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  • Dezenove Cartas sobre Judaísmo

Dezenove Cartas sobre Judaísmo

Autor: Shimshon Raphael Hirsch
Editora: Sêfer
SKU: 148
Páginas: 140
Avaliação geral:

Esta primeira obra do Rabino Hirsch (1808-1888) publicada em português apresenta sua profunda visão do judaísmo. Seu conceito de Torá im Direch Érets, que criou uma ponte sólida entre a modernidade e o espírito e as práticas da Torá, revolucionou a educação judaica e o judaísmo no século 19 e é aplicado até hoje com enorme sucesso pela neo-ortodoxia, que cumpre os mandamentos Divinos integrada à sociedade laica.

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Descrição

Esta primeira obra do Rabino Hirsch (1808-1888) publicada em português apresenta sua profunda visão do judaísmo, através da troca de correspondências entre um jovem intelectual e seu filosófico rabino.
Seu conceito de Torá im Direch Érets, que criou uma ponte sólida entre a modernidade e o espírito e as práticas da Torá, revolucionou a educação judaica e o judaísmo no século 19 e é aplicado até hoje com enorme sucesso pela neo-ortodoxia, que cumpre os mandamentos Divinos integrada à sociedade laica. É um daqueles livros capaz de mudar toda uma vida!

Capa flexível.

"Quanto ao livro 
19 Cartas sobre o Judaísmo, do Rabi Hirsch, achei excelente! Uma preciosidade que todos deveriam ler. Vê-se quão perenes são sua ideias, suas colocações e a propriedade e acuidade ao abordar temas tão comuns de nossas vidas. Seus comentários nos enriquecem e, acima de tudo, parecem escritos e proferidos hoje! Estou gostando muito. Cada carta é tão profunda e inovadora, que decidi ler uma a cada dia, após minhas orações matinais, como Lectio Divina. Após a leitura e meditação de cada frase, parágrafo que nos toca mais intimamente, medito e faço um exame de minha vida e agradeço a Deus por tudo que me propiciou nesses meus anos de vida e por fim solicito a Ele que continue do nosso lado.
Parabéns pela apresentação, pelo layout e tudo mais, e pela tradução do Dr. Auro e do Metzner com a sua edição final, colocando-o numa linguagem clara, sintética, objetiva e de fácil leitura, que atrai a atenção do leitor.  Espero adquirir outros da série."
Comentário de um eminente teólogo cristão


Índice e trechos

Índice

Prefácio dos Tradutores

O Rabino Hirsch e seu Tempo

Carta 1: A Queixa de Benjamim

A Resposta

Carta 2: A Maneira Correta

Carta 3: Deus e o Mundo

Carta 4: O Homem

Carta 5: Educação

Carta 6: História

Carta 7: Israel entre as Nações

Carta 8: A Criação do Povo Judeu

Carta 9: O Exílio

Carta 10: A Classificação das Mitsvót

Carta 11: Torot, Mishpatim, Chukim

Carta 12: As Mitsvót

Carta 13: Edot

Carta 14: Avodá

Carta 15: Resposta

Carta 16: Emancipação

Carta 17: A Reforma

Carta 18: Ainda sobre a Reforma

Carta 19: Os Ensaios

Prefácio

Prefácio dos Tradutores

Foi um privilégio trabalhar nesta obra excepcional do célebre rabino Shimshon Raphael Hirsch Z”L, a primeira a ser traduzida na íntegra para o português. Escrita originalmente em alemão, revela-se tão importante hoje quanto no século 19, quando foi publicada a primeira vez.

Em nome da fidelidade absoluta ao conteúdo, utilizamos duas traduções do alemão para o inglês – uma feita pelo rabino Bernard Drachman, em 1899, e a outra, pelo rabino Joseph Elias, em 1995. Comparamos também o texto em português ao original em alemão. Apesar da força do tema central, optamos por inserir algumas adaptações idiomáticas que, esperamos, ampliarão a compreensão das idéias expostas.

Com o mesmo objetivo, elaboramos uma introdução sobre a vida e a produção literária do autor. Fazem parte desta edição as notas explicativas do próprio rabino Hirsch (SRH), mais as notas da tradução norte-americana assinada pelo rabino Joseph Elias (JE), além das notas dos tradutores (NT). Cada carta também recebeu um título segundo sua característica mais marcante. Chegamos a estes  títulos através de consultas a diferentes traduções para a língua inglesa.

