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A Ética do Sinai (Pirkê Avot)

Ensinamentos dos Sábios do Talmud
Autor: Irving M. Bunim
Editora: Sêfer
SKU: 337
Páginas: 720
Avaliação geral:

Minienciclopédia de conhecimento ético-talmúdico-universal e esplêndida coletânea de máximas, aforismos e "causos" dos sábios que lutaram para que o saber milenar do judaísmo fluísse e chegasse às futuras gerações. O texto adicional dessa obra de mais de 700 páginas analisa e ilustra cada ideia, ensinamento e reflexão do Tratado de (Pirkê) Avót com dezenas - talvez centenas! - de relevantes passagens misteriosas do Talmud.

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Descrição

Um dos mais importantes livros sobre judaísmo publicados em português em todos os tempos está de volta, já na 7ª edição, mas completamente reformulado graficamente.
Os textos que compõem este livro nasceram das concorridas conferências que o autor fez ao longo de mais de quatro décadas sobre a Ética dos Pais, o mais breve e, possivelmente, um dos mais importantes tratados do Talmud.
Segundo profundos conhecedores da literatura rabínica, o Pirkê Avót, como é chamado este tratado em hebraico, contém em si a essência da Torá - seu código ético e moral, brilhantemente aplicado à vida cotidiana através dos ensinamentos de 67 sábios do Talmud (suas biografias encontram-se no final da obra e, certamente, fascinarão o leitor).
Irving M. Bunim, um dos expoentes do judaísmo ortodoxo norte-americano deste século, dedicado estudioso e orador privilegiado, levou as lições contidas no Pirkê Avót a centenas de milhares de pessoas. Viveu em profunda harmonia com aquilo que transmitia: propagou a Torá aos jovens imigrantes que chegavam aos Estados Unidos já nos anos 20, evitando que sua herança judaica se perdesse em meio à cultura emergente da época, ajudou financeiramente a centenas de famílias e instituições e salvou dezenas de milhares de pessoas da morte ao interceder pessoalmente junto ao governo norte-americano para que as cotas de imigração fossem ampliadas durante a Segunda Guerra Mundial.
O tema deste livro e a estatura do autor tornam sua leitura obrigatória a todos aqueles que desejam chegar ao âmago do pensamento judaico.


Durante muitos anos esperei por uma tradução comentada do Pirkê Avót em português e saudei, com grande alegria, o lançamento de A Ética do Sinai pela Editora Sêfer.
O tratado Pirkê Avót é o mais importante conjunto de ditos de natureza ética conservado pelos sábios judeus durante muitos séculos. É um grande guia de vida. Um justo pode ser definido pelas suas palavras. Por isso, esta não é uma obra de leitura obrigatória apenas para a comunidade judaica, mas para todos os homens e mulheres de bem que querem estar aos pés da Sabedoria.

Prof. João Bosco Lodi

Índice e trechos

Índice

 

Sobre o autor ........................................................... 7

Prefácio do editor norte-americano................. 8

Tributo a Irving Bunim .......................................... 9

A palavra do adaptador da obra ................... 10

Prefácio dos editores brasileiros ................... 11

Introdução ............................................................ 15

Mishná Introdutória ......................................... 23

Mishná Conclusiva ........................................... 29

Capítulo 1 ............................................................ 35

Capítulo 2 ........................................................... 101

Capítulo 3 ........................................................... 171

Capítulo 4 ........................................................... 261

Capítulo 5 ........................................................... 399

Capítulo 6 ........................................................... 555

Biografias ........................................................... 661

Notas ..................................................................... 687

Posfácio ............................................................... 719

 

Capítulo 1 - Mishná 6

Iehoshúa ben Peráchia e Nitai de Arbel receberam (ensinamento) deles. Iehoshúa ben Peráchia diz: Arranja um mestre, adquire um amigo e julga todo homem com indulgência.

 

Se você realmente seguir o conselho anterior e tornar o seu lar um lugar de reunião para os sábios, logo descobrirá que existem diferentes caminhos dentro do judaísmo. Existem os chassidim e os mitnagdim, os místicos e os racionalistas. Logo depois de ficar ciente das diferenças, é importante que você adote uma abordagem específica e prossiga aprofundando sua religiosidade num modo consistente e sistemático. Um diletantismo sem rumo no judaísmo pode levar à confusão e à perplexidade. Por conseguinte, adverte o Rabi Iehoshúa ben Peráchia, "arranja um mestre". Escolha um rabino e siga o seu dérech - sua abordagem. No domínio do judaísmo prático, isto também levará à clareza e à certeza.

"Arranja um mestre." Comprometa-se com a sua autoridade e acate suas decisões. Se ele disser que um produto é casher, você não precisa conferir com cinco outros rabinos. Escolha uma pessoa qualificada em quem você possa ter confiança.

 

Adquire um amigo

 

Seguir este ditado envolve um processo que é um tanto complexo. Você pode tornar alguém seu mestre porque o relacionamento é bastante unilateral. A amizade, porém, é uma relação de dar e receber. Um amigo, portanto, tem de ser "comprado", não com dinheiro, é claro, mas com atenção, preocupação e amor. A amizade não vem de graça; ela requer o seu tempo e consideração. Contudo, as pessoas dizem: "Mil amigos não é demais, mas até mesmo um só inimigo é supérfluo."

Nosso texto também pode ser interpretado como "Faça de si mesmo um mestre". Por que sempre ser um seguidor? Por que se resignar à posição inferior? Vá à escola. Estude mais. Ascenda em sua profissão, seu negócio, sua comunidade. Caso você viva numa comunidade onde haja poucos observantes do Shabat, poucos judeus conhecedores da Torá, assuma você próprio a liderança. Prepare-se e amplie seu conhecimento. Torne-se um mestre. E, se fizer isto, se você se mostrar um indivíduo preocupado com seus companheiros, interessado no bem-estar deles e preparado para dispensar tempo e energia liderando-os, então você "comprou amigos". Aquele que está pronto a investir no bem-estar dos outros encontrará reciprocidade ao seu interesse.

