de gênio foi perceber que isso poderia ser usado para transmitir imagens contínuas do interior do corpo humano. Isso se chama ressonância magnética. Se você já fez uma, sabe como ela é mágica. É indolor, inofensiva e produz imagens nítidas. É uma ferramenta fundamental de diagnóstico e, por ser não invasiva, espero que um dia ela possa também substituir muitos exames post mortem.
Isso é o melhor da Ciência: salvar vidas e honrar a dignidade do corpo humano. Ficamos preocupados com o poder destruidor da Ciência, mas, para mim, a maior verdade foi apontada há muito tempo. O primeiro capítulo do Gênesis, que descreve a Criação, começa usando a segunda letra do alfabeto hebraico, enquanto os Dez Mandamentos começam com a primeira letra. Isto vem nos dizer que mesmo o maior ato de criação está sujeito aos usos que fazemos dele. Toda a tecnologia pode ser usada para o bem ou para o mal, e é por isso que quanto maior o nosso conhecimento científico, maior deve ser a nossa ética.
Sir Peter Mansfield não apenas descobriu a ressonância magnética, como viu como transformá-la numa bênção. Então vamos levantar nossas xícaras de café e fazer um brinde a um homem que é, de acordo com um belo dito judaico, um parceiro de Deus na obra da Criação.
Enquanto testemunhamos a tragédia que se desenrola no Kosovo, os judeus de todo o mundo estão se preparando para festejar o Pêssach, a Páscoa, a festa da liberdade dos judeus, que começa nesta quarta-feira. E fico impressionado ao pensar o quanto o mais antigo dos rituais religiosos ainda é contemporâneo.
Já se passaram mais de 3.000 anos desde que o Êxodo ocorreu. E ainda assim, desde então, as famílias judias juntam-se à mesa para contar a história de como seus ancestrais uma vez foram escravos e como viviam à sombra de uma tentativa de genocídio. Minhas primeiras memórias de criança são daquelas noites na casa do meu avô, quando comi o primeiro pão ázimo da aflição,  as ervas amargas do sofrimento e bebi as quatro taças de vinho da liberdade. Foi a mais simples e, ainda assim, a mais poderosa das aulas de história. Ensinou a mim – como ensina cada criança judia –, a estar pronto para enfrentar um mundo cheio de dor, mas nunca sem esperança. Já naquela época, com no máximo três ou quatro anos de idade, eu estava começando a compreender como é errado um povo privar outro de sua liberdade, e como a tirania sempre acaba por causar a derrota daqueles que a usam contra os outros, desde a época dos faraós até os dias atuais.
Uma coisa sempre me fascinou: a forma como Moisés convocou os israelitas e lhes falou, pouco antes do Êxodo. Ele poderia ter falado sobre muitas coisas – sobre a liberdade, sobre a Terra Prometida ou sobre a longa jornada que estava por vir. Mas não foi o que ele fez. Em vez disso, por três vezes, falou sobre o futuro distante e sobre a obrigação dos pais de ensinar aos filhos a história da saída do Egito – o que nós seguimos fazendo até hoje. Foi a coisa mais estranha de se dizer, mas foi também a mais sábia. Porque para defender um país, você precisa de um exército. Mas, para defender a humanidade, você precisa de educação. Faz-se necessário que os pais ensinem aos filhos a história da liberdade e, uma vez por ano, é preciso que as crianças provem o pão da aflição, para que elas aprendam a jamais causar aflição aos demais.
Eu apoio a intervenção da OTAN no Kosovo e rezo para que seja bem-sucedida. Mas quando ela acabar, todos os problemas ainda estarão lá. Sérvios e albaneses ainda terão de viver juntos, cada um respeitando a liberdade do outro, cada um buscando ir além dos ódios do passado. Não se pode conseguir isso apenas com ataques aéreos. Isto só pode vir de um longo e paciente esforço de educação. Quando vamos aprender que a paz não surge do cano de uma arma? Ela nasce no coração dos seres humanos, e suas sementes são plantadas nas histórias que ensinamos a nossos filhos.
Olhem que bela ideia: na última sexta-feira, um grupo chamado Parentalk (Conversa de Pais) lançou uma nova iniciativa. Seu objetivo? Simplesmente fazer com que pais digam três palavras para seus filhos: as palavras “Eu te amo”. Apenas isso. Diga a seus filhos que você os ama.
Com as notícias sobre o Kosovo, o Manchester United e o alvoroço causado pelas fotos de Sophie,* essa iniciativa não alcançou as manchetes de primeira página. Mas me pergunto o que terá maior efeito em nossas vidas e nas vidas daqueles ao nosso redor a longo prazo.