A edição final coube ao professor Jairo Fridlin, que manteve intacto o espírito do texto ao imprimir um tom mais coloquial à linguagem. Seu objetivo, não por acaso o mesmo do autor, na época, foi o de incentivar o questionamento e o debate sobre os caminhos da religião entre os jovens. Porque este é um livro dedicado a eles.

Auro del Giglio

Ricardo Metzner

O Rabino Hirsch e seu Tempo

por Auro del Giglio

O conflito religioso enfrentado hoje por tantos judeus afligiu um bom número de seus antepassados no século 19. As discussões são menos acirradas, e grande parte do antagonismo diluiu-se no tempo. Mas o conflito permanece. Com exceção dos ultra-ortodoxos, por um lado,  e dos definitivamente reformistas, por outro lado, a verdade é que ainda não conseguimos conciliar os valores eternos que definem nossa identidade às manifestações do espírito liberal trazido pelo Iluminismo europeu há 200 anos. A fé inabalável em Deus e a preservação das tradições certamente dificultam a integração dos judeus religiosos às sociedades ocidentais que submeteram-se ao racionalismo e ao materialismo. O racionalismo produziu homens ine-briados pela ilusão de poder conferida pelo desenvolvimento científico.

O tempo passou, escolas filosóficas saíram de moda, a humanidade vê-se frente a frente com a fragilidade da vida. É neste contexto, definido pelo excesso de incertezas e a escassez de convicções, que os judeus tentam mais uma vez resolver o antigo conflito e, quem sabe, apaziguar suas almas. A diferença é que hoje contamos com uma perspectiva histórica de 200 anos. É uma diferença importante.

O rabino Shimshon Raphael Hirsch Z”L oferece-nos uma brilhante alternativa para lidar com o desafio em questão: “Torá im Dérech Érets” – a integração do modus vivendi ocidental à uma vida judaica tradicional, baseada na estrita observância da Torá. Os fundamentos deste conceito foram descritos e comentados pelo rabino Hirsch em duas de suas obras: “Dezenove Cartas” e “Horeb”. Em “Dezenove Cartas”, ele nos brinda com as bases de seu pensamento filosófico de uma forma indiscutivelmente clara. Em “Horeb”, nos oferece explicações racionais das práticas religiosas judaicas. O rabino Hirsch  não apenas criou e aperfeiçoou o conceito de “Torá im Dérech Érets”. Ele provou sua viabilidade na prática, através da congregação que formou em Frankfurt, dotada de uma sinagoga e de uma escola.

O Iluminismo e a Emancipação

A aplicação do raciocínio lógico a todas as áreas do conhecimento humano através de uma metodologia científica que garantisse a validade das conclusões obtidas foi a base do Iluminismo, movimento intelectual que floresceu na Europa nos séculos 17 e 18. O processo chegou também ao cristianismo, examinando-o à luz da razão. Ao Cisma, seguiu-se a Reforma liderada por Lutero, que deu origem ao protestantismo. Também nasceu da Reforma o que se convencionou chamar de “religião natural”. Para os iluministas, a “religião natural” tinha a razão como fundamento, apesar da crença em um Deus que seria uma espécie de arquiteto, ainda que distante do mundo que havia criado. A “religião natural” falava na busca da virtude no homem e de poucas coisas mais. Não passava de uma coleção de deduções facilmente obtidas a partir da aplicação da razão.

O Iluminismo, ou Hascalá, como era chamado o movimento em hebraico, espalhou novidades também dentro da comunidade judaica na Alemanha do rabino Hirsch. O uso do alemão em substituição ao ídishe foi incentivado. O currículo de escolas judaicas passou a incluir disciplinas laicas. E cresceu o desinteresse pelo estudo do Talmud. Os iluministas judeus, ou Maskilim, trataram de buscar a cultura humanística contida nos textos de filosofia clássica, com o intuito de integrarem-se aos meios intelectuais gentios.