 

E julga todo homem com indulgência

 

A justiça é simbolizada por uma balança com dois pratos. Quando o peso da evidência mostra que uma pessoa é culpada, ela é declarada culpada. Contudo, quando os pratos estão em equilíbrio e nós realmente não sabemos se é culpado, então é dada ao homem o benefício da dúvida. Incline-se para o lado meritório. Julgue-o caritativamente.

Assim como acontece com a expressão Col Israel ("todo Israel"), o termo Col adam ("todo homem") também pode ser traduzido como "o homem inteiro". Se você quiser encontrar algum mérito numa pessoa, julgue-a como um todo. Você certamente encontrará alguma característica redentora, alguma realização louvável, algum traço de caráter digno de elogio.

O sábio Rei Salomão observa: "Em lugar de justiça havia maldade." O Malbim comenta: A limitação inerente às nossas instituições de justiça é que elas só podem julgar o ato, e não o homem. Quando um indivíduo é acusado de um crime, isto - e mais nada - é considerado. Raramente são levadas em consideração as suas boas ações. "Em lugar de justiça há crime", e mais nada. A nossa Mishná, porém, nos impele a moderar o julgamento com uma perspectiva proveniente da visão da personalidade como um todo em todas as suas facetas.

Existe um princípio básico amplamente aceito através da literatura rabínica, que afirma que o mesmo critério geral usado por um indivíduo em relação aos outros será usado pelo Céu para com ele. "Pelo mesmo padrão que um homem usa para medir - por este mesmo ele será medido." Por conseguinte, aquele que se recusa a perdoar os outros por seus insultos, dificilmente pode esperar que o Céu o perdoe por suas transgressões. De modo semelhante, quem julga seus companheiros benevolentemente pode ter a esperança de ser julgado desta forma.

Uma vez, o Baal Shem Tov estava sentado com seus chassidim, quando entrou um pobre homem ignorante. O Baal Shem imediatamente o convidou para a cabeceira da mesa e se sentou a seu lado. Surpresos, os discípulos lhe perguntaram por que havia concedido tamanha honra a uma pessoa desconhecida e ignorante, vestida em andrajos. A cabeceira da mesa certamente não lhe correspondia.

O Baal Shem respondeu: "No mundo vindouro, eu também vou querer um "lugar" próximo à cabeceira e certamente me será indagado em virtude de qual mérito eu deveria merecê-lo. A única resposta que terei para dar será que, certa vez, eu concedi o lugar de honra a um homem sem modos ou erudição e dei-lhe o lugar de honra."

 

 

Capítulo 1 - Mishná 18

O Raban Shimon ben Gamliel diz: O mundo existe graças a três coisas: a verdade, a justiça e a paz; pois foi dito: "Que a verdade, a justiça e a paz reinem nas vossas portas."

Em que sentido este dizer difere do anterior (Mishná 2), que declarava que o mundo se mantém sobre três coisas: Torá, avodá e guemilut chassadim - a Torá, o serviço Divino e a beneficência?
Observe que, em vez da palavra omêd ("se mantém") da passagem anterior, temos aqui caiám ("existe"). A primeira passagem descreve os três valores que constituem o propósito da existência do mundo - o mundo foi criado para que Torá, avodá e guemilut chassadim venham a ser realidades na vida humana. Mas o mesmo mundo somente pode existir, ser mantido e preservado se as condições de verdade, justiça e paz prevalecerem.

Outras interpretações foram apresentadas, encarando esta Mishná como complemento da anterior: Tendo vivido em época posterior ao Segundo Templo, quando a avodá, no sentido clássico de culto com sacrifício, não era mais possível, o Raban Shimon ben Gamliel sugere-nos substitutos que se encontram disponíveis para o lugar das oferendas e sacrifícios.

Quando praticamos justiça e sustentamos a Lei estamos, de fato, aprendendo as lições de chatát - a oferenda de pecado - e asham - a oferenda de culpa -, que refletem responsabilidade moral e castigo justo. Oferendas que eram trazidas como donativos livres ou cumprimento de uma promessa - nedarim e nedavót - nos ensinam a inviolabilidade de uma palavra, de uma promessa ou de qualquer expressão da verdade. E se uma pessoa cultivar a paz irá, assim, exem­plificar o simbolismo de sheleamim - a oferenda de paz - e todá - a oferenda de ação de graças.

Portanto, diz o Raban Shimon ben Gamliel, se desejarmos hoje cumprir o ditado original de Shimon, o Justo, devemos praticar a justiça, a verdade e a paz; elas irão substituir as oferendas perdidas da avodá original.

Podemos também dizer que este ensinamento sugere as qualidades específicas com as quais se deve observar os caminhos de Torá, avodá e guemilut chassadim. Nosso estudo da Torá deve ser verdadeiro; suas conclusões devem estar de acordo com a Lei e deve haver um interesse sincero pela paz. Nosso culto deve ser sincero; nossas orações devem estar corretas, do ponto de vista da Halachá, e devem obter harmonia entre o ser humano e seu Criador. Do mesmo modo, nossos atos de bondade devem ser verdadeiros e feitos com sinceridade; devem ser consistentes com nossas obrigações legais e devem ter a intenção de semear a paz entre o homem e seu semelhante.

Esses três conceitos de justiça, verdade e paz também são fundamentais no processo judicial. Primeiro precisamos determinar a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade. Não podemos nos basear em conjecturas ou na imaginação. Como Isaías relata a respeito do Messias, "Não julgará pela visão de seus olhos, nem decidirá pelo que escutarem seus ouvidos, mas com justiça julgará ao pobre, e decidirá com equidade pelos fracos da terra". A aparência e a realidade são frequentemente duas coisas distintas. O juiz deve ser capaz de enxergar além da superfície e determinar quais são os fatos do caso.