Um dos privilégios de ter uma vida pública é que eu conheci pessoas que, de uma forma ou de outra, exercem bastante poder – políticos, dirigentes de empresas, figuras da mídia e da vida acadêmica. As pessoas gastam muito tempo, às vezes a vida inteira, buscando ter esse tipo de poder, talvez porque elas sintam que, se o tiverem, suas vidas farão diferença, e que elas fizerem e o que elas disserem afetarão os outros.
Mas por quanto tempo? Líderes vêm e vão, outras pessoas tomam o poder e fazem as coisas de forma diferente, e a influência que qualquer um deles tem na vida pública é como uma figura desenhada nas areias de uma praia: clara por um tempo, mas só até a maré virar.
Agora pensem em como é ser um pai. Pensem na influência que temos sobre os nossos filhos ou na influência que os nossos pais tiveram sobre nós. Alguma coisa fez mais diferença, não somente por um momento, mas para toda a vida?
Qual de nós não carrega alguma memória das palavras que nossos pais nos disseram quando éramos jovens – palavras que nos feriram ou palavras que nos fizeram andar de cabeça erguida?
Essas são as palavras que nunca esqueceremos, e elas moldam a imagem de quem somos. Se doerem, podemos passar boa parte da nossa vida adulta tentando aliviar a dor. Mas se elas nos deram orgulho ou confiança, isso permanecerá conosco por anos a fio. Digam aos seus filhos que vocês os amam, e nesse único ato de conscientizá-los de que são amados, vocês lhes darão a força para retribuir esse amor. Eu não conheço um presente maior, e tudo o que é preciso são alguns segundos do nosso tempo e do nosso coração.
Eu lhes digo que nenhuma entre as milhares pessoas que preenchem o noticiário tem o poder de um pai sobre seu filho: o poder de mudar uma vida. E se vocês acharem isso difícil de acreditar, pensem na Bíblia. Os profetas sabiam que Deus era mais forte do que o maior dos político. Mas quando falaram do Seu poder, eles o fizeram por meio de uma imagem. Ele é nosso Pai, nós somos Seus filhos, e a coisa mais importante que Ele já fez por nós foi comunicar-nos o Seu amor. Portanto, neste feriado, vamos reservar um momento para os nossos filhos e dar-lhes o que Deus nos dá.


Post Scriptum:
Anos mais tarde, eu estava lançando a Semana Nacional do Casamento, e a senhora que me apresentou contou a seguinte história: ela me ouvia no rádio (era a reflexão acima) e decidiu fazer o que sugeri. Ao levar os filhos para a escola de manhã, ela se virou para eles e disse: “Eu amo vocês!” Sua filha mais nova, no assento de trás, disse: “Ai, mãe, como você consegue ser tão boba? Aposto que está ouvindo Reflexões para o Dia de novo.” Só para ilustrar o que eu disse antes.

As notícias desta manhã sobre o colapso das conversações sobre o Kosovo significam que a guerra vai continuar, provavelmente até se intensificará. Então ainda aguardamos e rezamos que, de alguma forma, surja um entendimento que permita aos refugiados retornarem e reconstruírem seu mundo destruído. A pergunta é: e depois?
Sabemos como é difícil terminar uma guerra. Porém, será um desafio ainda maior manter a paz. Vamos imaginar que, em algum momento desta semana, um acordo seja assinado. Uma Força de Paz é estabelecida. Os albaneses cossovares voltam. Prevalece algo parecido com a normalidade. Entretanto, no meio tempo, um país foi devastado, casas destruídas e aldeias arruinadas. Virão à tona histórias sobre terríveis atrocidades. Mesmo quando terminarem as hostilidades, haverá um legado de amargor em ambos os lados. Como se interrompe o ciclo de ódio?
Eu só conheço uma resposta. A Bíblia nos conta a história sobre como os israelitas foram escravizados no Egito e como o faraó, frente à destruição de seu país, mudava constantemente de ideia, até que Moisés, finalmente, levou seu povo à liberdade. E ainda assim, quando tudo acabou, Moisés falou à nova geração e lhes deu uma ordem memorável: “Não odeiem os egípcios”, disse ele. Sim, vocês passaram maus momentos, mas agora vocês devem seguir em frente. Se perderem seu tempo tentando destruir seus inimigos, vocês acabarão por destruir a si próprios. Esta é a mensagem que deve ser ouvida por sérvios e albaneses nesta parte tensa do mundo. E isto requer um esforço massivo de educação.