Mas não só o Iluminismo foi responsável pela confusão de valores e prioridades que caracterizou o judaísmo da época. A partir da metade do século 18, depois da Revolução Francesa, os judeus da Europa passaram a viver uma enorme mudança, em paralelo ao auge do movimento intelectual: a Emancipação. Direitos e deveres de cidadãos, até então negados, começaram a ser concedidos. Crescia a integração com a burguesia local, e tanto capitalistas quanto intelectuais judeus aproximavam-se cada vez mais dos gentios.  Pouco a pouco, assimilavam suas regras de etiqueta e seu estilo de vida. Não é difícil imaginar que, a partir daí, esta parcela da coletividade quisesse apagar os traços de um passado que a havia segregado. Emancipados, donos do próprio nariz, os judeus que queriam sair do gueto – literal e figurativamente – não poupavam esforços. A tendência se fez sentir com grande intensidade nas comunidades  alemãs. Foi delas, portanto, que partiram as reações mais significativas.

De um Extremo a Outro

As reações da comunidade em relação ao que estava acontecendo não obedeceram a nenhum padrão. Houve de tudo, desde a mais completa rejeição às mudanças até conversões voluntárias ao cristianismo como meio de integração total à grande sociedade. Entre os extremos, tomaram forma três novas vertentes do judaísmo: o reformismo, o conservadorismo, e a postura preconizada e adotada pelo rabino Hirsch, “Torá im Dérech Érets”.

Os judeus ortodoxos, radicalmente contrários às influências do Iluminismo, também se fizeram ouvir. O rabino Chatam Sofer, que viveu na Alemanha de 1762 a 1839, homem de privilegiada erudição, profundo conhecedor do Talmud e da Cabalá, estava entre os que levantaram a voz. De sua Ieshivá em Pressburg, saíram rabinos que lideraram importantes congregações ortodoxas em toda a Europa. Porta-voz da comunidade junto às autoridades locais, o rabino Sofer não se cansava de repetir com veêmencia para seus estudantes e seguidores a expressão “Chadash Assur min haTorá”, que pode ser traduzida como “o novo é proibido pela Torá”. Deixava clara, assim, sua certeza  de que qualquer inovação não permitida pela lei judaica (Halachá) seria perigosa e potencialmente prejudicial ao judaísmo. Ele também preconizava a utilização constante do código de leis judaicas — o Shulchán Aruch – como fonte essencial de consulta para os judeus ortodoxos, que deveriam seguir à risca todos os preceitos religiosos.

Diferente do que ocorreu na Europa Oriental, o rabino Sofer foi ouvido por poucos na Alemanha. Outros preferiram trilhar caminhos alternativos, como os fundadores do movimento “Ciência do Judaísmo” (“Wissenschaft des Judentums”), um grupo de intelectuais judeus assimilados à cultura alemã, entre eles Zunz, Geiger e Krochmal. O movimento, que viria a ser o sustentáculo ideológico do reformismo, basicamente utilizava uma abordagem científica para o estudo da história, cultura e religião judaicas. Em síntese, perscrutava o judaísmo através das mesmas lentes empregadas no estudo de civilizações desaparecidas e seus respectivos legados.

Segundo Rosenbloom, o rabino Hirsch teria sido influenciado pelo pensamento de Hegel da mesma forma que os adeptos da “Ciência do Judaísmo”. De fato, se examinarmos os três princípios do movimento em relação ao estudo do judaísmo, poderemos perceber similaridades com a metodologia aplicada por Hirsch  em suas obras, inclusive nas “Dezenove Cartas”. Os princípios: o judaísmo não deveria mais ser estudado de modo fragmentado, mas sim como um “todo” orgânico, compreendido de maneira ampla; o método científico de estudo teria por finalidade desvendar o judaísmo a partir de sua “essência”, ou “espírito”, e descrevê-lo sistematicamente, estabelecendo relações entre suas particularidades e o “todo”; o propósito único do estudo seria o de promover a compreensão do tema, sem preconceitos nem preocupação com a natureza das descobertas, que poderiam ser favoráveis ou não aos olhos do investigador.

Novas Vertentes

Duas novas correntes religiosas judaicas surgiram e ganharam corpo na Alemanha do século 18 , ambas com raízes no iluminismo: o reformismo e, algum tempo depois, o conservadorismo. O reformismo pregava a “legitimidade da mudança no judaísmo e a negação da validade eterna de qualquer formulação de crença judaica ou codificação da lei judaica” (Petuchowski J.J., Encyclopaedia Judaica). Aceitava incondicionalmente apenas o monoteísmo e as leis morais do judaísmo. Os demais mandamentos, a Torá e o Talmud passaram a ter questionada sua validade e compatibilidade com a época. Esta postura ficou clara nas palavras de Samuel Holdheim,  líder reformista que viveu de 1806 a 1860: “Na era rabínica, o Talmud estava correto. Em minha época, eu estou certo”. Em algumas congregações, a fase inicial e mais radical do reformismo trouxe consigo o não cumprimento de preceitos fundamentais do judaísmo, entre eles a observância do Shabat, das leis dietéticas (Cashrut), e a circuncisão. Mais tarde, extremismos como estes foram abandonados.