Em segundo lugar, a corte deve aplicar a lei objetiva e imparcialmente. Amiúde, a lei pode correr contra o que parecem ser os fatos. No Talmud, o Rabi Shimon ben Shátach conta: "Que eu veja a consolação de Sião com tanta certeza como eu vi alguém perseguindo outra pessoa, com a espada na mão. O outro correu para uma ruína e o perseguidor foi atrás dele. Eu os segui, apenas para encontrar o perseguidor com a espada em sua mão, o sangue escorrendo e o outro agonizando. Eu disse ao homem: Ó iníquo, quem o matou? Certamente, fui eu ou você. Mas o que devo fazer com você quando o teu destino não está em minhas mãos? Pois a Torá disse: "Por depoimento de duas testemunhas, ou de três testemunhas, será morto aquele que deve morrer; não será morto por depoimento de uma testemunha." É melhor deixar a cargo Daquele que conhece todos os pensamentos o exato castigo para este homem. E antes que o homem pudesse fazer um movimento sequer, uma serpente venenosa o mordeu, e ele caiu morto."

O Rabi Shimon estava tão absolutamente certo de que o perseguidor havia matado a vítima e, contudo, só havia uma evidência circunstancial. A lei judaica exige o depoimento de pelo menos duas testemunhas que tenham realmente visto o crime, para que uma pessoa suspeita seja condenada. A lei tem de ser absoluta para garantir que evidências circunstanciais nunca condenem um inocente.

Porém, tanto a verdade quanto a lei devem servir ao interesse da paz - paz em nosso meio ambiente social e harmonia entre os judeus e o seu Pai no Céu.

Depois que o Todo-Poderoso criara as terras secas, Sua próxima ordem foi: "Produza a terra ervas (déshe)." Se você quiser, as três letras da palavra déshe são as respectivas iniciais de din, shalom e emet - justiça, paz e verdade. Portanto, isto sugere que, se este mundo recém-criado desejava perdurar, deveria produzir primeiro déshe - justiça, paz e verdade. Na verdade, os nossos sábios declaram que o juiz que profere uma sentença baseado na verdade e na justiça converte-se - por assim dizer - em sócio do Santíssimo - bendito seja! - na obra da Criação.

Esta interpretação pode continuar sendo verdadeira para outro aspecto da palavra déshe. O Rei David, em seu Salmo 23, disse: "Far-me-á repousar em pastos (déshe) verdejantes." Isto poderia significar: O Todo-Poderoso me concedeu o privilégio de descansar num ambiente de justiça, paz e verdade.

Esta Mishná conclui com um texto comprobatório dos profetas: "Que a verdade, a justiça e a paz reinem nas vossas portas." Aqui, a palavra "portas" significa um símbolo da cultura e civilização humanas. Se você deseja continuar tendo "portas", ou seja, que a civilização perdure, você precisa ter verdade, lei e paz. Estas são as condições necessárias e suficientes para o homem manter relações inteligentes e significativas com o seu próximo. Estes são os alicerces da sociedade. Sem eles, as boas e viáveis relações entre os seres humanos se tornam impossíveis.


Prefácio

Introdução

 

Pirkê Avót significa, literalmente, "Capítulos de Avót". E o que significa Avót? Trata-se de uma seção, de um tratado do grande compêndio da lei e do saber judaicos, a Mishná.

Para o leitor que não esteja totalmente familiarizado com a Mishná, talvez seja melhor começar com uma descrição introdutória deste clássico milenar da literatura rabínica.

É crença fundamental do judaísmo histórico que a Torá nos foi dada no Sinai. O imortal Moisés recebeu-a do Todo-Poderoso, ensinou-nos a sua mensagem e entregou-a a nós, o seu povo. A Torá era constituída por duas partes: a primeira delas, o Pentateuco - ou os Cinco Livros de Moisés -, que chamamos de Torá shebichtav - a Torá Escrita. A segunda parte era a Torá shebeal pê, a Torá Oral, que continha explicações, interpretações e ensinamentos da Torá Escrita. A Torá shebeal pê não deveria ser escrita; era ensinada oralmente, como um complemento da Torá Escrita.

Moisés ensinou o sagrado livro da Torá, acompanhado de suas interpretações, a seu discípulo Josué. Este então ensinou-a aos anciãos, e eles, por sua vez, ensinaram-na a outros. Tudo o que era transmitido oralmente deveria ser repetido e repassado muitas vezes, assegurando-se assim que nada seria esquecido. Esta prática recebeu o nome de Mishná, palavra que significa um conjunto de ensinamentos e instruções

A Mishná tornou-se nossa Tradição Oral, transmitida pelos mestres aos alunos de geração em geração. Desde o início era proibido compilar por escrito qualquer parte desta Tradição Oral, por dois motivos. Primeiro, para que mestres e alunos se empenhassem a fundo, sempre por muitas horas, de modo a assegurar que tudo fosse perfeitamente lembrado e minuciosamente compreendido. Há uma descrição do que supostamente ocorre em algumas salas de aula nas universidades, que diz que "os apontamentos (escritos) do professor tornam-se os apontamentos (escritos) dos alunos, sem passar pelas mentes de nenhum deles". Com a Tradição Oral isto não podia ocorrer, pois não havia apontamentos escritos. Eles somente existiam na mente, na memória, no entendimento dos sábios e dos eruditos.

Em segundo lugar, temia-se que, se a Torá Oral viesse a ser transcrita, as pessoas passariam a pensar nela como parte integrante da Torá shebichtav e começariam a tratá-la como tal. Isto produziria uma grave distorção, já que ambas são de natureza e caráter completamente diferentes, e desta maneira devem ser encaradas dentro das normas do judaísmo.