Ao ouvirmos as notícias, podemos vir a pensar que a paz é uma questão de campanhas militares, pressões diplomáticas e acordos negociados. E é assim mesmo, mas só no curto prazo. No longo prazo, a paz depende de outras coisas – aprender a coexistir, abrir espaço para os outros, deixar o passado de lado e seguir em frente. Uma das coisas mais tocantes que eu vi nesta guerra foi o trabalho feito por alguns adolescentes israelenses que voaram até o Kosovo para trabalhar com crianças traumatizadas. Eles usaram suas próprias experiências como vítimas do terror para levar a cura bem longe de suas casas.
Bilhões de libras foram gastas nessa guerra. Muito mais ainda será gasto na reparação dos danos. O que aconteceria se apenas um décimo deste valor fosse usado para ensinar às crianças que não apenas eu, mas também meu inimigo, pode sofrer e sentir dor? Exércitos vencem guerras, mas é necessário educação para firmar a paz. Porque, apesar da guerra exigir coragem física, a paz requer coragem moral – a coragem de romper com o passado e transformar inimigos em amigos.
Amanhã de manhã participarei daquela que, imagino, será uma das experiências mais emocionantes da minha vida. Mais de mil pessoas se reunirão para relembrar o dia em que, há 60 anos, suas vidas foram salvas por um ato de bondade por parte da Grã-Bretanha e de seus cidadãos. Elas são algumas das pessoas salvas quando eram crianças na operação denominada Kindertransport.
Já em novembro de 1938, a maioria das pessoas sabia que, sob o nazismo, os judeus estavam em risco. Numa única noite, a Kristallnacht, 191 sinagogas foram incendiadas e outras 76 completamente destruídas. Trinta mil judeus foram cercados e enviados a campos de concentração. Era o começo do fim.
Da escuridão apareceu um pequeno raio de luz. O governo britânico anunciou que estava disposto a admitir 10.000 crianças da Alemanha, Áustria e Tchecoslováquia. Foi um ato de humanismo sem paralelo em qualquer outro lugar do mundo, e isso literalmente salvou suas vidas. A maioria das que ficaram foram assassinadas. Muitas das que vieram jamais voltaram a ver seus familiares. E nenhuma delas jamais esqueceu aquela jornada, quando acenaram em adeus para seus pais e partiram em viagem ao único lugar que as deixaria entrar.
Muitas delas, incluindo algumas que hoje são amigos nossos, dedicaram sua vida adulta a servir aos outros, retribuindo um pouco da caridade que lhes foi oferecida. Amanhã eles virão agradecer às muitas pessoas deste país que abriram suas portas, suas casas e seus corações.
E aquela mesma compaixão britânica ainda vive. O chefe do Conselho de Refugiados me contou sobre algo que ele testemunhou há cerca de uma semana ou duas. Ele estava na região de Midland, reunido com um grupo de refugiados kosovares, quando alguém veio lhe relatar que havia uma demonstração do lado de fora. Seu coração encolheu, até que ele saiu e viu o que estava escrito nos cartazes. Apenas uma coisa: “Bem-vindos!”
E quando estes refugiados retornarem aos seus lares, levarão a lembrança daquele momento – o reconhecimento de que há uma outra forma de tratar estrangeiros – não com hostilidade, mas com hospitalidade. E quem sabe não seja esta a melhor maneira de curar um mundo fraturado? 
Atos de bondade nunca morrem. Eles permanecem na memória dando vida a outros atos em retribuição. E à medida que crianças judias de 60 anos atrás unem seus agradecimentos aos dos albaneses kosovares de hoje, eu sei que, enquanto a coragem no campo de batalha ganha guerras, é outro tipo de coragem – a de presentear com o refúgio em tempos de perigo – que abriga a esperança humana.
Outro dia eu participava de um seminário, e a reação a uma coisa que eu disse me fez perceber que não a fazemos com a frequência necessária.
Nós tínhamos nos reunido – acadêmicos, planejadores e políticos – para discutir a relação entre escolas e cidadania. Cidadania passará a fazer parte do currículo nacional dentro de dois anos, e estávamos compartilhando ideias sobre como fazer a coisa funcionar. Ao longo das minhas colocações, ocorreu de eu dizer que não honramos os professores o suficiente. Culpamos as escolas quando eles falham, o que é raro, mas não os elogiamos quando têm sucesso. Para minha surpresa, fui entusiasticamente aplaudido. Ficou claro que eu tinha tocado numa verdade esquecida.
Para nós, judeus, o maior líder que já tivemos foi Moisés. E o que me fascina é o título que lhe damos. Moisés foi um libertador, legislador, comandante militar e profeta, mas não o chamamos de nenhuma dessas coisas. Em vez disso, nós o chamamos de Moshe Rabênu – Moisés, nosso mestre –, porque isso, para nós, é a maior das honrarias. E creio que a razão seja esta.