O conservadorismo, movimento liderado pelo rabino Zacarias Frankel, que viveu de 1801 a 1875, tinha uma cadência comparativamente mais amena. Seus adeptos apoiavam mudanças nos rituais e tradições “desde que estivessem em consonância com o processo de evolução histórica.” Na prática, rejeitavam o radicalismo que marcou os primórdios do reformismo. Continuavam a rezar exclusivamente em hebraico, a circuncidar os meninos recém-nascidos, e a seguir a Cashrut. Por outro lado, discutiam a origem Divina do mundo e do homem, contrapondo esta crença até então inabalável às descobertas científicas. Questionavam também as obrigações de caráter religioso, ou Mitsvót, como são chamadas, buscando “legitimá-las” a partir da razão. Divergindo tanto da ortodoxia quanto do reformismo, os judeus conservadores, no princípio, foram francamente hostilizados por ambos os grupos.

Enquanto o conservadorismo dava os primeiros passos, o movimento reformista atingia seu mais alto grau de popularidade até então. O ritual litúrgico em suas sinagogas foi modificado, aproximando-se daquele seguido nas igrejas protestantes da época. A música do órgão começou a fazer parte dos serviços. Foi criado um novo livro de rezas (Sidur), que continha preces em alemão e abolia todas as referências à esperança do retorno a Tsión (Israel) e à reconstrução do Templo de Jerusalém.

Assistia-se à tentativa de solidificação de um movimento que, em sua primeira infância, havia desafiado tradições e mandamentos milenares —  justamente quando chegava às portas da sinagoga do rabino Hirsch. Uma resposta por parte da comunidade ortodoxa tornava-se imperativa. E Hirsch foi seu mais eloqüente porta-voz.

O Rabino, o Autor

Nascido em 1808 em Hamburgo, Samson (Shimshon, em hebraico) Raphael Hirsch começou a estudar o Talmud com seu avô, Mendel Frankfurter. Hirsch definia seus pais como “erleuchtet religios”, ou religiosos esclarecidos. Foi no seio desta família, que se opunha veementemente ao templo reformista inaugurado em 1828 em Hamburgo, valorizava a erudição judaica e, ao mesmo tempo, apreciava a cultura humanística laica, que Hirsch cresceu. Foi discípulo dos rabinos Isaac Bernays (1792–1849) e Jacob Ettlinger (1798–1871), ambos também portadores de diplomas universitários. Em 1929,  Hirsch foi estudar na Universidade de Bonn. Elegeu línguas clássicas, história e filosofia. Data desta época sua amizade com Abraham Geiger, que mais tarde se tornaria um dos mais influentes líderes do movimento reformista alemão (posteriormente, Hirsch romperia a amizade). Aos 30 anos, foi convidado a assumir o cargo de Landesrabbiner (rabino-chefe) do ducado de Oldenburg.

Durante os 11 anos em que viveu em Oldenburg, produziu suas obras mais importantes: Dezenove Cartas sobre Judaísmo (“Neunzehn Briefe uber Judentum” ou “Igrot Zafon”,  1836) e Horeb — Ensaios Sobre os Deveres dos Judeus na Diáspora (“Horeb, oder Versuche ueber Jissroels Pflichten in der Zerstreuung”, 1837). Nestes dois trabalhos, Hirsch enuncia suas principais idéias. Inicialmente, estava planejada uma trilogia. Mas o terceiro livro, Moriah, não chegou a ser publicado. Nesta trilogia, cuja introdução consistiria nas Dezenove Cartas sobre Judaísmo, Hirsch procuraria, dentro de um contexto filosófico específico, que seria exposto com maior profundidade no Moriah, explicar através do Horeb as razões e os detalhes das diversas práticas tradicionais judaicas, de forma racional, compreensível e aceitável para os judeus alemães de sua época. Como o livro Moriah nunca foi publicado, temos apenas uma idéia do que teria sido este sistema filosófico proposto por Hirsch a partir de seu esboço nas Dezenove Cartas sobre Judaísmo.