Há cerca de mil e setecentos anos, porém, o Rabi Iehudá Hanassí ("o Príncipe", presidente do Bêt Din, o Grande Tribunal e, portanto, chefe de seu povo) deu-se conta de que sob as condições turbulentas de sua época, não era mais possível para professores e alunos estudar e memorizar adequadamente essa grande Tradição Oral. Pelo bem ou pelo mal, como se diz, ela deveria ser transcrita antes que fosse completamente esquecida. Várias gerações mais tarde, o Raban Iochanan e Resh Lakish vieram a possuir até mesmo um volume escrito de Agadot, com ensinamentos e exposições homiléticas que costumavam estudar aos sábados. Como justificativa, citavam um versículo das Escrituras Sagradas que apoiava sua prática, e afirmavam a necessidade de se ter a Tradição Oral por escrito "em vez de permitir que a Torá fosse esquecida pelo povo de Israel". Para eles, a Torá shebeal pê havia se tornado o próprio alicerce da Torá Escrita.

Como dissemos, o Rabi Iehudá Hanassí foi o primeiro (mas de modo algum o último) a violar deliberadamente a proibição da transcrição da Tradição Oral, de modo que "esta Torá não fosse esquecida por seu povo". Sua obra original chamou-se Mishná, e é estudada até os nossos dias. As gerações posteriores discutiram a Mishná, e seus próprios comentários e interpretações deram origem à Guemará. Ambas as obras - a Mishná e a Guemará - formam o Talmud.

Já nas Escrituras, a palavra Mishná tem um significado diferente: mishnê lamélech - "o segundo em comando" - é aquele que vem logo abaixo do rei, um tipo de vice-rei que serve como ajudante. A partir desta acepção, a Torá Escrita seria a "primeira", a principal herança Divina, e a Mishná, a "segunda em comando", aquela que acompanha a "pri­meira" para servi-la através dos comentários e explicações que contém

A Mishná está dividida em seis seções ou ordens. A quarta seção, Nezikim, embora trate principalmente de danos e compensações, procedimentos judiciais e direito penal, inclui também Avót, um tratado sobre valores éticos e conduta moral. Vale a pena nos perguntarmos por quê.

Um dos sábios do Talmud diz: "Aquele que deseja tor­nar-se um chassid piedoso e benevolente, que observe as leis de Nezikim", assegurando-se assim em não prejudicar a outros ou deixando de efetuar um pagamento devido. Mas outro sábio vai mais longe: "Aquele que deseja tornar-se um chassid piedoso e benevolente, que observe os ensinamentos de Avót."Isto significa que cuidar para não prejudicar a outros ou ressarcir danos causados não é sufi­ciente. Para ser um chassid, bondoso aos olhos de Deus e dos outros seres humanos, deve-se conhecer e seguir as sábias instruções e orientações contidas em Avót, um trata­do pequeno em tamanho e vasto em seu conteúdo de per­cepções e ensinamentos.

Explica-se assim a inclusão de Avót em Nezikim: depois de aprendida a prática referente às questões de perdas e danos, a dedicação às suas lições traria o próximo estágio de crescimento e desenvolvimento do caráter através da Torá.

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O nome Avót significa, literalmente, "pais", e pode parecer intrigante por que este termo dá nome ao tratado. O Rei Salomão disse: "Escuta, meu filho, a instrução (mussár) de teu pai." No curso de nossa história, a palavra mussár teve várias conotações, mas deriva basicamente da mesma raiz da palavra messorá, que significa "tradição" ou ensinamentos transmitidos de mente para mente, de coração a coração. Escutar o mussár do "pai" implica aceitar os ensinamentos mais tradicionais transmitidos pelos nossos sábios de abençoada memória, ensinamentos que passam de geração em geração desde o Sinai. Este seria o significado do termo Avót.

Na linguagem da Mishná, porém, o plural Avót e o singular Av têm frequentemente significados distintos. Em termos como av melachá (o trabalho principal), av hatumá (fonte original direta de impureza ritual), avót nezikín (principais tipos danos) e binian av (o estabelecimento de uma classe ou norma principal), a palavra av denota a fonte primeira, aquela da qual derivam as classificações e leis secundárias. Neste sentido, o título Avót informa que esta pequena obra contém os princípios fundamentais da ética, aqueles que norteiam nossa vida diária, princípios dos quais podemos inferir muitas coisas. Este conjunto de ensinamentos - talvez a própria essência do judaísmo - realmente forme a base de nossa conduta e é "pai" de uma série de diferentes códigos éticos e filosofias.

Ao mesmo tempo, é muito provável que Avót denote os "pais" do judaísmo - iluminados como Hilel e Shamai, Rabi Akiva e Rabi Tarfon, entre outros -, cerca de sessenta sábios no total, cuja sabedoria e os ensinamentos são apresentados ao longo dos capítulos deste trabalho. Estes sábios seriam nossos "pais", nossos patriarcas rabínicos na moral e na ética, assim como Abrahão, Isaac e Jacob são nossos Avót na Bíblia.

Na época dos gueoním tornou-se costume nas academias da Babilônia recitar e estudar um capítulo de Avót aos sábados à tarde, após o serviço de Minchá, como ressalta o Rabi Amram Gaón (século IX da era comum - e.c.) no seu sidur. Os gueonim conheciam uma tradição segundo a qual Moisés havia passado para seu descanso eterno num Shabat à tarde, nesse horário. Por esta razão, eles, os gueonim, incluíram os três versículos de Tsidcatechá Tsédec - "Tua retidão é uma retidão eterna..." - como uma oração de justificativa e aceitação da morte de Moisés. E tornou-se um costume acompanhar o serviço de Minchá com um capítulo de Avót para lembrá-lo, já que começa com o seu nome: "Moisés recebeu a Torá..." O Rabi Paltoi Gaón (século IX e.c.) deu outro motivo: O Talmud ensina que "quando um sábio morre, todas as casas de estudo e culto de sua cidade devem cessar suas atividades". Isto sugere que, em lembrança ao falecimento de Moisés, seria adequado não se dedicar a um estudo intensivo e concen­trado do Talmud, mas sim, aprender e rever Avót, mais fácil por natureza.