Há muito tempo o povo judeu entendeu que, para defender uma nação é necessário um exército. Porém, para defender a civilização são necessárias escolas. A instituição social mais importante, a que vem em primeiro lugar, é onde nós passamos nossos valores para a próxima geração – o lugar onde dizemos aos nossos filhos de onde viemos, por quais ideais lutamos e o que aprendemos no caminho. É nas escolas que fazemos das crianças nossos parceiros na longa e infindável tarefa de criar um mundo mais agradável.
E assim, desde os tempos bíblicos até hoje, os judeus se tornaram um povo cuja paixão é a educação, cujo maior amor é aprender, cujas cidadelas são as escolas e cujos heróis são os professores.
A lei judaica contém uma determinação extraordinária. Na Antiguidade, havia lugares designados como cidades de refúgio para pessoas que necessitassem de proteção. E os rabinos determinaram que, caso um estudante tivesse de ir para lá, seu professor deveria acompanhá-lo. Por quê? Porque, em suas palavras, a vida sem um professor simplesmente não é vida.
Os professores abrem os nossos olhos para o mundo. Eles despertam em nós curiosidade e confiança. São eles que nos ensinam como fazer perguntas. Eles nos conectam com nosso passado e com nosso futuro. São eles os guardiões da nossa herança social. Hoje em dia, temos muitos heróis – esportistas, supermodelos, personalidades da mídia. Eles vêm, têm seus 15 minutos de fama e se vão. Mas a influência dos bons professores continua conosco. Eles são as pessoas que moldam a nossa vida.
Acabo de regressar do Kosovo. Fui até lá para ver como aquela região conturbada está se reorganizando depois do conflito. 
E foi lá, entre prédios bombardeados e destroços, que, de repente, percebi o poder que uma palavra – a palavra “perdão” – tem para mudar o mundo.  Esta é a palavra-chave para os judeus neste momento.
Amanhã e domingo celebraremos o Rosh Hashaná, o Ano Novo judaico, e uma semana depois, o Iom Kipúr, o Dia do Perdão. 
E apesar de toda solenidade, esses dias nos remetem, na verdade, a algo muito simples. São os momentos nos quais nos desculpamos com Deus – e com nossos semelhantes, os seres humanos – pelo mal que fizemos e pelas feridas que causamos. Pedimos perdão para que possamos recomeçar. Que é exatamente o que os sérvios e albaneses terão de fazer se quiserem que, algum dia, haja paz naquela parte do mundo.
Uma das descobertas mais interessantes dos últimos anos aconteceu quando um grupo de biólogos resolveu um problema proposto, há mais de um século, por Charles Darwin. O que fascinava Darwin era a questão de como todas as sociedades humanas chegaram a valorizar o altruísmo. Seguramente, a evolução deveria favorecer os cruéis, e não os bons, certo? Mas na verdade ocorre o contrário.
Usando computadores, os biólogos simularam diferentes tipos de seres humanos. Os que melhor se desenvolveram foram aqueles capazes de cooperar entre si. O que eles também constataram – e esta foi a verdadeira descoberta – é que, a longo prazo, é necessário incluir no programa um sistema de perdão. Você tem de instruir a pessoa gerada por computador a esquecer periodicamente as mágoas que sofreu. Caso contrário, ela ficará presa num ciclo de vingança e retaliação, e aí todos saem perdendo. Sem ter a menor ideia do que estava fazendo, o computador estava simulando o que realmente aconteceu nos Balcãs, no Timor Leste, na Irlanda do Norte e no Oriente Médio. Raramente a ciência provou tão claramente a verdade de uma grande ideia religiosa.
O perdão é a coisa mais poderosa que a Bíblia já ensinou à humanidade, e vamos precisar dele nos próximos anos. Pois o que dirão nossos netos se resolvermos todos os problemas relacionados à tecnologia, mas fracassarmos na solução do problema dos conflitos humanos? O Ano Novo judaico tem uma mensagem para todos nós. Peça desculpas àqueles que você magoou e perdoe aqueles que o feriram. Fácil? Não. Mas isso é incrivelmente poderoso. É preciso apenas um pouco de coragem para lutar, mas uma quantidade enorme de coragem para perdoar. Um Ano Novo de paz a todos vocês.