“Dezenove Cartas sobre Judaísmo” expõe as angústias indiretamente geradas pelo movimento reformista, que acometeram muitos judeus originalmente ortodoxos. A carta inicial é de Benjamim, um judeu intelectual que está, naquele momento, bastante confuso. Ele escreve para seu amigo  Naftali, um rabino ortodoxo. Ao longo das 18 cartas restantes, Naftali aborda as bases do judaísmo ortodoxo e sua relação com a cultura universal, de acordo com a visão do autor. O livro foi extremamente bem aceito na época, e conquistou a admiração de inúmeros intelectuais judeus, incluindo o historiador Graetz que acabou mudando-se para Oldenburg para estudar sob a orientação de Hirsch.

Em 1841, Hirsch mudou-se para Emden, e de 1846 a 1851 viveu em Nikolsburg. Mas foi somente depois de 1851, quando assumiu em Frankfurt a liderança da congregação ortodoxa Adass Jeschrurun (“Israelitishe Religionsgesellschaft”), que pôde colocar suas idéias em prática. Ali, organizou uma escola primária, secundária e uma escola apenas para meninas. Em todas elas, as disciplinas religiosas e a língua hebraica constavam do currículo ao lado das matérias laicas. O sucesso em foi notório, e permitiu a Hirsch provar a eficácia de sua filosofia educacional — “Torá im Dérech Érets”.

As prédicas na sinagoga da congregação eram feitas em alemão, e os serviços contavam com um coral dirigido profissionalmente. Mas a liturgia permaneceu intocada e todas as preces continuaram em hebraico.

Hirsch foi também um prolífero escritor. Além das obras já mencionadas, deixou-nos comentários sobre o Pentateuco, sobre os Salmos e os Provérbios, e mais inúmeros ensaios sobre educação, história, simbolismo e práticas judaicas. Dotado de um conhecimento profundo do hebraico e de uma sólida cultura humanística, Hirsch desenvolveu uma capacidade de análise dos textos sagrados extraordinária, e com facilidade e precisão utilizava-os para transmitir à sua congregação e a outros judeus que vinham ouvi-lo enriquecedoras mensagens espirituais.

 Mesmo acreditando a princípio numa possível reconciliação entre o judaísmo tradicional e o reformismo a partir de um compromisso que incluiria pontos básicos da educação religiosa, o rabino acabou rompendo por completo com o movimento. A gota d’água foi a abolição de inúmeras leis sobre a Cashrut e o casamento, selada durante o primeiro sínodo reformista em Brunswick, em 1844. “Nosso pacto de unidade não mais durará e um irmão abandonará o outro em prantos”. A integridade de Hirsch fez com que, em 1876, ele conseguisse a aprovação da “Lei de Secessão” pelo parlamento prussiano. O instrumento legal tornou oficial a separação entre a comunidade ortodoxa de Frankfurt e o restante da coletividade judaica local, liderada por reformistas.

“Torá im Dérech Érets”

Segundo a proposta educacional criada e desenvolvida pelo rabino Hirsch, a integração entre as disciplinas seculares e judaicas apenas beneficia o aluno, ao ampliar sua perspectiva, estimular o estudo e intensificar a compreensão das duas  classes de matérias. Um exemplo: o momento da revelação do Sinai, explicado dentro do contexto da história da humanidade, leva a um entendimento profundo sobre o significado da Torá para o povo judeu – e também sobre a percepção que os outros povos  passam a ter sobre os judeus a partir dalí. Nas palavras de Hirsch: “Não deveriam os jovens judeus estudar a vida política das outras nações na época do ano em que os filhos de Israel festejam o recebimento da Lei, em Shavuot (Pentecostes)” (“A relevância dos estudos judaicos”, Collected Writings, volume VII, pág. 97).

De outro lado, o estudo do hebraico, por exemplo, poderia se somar ao treino do aluno em habilidades que seriam úteis para o aprendizado de matérias laicas. “O estudo do hebraico vai treinar o jovem judeu a refletir em tudo aquilo que ele percebe e a pensar em termos concretos. A reflexão  o ajudará  a entender porque ele pensa de uma determinada maneira e lhe permitirá também ganhar prática na identificação de idéias inerentes às matérias e objetos que ele observa e acerca das conexões que existem entre eles. Ele será  capaz de formular idéias e analisá-las corretamente”. (“A relevância do estudo hebraico para a educação geral” in Collected Writings, volume VII, pág. 75).