Das academias da Babilônia, o costume se difundiu para as comunidades judaicas de Ashkenaz - a França e a Alemanha de mais de 900 anos atrás -, e verificamos que é mencionado pelo Rabi Abraham ben Natan de Lunel (ibn Iarchi; século XII e.c.) em seu Sefer Hamán'hig. No Col Bo, uma obra anônima do século XIV, podemos ler que o costume variava entre as diversas comunidades: algumas estudavam o Pirkê Avót apenas no período entre as festas de Pêssach e Shavuót; em outras, os capítulos eram abordados em períodos diferentes ou, então, durante o ano todo. No Sidur Avodát Yisrael, por exemplo, publicado em Redelheim, em 1868, o autor, dr. Seligmann Baer, enumera nada menos do que três costumes diferentes praticados em comunidades alemãs.

Na Mishná propriamente dita, os capítulos de Avót são apenas cinco. Mas, uma vez que são seis os sábados entre Pêssach e Shavuót, aparentemente por esta razão foi acrescentado um sexto capítulo, ainda na época dos gueonim, quando o Rav Amram Gaón falou de "Avót e Kinian Torá". Este capítulo adicional, Kinian Torá - literalmente, "aquisição da Torá" - é uma beraitá, material muito semelhante a uma parte da Mishná não incluída originalmente na compilação feita pelo Rabi Iehudá Hanassí.

Desde tempos imemoriais, é costume nas comunida­des judaicas da Europa Oriental recitar e estudar Avót desde o Shabat posterior a Pêssach até aquele anterior a Rosh Hashaná, perfazendo um total de quinze sábados. Em cada um dos doze primeiros, estuda-se um capítulo; em cada um dos últimos três, estuda-se dois capítulos. Como a palavra hebraica para capítulo é pérec, "capítulos" seriam perakim, e "capítulos de" seriam Pirkê. Assim, a obra passou a se chamar Pirkê Avót ou simplesmente Pérec.

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Não é acidente nem coincidência que a época observa­da para este estudo seja, originalmente, aquela entre Pêssach e Shavuót. Em Pêssach celebramos a nossa libertação da escravidão no Egito, e partimos rumo à santidade, rumo à Torá. Não estávamos prontos, porém, para receber a Torá de imediato. Somente semanas mais tarde, já ao pé do Monte Sinai, é que pudemos recebê-la, e nós celebramos isto em Shavuót. Na linguagem simbólica dos sábios, em Pêssach assumimos o compromisso de "nos casarmos com a Torá"; em Shavuót, este "casamento" espiritual acontece por meio de um pacto eterno e irrevogável, da aliança com o Todo-Poderoso e Sua Torá. Como se sabe, o tempo de noivado, de compromisso, serve, na vida real, para que os noivos conheçam melhor um ao outro, preparando-se para a vida em comum. O mesmo acontece entre Pêssach e Shavuót. À medida que "contamos os dias", observando a Sefirát Haômer e esperando receber novamente a Torá do Sinai, nos preparamos através do estudo de Avót. É ele que nos dará uma ideia da grandeza, da maravilha e da profundidade da Torá, esta "noiva" espiritual única que vamos receber. A importância de Avót é tão grande que, sabe-se, a seguinte observação partiu de um erudito não judeu: "Para se conhecer os ideais da ética e da devoção rabínicas, nenhuma outra fonte facilmente acessível pode se equiparar a Avót."

Eu também acredito que não seja mera coincidência iniciarmos o estudo de Pérek na primavera, quando a natureza renova o grande ciclo da vida. É na primavera que as forças cálidas, vitais à regeneração, começam a se agitar e a fluir. Também o homem sente dentro de si o despertar de poderosos impulsos instintivos. Por isso é tão importante que ele ouça exatamente nesta época do ano as palavras dos nossos chachamim ("sábios"). São elas que o ensinarão a superar a tentação e a paixão, desenvolvendo sua força de vontade e controlando suas ações. O Pirkê Avót oferece mussár, a instrução que nasce da Torá e nos mostra como lidar com as vigorosas manifestações que chegam com a primavera.

Ainda assim, podemos nos perguntar se precisamos realmente desta instrução especial. Temos o Shulchan Arúch, um elaborado código de leis que define o bem e o mal, o justo e o injusto, em todas as circunstâncias práticas. E a própria passagem da Mishná que recitamos antes de cada capítulo de Avót proclama: "Todo o (povo de) Israel tem uma porção no mundo vindouro." Por que devemos, então, ter este mussár especial, este ensinamento corretivo?

A resposta é que o Shulchan Arúch - o código de leis sobre o certo e o errado - não é suficiente. A nossa meta não é simplesmente observar a Lei, embora isto seja importante e fundamental. O objetivo final da Torá é transformar o espírito humano e o caráter de cada um de nós em algo belo e Divino. David, o salmista, suplicou ao Todo-Poderoso: "Guarda minha alma, pois sou um chassid." No sentido clássico, chassid é o termo que define uma pes­soa de profunda bondade e devoção. Mencionamos anteriormente a receita de um sábio: "Aquele que deseja tornar-se um chassid, que observe as leis de Nezikin", as leis que tratam de perdas e danos. Em outras palavras, deve-se aprender da Torá como evitar causar prejuízos e como pagar adequa­damente o mal que se possa fazer. Mas, para outro dos nossos sábios, isto não é suficiente. Seu conselho para se chegar a ser um chassid é "... que observe os ensinamentos de Avót". O conhecimento e a observân­cia estrita da Lei não é tudo. O verdadeiro chassid é aquele cuja profunda devoção o eleva acima do sentido estrito da Lei. Se ele tiver a míni­ma dúvida de que possa estar enganado ou de que sua queixa potencial é duvidosa, preferirá dar a seu com­panheiro o benefício da dúvida a fazer uso de seus direitos legais. O verdadeiro chassid é aquele que superou sua natu­reza aquisitiva e olha mais além para enxergar o espí­rito da Lei.