Se nos próximos dias você passar por uma casa com velas acesas nas janelas, provavelmente é uma família judia celebrando Chanucá, a festa judaica das luzes. É nossa maneira de celebrar um momento da história judaica ocorrido aproximadamente dois séculos antes do nascimento do cristianismo. Israel estava sob o domínio grego, que começou a suprimir nossas práticas religiosas. Os judeus se rebelaram e reconquistaram sua liberdade. 
O Templo foi reinaugurado e a grande menorá (candelabro) foi reacesa. E, desde então, nós também acendemos velas para nos lembrar daquele tempo.
Como tantas festas judaicas, esta também acontece em casa, com pais e filhos celebrando juntos, acendendo velas, cantando músicas e, bem, não seria uma festa judaica se não tivesse comida, o que em Chanucá significa sonhos e panquecas de batata. O judaísmo não é a religião da cozinha, mas é certamente a religião da casa.
E aqui vai minha reflexão para o dia. Nos últimos dias, após o lançamento do Instituto Nacional da Família e dos Pais, houve um intenso debate sobre o futuro da família, e eu suspeito que ele vá continuar por muito tempo no novo milênio. Seria a família – refiro-me a pai, mãe e filhos ligados por um vínculo estável de amor – apenas um fenômeno passageiro? Podemos viver sem ela? Seria ela apenas um entre muitos estilos de vida? Como você responde essas questões de forma mais que subjetiva?
Uma das vantagens de ser parte de uma religião antiga é que, não importa o quanto um problema pareça novo, nossos antepassados ​​já passaram por ele e transmitiram sua experiência para nós. No tempo de Chanucá, 2.200 anos atrás, os gregos dominavam o mundo. Seu poder parecia invencível. E os judeus – bem, eles eram um povo minúsculo... Ainda assim, em poucos anos a Grécia começou seu declínio e queda, mas os judeus e o judaísmo sobreviveram, e ainda vivem.
Qual foi a diferença? Os gregos se concentravam na política e no Estado. Os judeus puseram sua fé em algo menor: a família e o lar. De alguma forma, ao fazerem isso, eles chegaram a uma grande verdade: que quando as famílias são fortes, os filhos são fortes, e eles podem encarar o futuro sem medo. Quando as famílias são fracas, os filhos crescem ansiosos e confusos, e uma civilização começa seu declínio. O futuro do nosso mundo não será decidido pelo Euro, pela internet ou pelas sondas espaciais para Marte, mas, sim, por quanto valorizamos os nossos filhos – pela chama que acendemos em casa.
Hoje em dia, raramente passamos uma semana sem o anúncio de alguma nova descoberta científica de tirar o fôlego, principalmente se ela estiver relacionada aos resultados do maior projeto de pesquisa de todos os tempos: o mapeamento do genoma humano, a decodificação da própria vida. Há alguns dias, cientistas britânicos anunciaram haver concluído a primeira fase, o roteiro do cromossomo 22, um dos 23 que compõem o perfil genético humano. Depois, veio a notícia de que uma equipe americana havia elaborado uma fórmula para a criação de novas formas de vida em laboratório.
Por quaisquer padrões, este é um momento extraordinário. O século 19 girou em torno da tecnologia industrial; o século 20 concentrou-se na tecnologia da informação. Mas o século 21 será a era da biotecnologia, e as questões que ela vai suscitar serão formidáveis.
De fato, a boa notícia é ótima. Há uma chance real de que, em breve, os cientistas serão capazes de isolar as causas e encontrar curas para toda uma série de doenças genéticas, como a doença de Huntington e a fibrose cística. Eles poderão até mesmo descobrir novas formas de tratamento para doenças cardíacas congênitas e alguns tipos de câncer, como a leucemia.
Mas as outras possibilidades são bem mais problemáticas. Existe a questão da clonagem aplicada a seres humanos. Há a perspectiva de que os cientistas possam criar animais transgênicos ou formas de bactérias e vírus inteiramente novos. Há até a possibilidade de se criar bebês projetados, crianças que nasçam com genes artificialmente avançados, o que os tornaria super-mega-brilhantes ou bonitos. Pela primeira vez na história, temos o poder de mudar a composição genética da vida na Terra, e o cientista Edward Wilson diz, com razão, que isto representará a mais profunda escolha intelectual e ética que a humanidade já encarou. Então, como devemos proceder?
Logo no início, a Bíblia faz uma declaração extraordinária. Durante seis dias Deus criou. Mas o dia que a Bíblia chama de santo é o sétimo dia, o dia no qual Deus parou de criar. Mesmo para Deus há limites, e agora sabemos que os limites nos quais a vida pode florescer são realmente muito sutis.