Na opinião de Hirsch, o estudo do Talmud seria uma preparação  valiosa para desenvolver um tipo de abordagem não convencional para as matérias laicas. Escreveu Hirsch: “Se sentimos que a aquisição do vocabulário hebraico pode ser um treino para a formação de idéias, é coerente considerar o estudo do Talmud como o mais instrutivo para a formulação de julgamentos lógicos e morais. Podemos ainda discernir no Talmud uma inspiradora busca pela verdade e, certamente, é nosso intuito transmiti-la aos jovens que desejamos educar”. (“A relevância do estudo hebraico para a educação geral”, Collected Writings, volume VII, pág. 79).

Munido de sólidos conhecimentos judaicos e seculares, o jovem judeu estaria então equipado, segundo Hirsch, para integrar, livre de conflitos, uma sociedade secular — sem jamais perder a visão de mundo característica do judaismo. “Acima de tudo, nossas crianças devem aprender a adotar como padrão as verdades Divinas do judaísmo. Tomando-as como exemplos, avaliarão todas as criações, opiniões, princípios e axiomas desenvolvidos por mentes não judaicas. Isto evitará que sejam atraídas por valores e objetos diferentes, independentemente de sua aparente grandeza ou esplendor. Com o tempo, se tornarão aptas a observar que, ao longo dos últimos dois mil anos, não surgiu no mundo nada que não tenha primeiro brotado na árvore do conhecimento judaico”. (“A educação religiosa” in Collected Writings, volume VII, pág. 20).

Abaixo, uma síntese dos principais pontos da “Torá im Dérech Éretz” , a proposta educacional do rabino Hirsch que transformou-se em um de seus legados mais preciosos:

1) Os conhecimentos sobre o judaísmo devem ser difundidos entre todos os judeus, e não ficar restrito a uma minoria de intelectuais e estudiosos. “A palavra de Deus é como o sangue que alimenta a vida... indivíduos... acham que podem falar e ensinar o que quiserem porque os leigos, mantidos na ignorância...  não podem contradizê-los”. (“A educação judaica”, Collected Writings, volume VII, pág. 5). 

2) É imperativo que os jovens judeus tenham acesso às Escrituras em sua forma original, no idioma hebraico. Como educador, o rabino sempre condenou a utilização exclusiva de textos didáticos como fontes de estudo. “Vocês devem levar seus filhos à Torá com freqüência”, Hirsch dizia, “para que eles aprendam a beber do ‘leite que nutre’, das ‘águas refrescantes’ e do ‘vinho revigorante’ que constituem a Palavra de Deus...” (“A educação religiosa”, Collected Writings, volume VII, pág. 15).

3) A educação judaica não deve terminar ao fim dos anos de escola. Mas o sucesso da continuidade depende, em grande parte, do tipo de educação recebido na infância e juventude. Se o contato com as Escrituras Sagradas e a literatura rabínica em geral tiver sido intenso e estimulante, sempre com acesso aos originais em hebraico, o interesse se manterá para sempre. Segundo o rabino,“o jovem, o homem maduro e até o idoso devem continuar seus estudos como dicípulos de Deus, de seus Profetas e Sábios.” (“A educação religiosa” in Collected Writings, volume VII, pág. 18).

4) Professores habilitados a ensinar jovens dentro do regime que reúne matérias religiosas e laicas precisam ter excelente preparo em ambas as áreas, e compreender a fundo o propósito e o potencial deste tipo de educação. Sobre os docentes, Hirsch dizia: “Escolham professores que tenham sido educados de acordo com o judaísmo e que sejam, ao mesmo, judeus educados —  professores cujos corações e mentes estejam enraizados no judaísmo, mas que também saibam apreciar os valores judaicos sob a perspectiva do mundo exterior, e examinar os valores desse mundo à luz do judaísmo.” (“A educação religiosa” in Collected Writings, volume VII, pág. 23).

5) “É essencial que existam escolas onde se cultivem os ideais acima descritos, e onde o ensino seja baseado no respeito total às particularidades do aluno, ao seu ritmo pessoal de aprendizado”, disse o rabino. Ainda de acordo com ele, o ensino tem por obrigação primar pela clareza, iniciando-se com a exposição de fatos e dados seguida pela análise dos mesmos. A função do educador seria a de “plantar sementes no educando”, sementes que mais tarde tornam-se frutos, prontos para serem colhidos durante toda a vida futura do indivíduo. (“Conselhos ao educador” in Collected Writings, volume VII, págs. 139-150).