Se você deseja atingir este nível de caridade e devoção e, assim, tornar-se um chassid, os ensinamentos de Avót lhe são essenciais.

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Muito bem. Os comentários anteriores explicam por que temos o Pirkê Avót. Mas, por que tantas ideias, interpretações e explicações são geradas pelo Avót? Não bastaria uma boa leitura do texto, seja em hebraico, seja numa boa tradução? Esta leitura não seria suficiente para a compreensão e a inspiração?

A resposta é sim, mas apenas em parte. Na visão profética de Jeremias, o Todo-Poderoso compara Sua palavra com "um martelo que despedaça a rocha", e o Talmud comenta: "Tal qual a rocha que se parte em muitos fragmentos sob o golpe do martelo, assim cada palavra do Santíssimo - bendito seja! - foi dividida em setenta expressões" - uma multiplicidade de significados e interpretações. Assim como a rocha se despedaça sob o golpe do martelo, diz novamente o Talmud, "um versículo das Escrituras Sagradas pode admitir muitos significados". Portanto, o Midrash diz, simplesmente, que "A Torá tem setenta aspectos".

A linguagem da Torá, tanto sob a forma escrita quanto sob a forma oral, é multifacetada e tem profundidades e níveis de significado insuspeitos. Se você tomar o "sentido literal", tomando-a apenas superficialmente, não verá o esplendor e a glória que oculta.

Em nossa literatura antiga de exegese e mística, toma-se a palavra PaRDeS para indicar quatro abordagens da Torá, quatro formas de explorar e extrair seus tesouros de significado. Com as quatro letras da palavra PaRDeS começam as palavras Peshat, Rémez, Derash e Sod, respec­tivamente. Peshat, o primeiro, seria o sentido literal, puro e simples do texto. Com Rémez, seguimos a estrutura sintá­tica e gramatical de um versículo, levando em conta que certas palavras possuem um significado simbólico ou metafórico. O Derash simplesmente omite a estrutura sintática de um versículo, e até mesmo ignora seu contexto, percorrendo a Torá em busca de significados apontados pela alusão e associação. Finalmente, temos o Sod, a leitura mais íntima e profunda de um texto, geralmente seguindo a concepção mística da Cabalá e atingindo um grau de profundidade do significado que vai muito além dos anteriores.

Não é por coincidência que PaRDeS - a palavra formada pelas iniciais das quatro palavras citadas no parágrafo acima - signifique, literalmente, horta ou jardim. Esta tradução simboliza a exuberante riqueza de pensamento e inspiração que pode surgir dos textos sagrados, se soubermos como cultivá-los e como colher os frutos mais difíceis de alcançar.

Podemos dizer que também não foge ao normal a suposição de que um texto tenha diferentes níveis de leitura e aspectos distintos quanto ao seu significado. Con­sidere uma simples tonelada de carvão, por exemplo. Para uma pessoa comum, ela significa exatamente isto - 1000 quilos de combustível negro. Este tipo de com­preensão seria Peshat. Para uma pessoa com inclinação religiosa, o carvão poderia representar uma expressão da Providência Divina: ao criar Seu mundo, o Todo-Poderoso dispôs que uma substância se formasse durante um grande lapso de tempo, de modo que os seres humanos pudessem ter calor e uma fonte de energia. Esta é a abordagem de Rémez.

Uma terceira pessoa, mais dotada, poderia descobrir certas propriedades químicas no carvão que possibilitariam convertê-lo em gás, substância mais fácil de armazenar em tanques e transportar para locais distantes, onde ele se faz necessário. Esta mesma pessoa pode ainda aprofundar-se nas pesquisas e aprender como converter o carvão em nylon, um produto com inúmeras utilidades na vida prática. Agora, pare e pense na imensa distância que separa um punhado de carvão de um metro de fibra sintética! Não obstante, pode-se demonstrar que um leva ao outro. Esta abordagem é análoga ao Derash.

Finalmente, surge um físico que se dedica a estudar a estrutura atômica do carvão. Ao provocar a fissão nuclear, ele libera uma parte da tremenda energia potencial contida no mineral. Este fenômeno é comparável ao Sod. Aos olhos de uma pessoa comum, o poder da fissão nuclear parece absolutamente misterioso, além de sua compreensão. Apenas um grande cientista com um vasto conhecimento técnico e pleno domínio dos mais sofisticados instru­mentos pode extrair a energia latente da substância. Analo­gamente, só os grandes eruditos, aqueles iniciados na sabedoria da Cabalá, podem inferir os surpreendentes significados ocultos que se encontram latentes e insus­peitos nas palavras da Torá.

É por meio da linguagem que procuramos compartilhar ideias e pensamentos. Mas as palavras e as orações são so­mente sinais e símbolos dos pensamentos. Os conteúdos abstratos e fugazes que ocupam nossas mentes são intan­gíveis, pois não podem ser tocados, capturados ou retidos. Ao usar palavras, fazemos uma tentativa inadequada de trans­mitir nossas noções, intenções e percepções. Mas sempre há algum matiz de significado, algum resquício inefável que não pode ser traduzido em palavras para alcançar, as­sim, a mente do outro.

Isto pode ser melhor assimilado se imaginarmos a verdade como um poliedro, a figura geométrica de várias faces. O observador jamais consegue ver todas as faces do poliedro ao mesmo tempo, não importa a posição que tome. É preciso que ele se desloque e se coloque em várias posições para conseguir enxergar todas as faces da figura - ou da verdade.