Nem tudo que podemos fazer devemos fazer. Uma coisa é usar a tecnologia para curar; outra, é fazer mudanças genéticas que terão consequências incalculáveis ​​no futuro. A vida é uma dádiva de Deus, e nós somos seus guardiões. Então, quero propor um novo conjunto de três “erres” para nos acompanhar no próximo século: Responsabilidade, Reverência e Restrição. Nunca precisamos deles mais do que agora.
Na noite do próximo domingo, os judeus de todo o mundo estarão nas sinagogas para o início do Iom Kipúr, o nosso Dia do Perdão, o dia mais sagrado do calendário judaico. Por 25 horas não comemos nem bebemos, passamos o dia todo em oração, e acho que não há qualquer outro momento em que sentimos mais intensamente a presença de Deus.
Mas este ano, enquanto esse dia se aproxima, nossos corações estão pesados, sentimos em nós mesmos a dor do conflito na Terra de Israel. A violência e o derramamento de sangue que seriam trágicos em qualquer momento, agora são sentidos duplamente, pois eles não vêm como resultado da guerra, mas da busca pela paz. Como muitos em ambos os lados, eu sinto isso de forma pessoal. Dois dos meus irmãos moram em Jerusalém. Nossa filha está estudando lá agora. E quando estou na sinagoga, não consigo deixar de perguntar: por que a paz é tão difícil, principalmente na terra que Deus chamou de Sua, e em Jerusalém, a cidade cujo nome significa paz?
Minha própria resposta, por mais polêmica que possa ser, é esta: a paz é difícil porque, para ambos os lados, significa um abandono – abandonar o passado e os nossos sentimentos de injustiça. Como é possível abandonar essa dor? Assim mesmo, temos que fazê-lo para o bem dos nossos filhos e do futuro de judeus e muçulmanos, porque senão estaremos diante de um interminável ciclo de retaliação e vingança. Há apenas uma maneira de quebrar esse ciclo, que é responder à violência com a busca renovada pela paz.
E este é o significado do Iom Kipúr. É sobre romper o apego trágico ao passado. Ser humano significa que cometemos erros, magoamos outras pessoas, causamos dor. Mas nesta época do ano tentamos corrigir essas falhas. Pedimos desculpas àqueles que prejudicamos, perdoamos quem nos tenha prejudicado e respondemos ao chamado de Deus para transformar inimigos em amigos. Talvez a mensagem mais profunda do Dia do Perdão é que nunca é tarde demais para começar de novo.
E é isso que o Oriente Médio precisa agora. Ele precisa de políticos capazes de traçar um cessar-fogo. Mas ele precisa de mais. Faz-se necessária a coragem dos homens e mulheres comuns, israelenses e palestinos, para abandonar o passado e recomeçar de novo, sabendo que, por meio da paz, podemos alcançar o que nenhum de nós jamais alcançará por meio da violência. Só há uma coisa mais poderosa do que as armas de destruição: as palavras de perdão e reconciliação. Eu peço a Deus que as encontremos agora.

Na terça-feira que vem estarei em Belfast para o Dia em Memória do Holocausto. Este ano, vamos lembrar não só a destruição de dois terços da população judaica da Europa, como também a tragédia devastadora em Ruanda, na primavera de 1994, quando um conflito brutal ceifou a vida de mais de 800.000 pessoas num período de 100 dias.
Eu me lembro quando o Dia em Memória do Holocausto foi anunciado pela primeira vez, em 27 de janeiro de 2000. Eu estava em Estocolmo, quando mais de 20 chefes de Estado europeus se reuniram e comprometeram-se a manter um programa permanente de educação sobre os males do genocídio. Na época, as pessoas perguntavam: “Por que precisamos nos lembrar? Isso tudo ficou no passado.” Desde então tivemos o 11 de Setembro, as guerras no Afeganistão e Iraque, repetidos atos de terrorismo em todo o mundo e quem sabe o que mais nosso tempo tenso e conturbado pode nos trazer.
Existe apenas uma cura para o vírus do ódio: a educação. Há dois anos, fui a uma escola no sul de Londres para o Dia em Memória do Holocausto. Os alunos vinham de 43 grupos de idiomas diferentes, de quase todas as religiões e etnias que se possa imaginar, e juntos ouvimos dois alunos, um muçulmano e outro da África, falando sobre uma visita que haviam feito a Auschwitz e como ela tinha mudado a vida deles.
Todos ficaram em silêncio absoluto. Quando a reunião terminou e as pessoas estavam saindo, algumas das crianças de 11 anos de idade na fileira da frente me chamaram e disseram: “Senhor, nós queremos que saiba que, se alguém incomoda outra pessoa na escola, nós estamos lá para protegê-la. Não permitimos qualquer tipo de racismo aqui.” E eu pensei: se momentos como este pudessem ser replicados pelo mundo, quanta dor poderíamos evitar e quantas vidas poderíamos salvar nos próximos anos.