6) De nada vale uma educação escolar adequada se ela não encontrar eco na casa do aluno. A integração entre lar e escola é fundamental dentro da filosofia “Torá im Dérech Éretz”.  “A função de educar é comum a ambos... o trabalho deve ser conjunto”, afirmou Hirsch. (“Princípios da Educação” in Collected Writings, vol VII, pág. 7).

A filosofia educacional do rabino Hirsch difundiu-se e hoje encontra tem em todo o mundo pedagógico. Escolas que integram o ensino das duas classes de conhecimento estão espalhadas por toda parte. Ao converter crianças e jovens em eternos estudantes, o modelo estimula sua percepção do mundo externo ao universo do judaísmo como mais uma das manifestações Divinas, e como mais uma das muitas portas de acesso ao Criador.

O rabino Norman Lamm, presidente da renomada Yeshiva University, em Nova York, comenta a “Torá im Dérech Éretz” em seu livro “Torá Umadá”:

“O conceito de “Torá im Dérech Érets”, hoje vivenciado nos currículos de inúmeras instituições educacionais, é o alicerce da  educação de muitos jovens judeus na atualidade. Nosso ponto de partida é a convicção de que, quando falamos de Torá e “Madá”(conhecimento secular), não o fazemos movidos por necessidades práticas ou econômicas, ou porque suspeitamos de qualquer imperfeição ou inadequação da Torá mas, sim, porque afirmamos que ambos, a Torá e a Natureza, são resultados da revelação Divina. Da mesma forma que Deus é Único, também  não há divisão entre Sua palavra e Seu mundo. Portanto, o estudo da Torá é a revelação de Deus como Mestre (como na bênção “Hamelamed Torá Leamo Israel”, “Ele que ensina Torá para Seu povo Israel”), e “Madá” é o estudo de suas realizações como Criador. Deus como Criador é o foco do Gênesis, o primeiro livro da Torá, e Deus como Mestre é o foco do Êxodo, o segundo livro. Ambos “são dados por um só Pastor” (Eclesiastes, 12:11).” ... a resposta intuitiva às maravilhas e belezas da Natureza inspira o indivíduo a louvar  seu Criador que, por sua vez, está revelado em Sua criação.”


Referências:

1) Dubnow, Simon. “História Judaica”, Livraria S. Cohen, Rio de Janeiro, 1948.

2) Encyclopaedia Judaica, CD-ROM Edition. Judaica Multimidia. Jerusalém, 1997.

3) Frank DH, Leaman O, Menekin CH., “The Jewish Philosophy Reader”. Routledge. London, 2000.

4) Jacobs L., “The Jewish Religion: a Companion”, Oxford University Press. New York, 1995.

5) Johnson Paul, “História dos Judeus”, Imago Editora, Rio de Janeiro, 1995

6) Hirsch S.R., “The Nineteen Letters of Ben Uziel”, Funk & Wagnalls Co. New York, 1899. (Tradução de Bernard Drachman)

7) Hirsch S.R ,”The Nineteen Letters”, Feldheim Publishers. Jerusalem, 1995. (Tradução e comentários de Joseph Elias).

8) Hirsch S.R., “Torah im Derech Eretz”, “Collected Writings”, volume VII. Feldheim  Publishers. Jerusalem, 1997, second edition..

9) Hirsch S.R., “Horeb: a Philosophy of Jewish Laws and Observances”, The Soncino Press. New York, 1994, Fifth Edition.

10) Klugman E.M.; Rabbi Samson Raphael Hirsch: “Architect of Torah Judaism for the Modern World”, Mesorah Publications, Artscroll. New York, 1996.

11) Lamm Norman, “Tora Umada”, Aronson. Northvale, 1994, Second Edition.

12) Levenson AT., “Modern Jewish Thinkers”, Aronson, Northvale, 2000.

13) Rosenbloom NH., “Tradition in an Age of Reform: the Religious Philosophy of Samson Raphael Hirsc”, The Jewish Publication Society of America. Philadelphia, 1976.

14) Wein B., “Triumph of Survival: the Story of the Jews in the Modern Era, 1650-1990”. Shaar Press. New York, 1990.

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