Por esta razão, pela multiplicidade inerente ao conteú­do, torna-se tão inadequada a leitura simples de um texto referente à Torá. O mesmo acontece com uma tradução literal desse texto. Para tentar chegar às alturas, precisamos sondar as profundezas do pensamento dos nossos eruditos e mestres. Seus ensinamentos, brindados pela luz da Di­vindade, nos trazem a versão oral da Torá em seus inúmeros níveis de significado.

Todas as afirmações no Pirkê Avót têm uma infinidade de explicações e conotações distintas. Em seus comentá­rios, gerações posteriores de eruditos encontraram ricas nuances de significado em cada expressão. Para compreen­dermos e apreciarmos a riqueza espiritual e o tesouro que constitui Avót, devemos buscar os diferentes aspectos de significado em cada uma de suas passagens.

Este é precisamente o objetivo do trabalho que você tem nas mãos. Nele, cada passagem do Pirkê Avót é inter­pretada e explicada demoradamente de diversas maneiras, para que a compreensão se dê da forma mais completa possível.

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Vivemos numa época em que o mussár, o ensinamento ético, é considerado ultrapassado; uma época em que o castigo, a advertência e a crítica moral construtiva são considerados de mau gosto, onde o autoquestionamento e a busca do aperfeiçoamento religioso são vistos como ofensivos. Nos vemos aceitando passivamente um princípio basicamente anglo-saxônico: "Cuide de seus próprios assuntos" ou "se vir alguém fazendo algo errado, não interfira; isto não lhe diz respeito".

Nada poderia ser mais contrário à abordagem judaica. "Todos os judeus são responsáveis uns pelos outros." Esta é a nossa regra fundamental e primeira, enunciada e repetida no Talmud e no Midrash. Na visão eterna e infinita da Torá, o povo judeu é uma unidade orgânica. Todas as suas partes, divisões e integrantes são responsáveis uns pelos outros. O que afeta a um judeu, afeta a todos. Rejeitamos o cinismo impiedoso e cruel de Caim, que pergunta: "Acaso sou eu o guardião de meu irmão?"

Se nosso propósito fundamental na travessia da vida é buscar desenvolvimento e crescimento pessoal através da ética e da moral, é vital que possamos aprender - e ensinar - mussár. Somente assim chegaremos a alcançar, ao lado dos nossos irmãos judeus, o aperfeiçoamento de nossa espiritualidade. É obrigação de cada um apontar a um vizinho um possível erro de conduta, ajudando-o a evitar o pecado e suas trágicas consequências.

Nas Escrituras Sagradas lemos: "Quando encontrares o boi de teu inimigo ou seu asno, perdido, devolvê-lo-ás." Mesmo que o proprietário deste animal seja seu inimigo, é obrigatório, segundo a Lei, que você o resgate e o devolva. "Hashev teshivênu lo", diz a Torá, literalmente repetindo o verbo: "devolver devolvê-lo-ás para ele". Segundo os sábios do Talmud e do Midrash, isto significa que mesmo que o animal continue escapando, mesmo que isto aconteça quatro, cinco vezes, você deve sempre devolvê-lo ao dono, ainda que este mantenha com você uma relação de inimizade.

Vamos supor que, em vez do animal de propriedade de um inimigo, você encontrasse perdido algo ainda mais valioso, desta vez pertencente a um amigo. Certamente, não mediria esforços para devolver o bem ao seu dono. E se fosse o próprio amigo aquele a se perder pelos caminhos sinuosos da vida? Quão maior não deveria ser sua preocupação, sua profunda obrigação, de fazê-lo voltar à trilha correta?

Nossos profetas nos lembram que temos a obrigação de vestir aquele que está nu. Considerando que somos todos filhos de um mesmo Pai e que, na condição de seres humanos, possuímos a mesma dignidade inata, pois fomos criados à Sua imagem, temos esta obrigação para com qualquer membro da família humana que seja demasiado pobre para vestir-se por seus próprios meios.

Pelo mesmo princípio, se encontrarmos alguém desprovido de direção e de fundamentos religiosos, alguém empobrecido, despojado de uma percepção superior, não temos a obrigação de "vesti-lo" com nossas mitsvót? Quando sua alma se encontrar em julgamento, diante do Criador, ele estará despido de realizações espirituais - a menos que lhe ofereçamos ajuda e orientação agora. Nós certamente compartilharemos de sua culpa, se não o ajudarmos a adquirir as preciosas vestimentas do espírito, confeccionadas com os fios das boas ações e da fé inabalável.

Devemos nos desfazer da fria indiferença que nasce do egoísmo e da insensibilidade. Vamos adotar, em seu lugar, a conduta judaica de responsabilidade para com o nosso próximo e de profunda preocupação em relação ao nosso povo. Desta forma, retornaremos ao mussár, a sabedoria e ciência moral que devemos aprender e ensinar. 

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Ao publicar este trabalho, não procurei ser original. Procurei, sim, apresentar o mussár que recebi dos meus guias e mentores, as "boas palavras" que me imbuíram de um forte reconhecimento e apreciação da nossa herança espiritual.

Fui muito afortunado por aprender o mussár em toda a sua pureza com os mais inspirados e iluminados mestres, rabinos e autoridades da nossa época. Tive ainda o privilégio de transmitir esta "boa doutrina" em conferências anuais sobre o Pirkê Avót durante os últimos quarenta anos.

O presente trabalho está sendo publicado com base nestas conferências, na esperança de transmitir este mussár - esta "boa doutrina" - a um número cada vez maior e mais receptivo de leitores. Se ele servir para transmitir alguns dos nossos princípios e valores mais caros, as verdades da ética e da moral que temos acalentado e valorizado como tesouros desde o Sinai, ficarei agradecido à Providência misericordiosa pelo zechut, o privilégio, que me foi conferido.