E então me lembrei de uma das frases mais comoventes da Bíblia, quando Moisés, pouco antes de sua morte, volta-se para as crianças da próxima geração e diz: “Não odeiem os egípcios, porque vocês foram estrangeiros na terra deles.” Não odeie as pessoas que perseguiram seus pais e fizeram de suas vidas um inferno? Como ele pôde dizer uma coisa dessas? Mas a verdade é esta: ele sabia que para se construir uma sociedade livre é preciso abandonar o ódio. Sem isso, ele poderia ter tirado os israelitas do Egito, mas não teria tirado o Egito dos israelitas. Foi isso que Moisés ensinou às crianças de seu tempo, e é o que devemos ensinar às crianças do nosso.
Amanhã à noite e no dia seguinte, vamos comemorar a festa de Purim. Relembraremos os acontecimentos descritos no Livro de Ester, que registra a primeira autorização de genocídio, o decreto de Haman para “destruir, matar e exterminar todos os judeus, jovens e velhos, mulheres e crianças, em um só dia”. Esse plano foi impedido, e é por isso que celebramos. Mas não faz muito tempo ele foi revivido na conferência de Wannsee, em janeiro de 1942, quando a Alemanha adotou a chamada “Solução Final” para o problema judaico, por meio da eliminação de todos os judeus da Europa.
É com esse histórico que hoje de manhã eu vou a uma cerimônia em honra à memória de um dos verdadeiros heróis do século 20: o diplomata sueco Raoul Wallenberg. Wallenberg foi enviado, aos 32 anos de idade, para fazer parte da missão diplomática sueca em Budapeste, em julho de 1944. Nessa época, o extermínio em massa dos judeus húngaros estava em andamento. Mais de 400.000 deles já haviam sido assassinados em Auschwitz.
Com coragem, imaginação e um senso de propósito inflexível, ele resolveu fazer o que fosse possível para salvar pelo menos alguns dos que restavam. Ele imprimiu e entregou passaportes suecos. Ele criou casas seguras onde os judeus pudessem se refugiar. Em alguns casos, ele chegou a resgatar pessoas que já tinham embarcado nos trens de transporte. E ele conseguiu atrasar o massacre do gueto de Budapeste, planejado por Eichmann, de modo que, quando os russos chegaram à cidade dois dias depois, eles encontraram mais de 90.000 judeus ainda vivos. De uma forma ou de outra, ele salvou mais de 100.000 vidas.
Não sabemos até hoje o que aconteceu com ele. Suspeito de ser um espião americano, foi levado para a Rússia, e todos os seus vestígios desapareceram. Ele continua sendo um herói sem túmulo. Mas, enquanto a humanidade se lembrar daqueles dias, o seu nome continuará a ser um símbolo de coragem em face do mal aparentemente invencível. Ele se manteve firme. Ele se recusou a ser intimidado. Ele resistiu, ciente de que, em tempos sombrios, nossas ações fazem a diferença. O bem que fazemos continua vivo mesmo depois que tivermos partido, e é a melhor coisa que deixamos de nós.
Há 2.000 anos, os sábios disseram: “Uma única vida humana vale tanto quanto todo o universo.” Salve uma vida e você estará salvando um mundo. Mude uma vida e você estará começando a mudar o mundo. Esse foi Raoul Wallenberg. E numa época como a nossa, de ódio religioso e terrorismo global, a mensagem dele não poderia ser mais clara. Amar a Deus é reconhecer Sua imagem em um rosto humano, especialmente naquele cujo credo, cor ou cultura é diferente do nosso. Que a memória dele nos inspire.
Os jornais de ontem publicaram reportagens sobre algumas observações feitas pelo Príncipe de Gales em solidariedade a pais divorciados que lutam para ter mais contato com seus filhos. E hoje acontece uma conferência em Edimburgo para discutir formas de apoiar relacionamentos mais positivos entre pais e filhos.
Lembro-me vividamente de uma manhã, há alguns meses, quando fiquei preso num engarrafamento de trânsito a caminho da rádio para fazer o programa Reflexões para o Dia, e descobri que o que tinha parado o trânsito era um pai divorciado vestido de Papai Noel, que protestava por se considerar injustiçado numa disputa pela guarda dos filhos.
E posso afirmar que sou simpático à sua causa, porque os filhos precisam ter a chance de desenvolver um relacionamento com ambos os pais naturais. Afinal, nenhuma criança pediu para nascer. Esta foi uma responsabilidade que duas pessoas assumiram ao trazê-la ao mundo, e nenhuma das duas, em quaisquer circunstâncias, deve ter o exercício da paternidade negado.
O problema é que atualmente o divórcio se tornou muito comum e muitas vezes muito amargo. Cada lado busca uma vitória legal sobre o outro e, não importa quem ganhe, normalmente são as crianças que saem perdendo...
A paternidade em si tornou-se problemática em nossa cultura. Percebi como as coisas estavam ruins pela primeira vez na década de 1980. Eu estava dando uma palestra sobre a vida em família para um grupo de judeus e cristãos no Norte da Inglaterra e, depois, um vigário local veio até mim e disse: “Eu passei a minha vida inteira ensinando às crianças que ‘Deus é Pai’, mas não consigo mais fazer isso. Eles não entendem o que eu estou dizendo. E a palavra que eles não entendem não é ‘Deus’; é ‘Pai’!”
Na realidade, é a paternidade que faz a humanidade diferente da maioria das espécies de primatas. Geralmente são as fêmeas que cuidam das crias, de modo que, algumas semanas depois do nascimento, muitos machos nem sequer reconhecem seus próprios filhos. A maternidade é biológica e quase sempre forte. A paternidade é cultural e quase sempre precisa de apoio. Na verdade, eu suspeito que seja por isso que a Bíblia fala tantas vezes de Deus como Pai, não porque Deus é do sexo masculino, nem a fim de criar uma sociedade patriarcal, mas simplesmente para moralizar e dignificar a responsabilidade paterna. Como um bom Pai, Deus se preocupa com Seus filhos. Ele os protege, ouve suas esperanças e temores, e quando eles recorrem a Ele, Ele está lá.
É por isso que precisamos apoiar ambos os pais, mesmo quando eles se separam. Os filhos precisam de tempo com ambos – e são as necessidades deles que realmente contam.
“Ó! Como está solitária, qual uma viúva, a cidade que outrora fora grandiosa entre as nações.” As palavras do Livro das Lamentações passaram pela minha mente quando soube dos terríveis acontecimentos de ontem em Madri. E tudo o que podemos oferecer ao povo da Espanha é a solidariedade humana ao sofrimento, nossas vozes unidas em oração pela cura dos feridos, consolo para os que estão de luto, coragem para os sobreviventes e força para os que ainda estão envolvidos nos resgates.
Esta foi uma ação perversa. De escopo devastador e consequências trágicas. E eu me sinto ainda mais sensível por ter acabado de viajar a Jerusalém para visitar as vítimas do terrorismo lá. Raramente observamos seus efeitos a longo prazo. Por um ou dois dias, a notícia de uma atrocidade preenche nossas telas e, em seguida, a atenção da mídia se dirige para outra coisa. Mas o que é deixado para trás são vidas despedaçadas – cicatrizes, traumas e tristeza que talvez nunca se recuperem por completo.
Sentamos com um menino de 11 anos de idade que tinha perdido metade da família quando uma bomba explodiu em um restaurante, e ele, mesmo agora, estava cego. Sentamos com outras crianças que estavam a caminho da escola quando seu ônibus explodiu, matando seus amigos e mudando seu mundo para sempre.
É isso que faz o terror ser muito pior do que a guerra. Na guerra há um campo de batalha. No terror, uma loja, um escritório, um trem podem se tornar um campo de batalha. Na guerra existem alvos. No terror, qualquer um pode ser um alvo – os inocentes, os transeuntes, pessoas sem qualquer envolvimento. Na guerra há uma lógica. No terror não há nenhuma lógica, porque nunca houve nem nunca haverá qualquer coisa obtida por meio dele que não poderia ter sido por outros meios. Nenhum governo responsável pode negociar com o terrorismo, porque ceder a ele não acaba com ele, apenas o estimula ainda mais. O terror é indefensável. Ele nasce não do desespero, mas do desprezo. É a destruição pela destruição.
E que ironia isso ter acontecido justamente na Espanha, onde um dia, há mil anos, judeus, cristãos e muçulmanos viviam juntos da forma mais pacífica e criativa do que em qualquer outro lugar da Europa medieval.
Hoje, em todo o mundo, a própria alma da liberdade está sendo testada. Não é por acaso que estas bombas explodiram poucos dias antes de uma eleição geral, porque o terror é o pior inimigo da liberdade: ele é a tentativa de não dialogar, de matar aqueles dos quais discorda. É por isso que ele sempre fracassará. O amor pela vida sempre derrotará o desprezo pela vida. Querido Deus, permita que isso aconteça em breve.

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