Comentários

Prefácio dos editores brasileiros

 

Por que e para que Pirkê Avót?

 

Sonhei.

Sonhei que estava no futuro.

Um futuro próximo ou distante?

Não sei.

Sei apenas que, nele, as galáxias se empenhavam numa guerra universal.

E, no planeta Alfa da galáxia Beta, dois guerreiros receberam suas licenças para o fim de semana. Aproveitaram-nas para sair num passeio a bordo de um disco voador. Afastaram-se dos caminhos conhecidos e perderam-se no infinito do espaço.

Depois de muito vagarem, avistaram ao longe um ponto - um ponto que não constava dos mapas estelares conhecidos. Aproximaram-se mais e mais, e viram que se tratava de um planeta. Resolveram explorá-lo e, quem sabe, conquistá-lo. Assim, retornariam como heróis à sua galáxia.

Pousaram o disco voador e, ao abrirem a porta, depararam-se com uma cena que lhes pareceu incompreensível: lobos e cordeiros pastavam juntos, e uma criança deles cuidava.

Apuraram os ouvidos para o troar das batalhas; buscaram com olhos atentos sinais de exércitos em luta. Mas o silêncio era total, e ninguém mais podia ser avistado.

Uma larga estrada cortava a relva macia e parecia levar a uma casa distante. Os guerreiros de Alfa então resolveram investigar o que acontecia ali.

Ao chegarem à casa, abriram a porta e viram um grupo de pessoas sentadas juntas, em silêncio. Eram brancas, pretas, vermelhas e amarelas, e suas fisionomias refletiam paz e felicidade.

Diante desta cena inesperada, os guerreiros comentaram entre si: "Vamos lançar nosso brado de guerra e desafiá-los. Alcançaremos então uma grande vitória que produzirá o medo em todos os habitantes do planeta. Então, o conquistaremos!"

Emitiram seu grito de guerra e fizeram gestos agressivos.

Algumas pessoas se levantaram e se aproximaram deles. Perguntaram: "Quem são vocês?", e eles orgulhosamente responderam: "Nós somos guerreiros do planeta Alfa, que está na galáxia Beta, e somos invencíveis. E vocês, o que fazem aqui? Onde estão seus guerreiros?"

A resposta que receberam lhes pareceu altamente enigmática: "Não temos guerreiros, e estamos aqui rezando", disseram as pessoas.

"Como vocês podem rezar sem ter um líder que lhes diga a quem amar e a quem odiar?", perguntaram os homens de Alfa.

"Nós acreditamos que esta seja a melhor maneira de rezar - brancos e pretos, vermelhos e amarelos, lado a lado, dando graças em seus corações ao Deus de sua fé."

"Estranho... E vocês não têm guerreiros? Não têm heróis? Como vencem suas guerras?"

"Não temos guerreiros porque, aqui, uma nação não se levanta contra a outra, e não mais se conhece a arte da guerra. Transformamos nossas espadas em arados, e nossas lanças, em foices. Como vocês devem ter visto, lobos e cordeiros vivem próximos e têm uma criança por pastor."

"Que planeta estranho", disseram os guerreiros. "É inacreditável! Nunca poderíamos imaginar tal coisa... Que nome ele tem?"

"Tempos atrás, resolvemos mudar seu nome. Antes, chamava-se planeta Terra. Mas agora, seu nome é SHALOM (Paz)."

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Ao acordar e ler as manchetes dos jornais da manhã, não pude deixar de pensar em como seria possível transformar esse sonho em realidade, uma realidade certamente ansiada por muitos.

Seria preciso que os habitantes do nosso planeta evoluíssem até chegar a um nível de comportamento ético do qual estamos muito distantes.

Ocorreu-me uma frase do profeta Miqueias: "O que espera de ti o Eterno senão que saibas amar com misericórdia, agir com justiça e seguir com humildade Seus caminhos?" Uma filosofia de vida aparentemente muito simples, mas como alcançá-la? Como transformar cada ser humano para que estas sejam as suas normas de vida?

Busquemos a orientação no Talmud.

Nele, encontramos a seguinte recomendação de um sábio: "Aquele que deseja tornar-se um chassid, que siga as leis de Nezikin."

Este livro trata de perdas e danos, e determina de que forma devem ser feitas reparações precisas, na eventualidade de que se venha a causar prejuízo a alguém, evitando assim algum dano definitivo.

Outro sábio, entretanto, afirma que "aquele que deseja tornar-se verdadeiramente piedoso, que cumpra os ensinamentos de Avót."

Não basta evitar injúrias ou fazer reparações quando, mesmo que involuntariamente, causamos prejuízos a alguém com nossas ações. É preciso termos um padrão de comportamento ético tão elevado que, antes de nos arriscarmos a acarretar algum tipo de dano a quem quer que seja, prefiramos ser nós mesmos os prejudicados.

O tratado de Pirkê Avót, que reúne pronunciamentos de mais de 60 sábios do Talmud, aprimora através de seus ensinamentos o espírito de quem os estuda e adota como norma de vida de uma maneira tão profunda que o estudioso acaba por se tornar um chassid.

É preciso esclarecer que o sentido da palavra chassid, neste contexto, não diz respeito ao seguidor de alguma das correntes do movimento chassídico, mas sim, a alguém que exige de si mesmo muito mais do que lhe é solicitado pela Halachá, a lei normativa judaica. Uma pessoa de extrema benevolência. Uma pessoa merecedora do respeito e da admiração de todos e das bênçãos do Eterno. O Rei David pedia ao Eterno: "Proteja-me, pois sou um chassid." Seriam os ensinamentos de Pirkê Avót capazes de nos orientar na transformação de nossas vidas para que cheguemos ao ponto de poder falar desta forma ao Eterno?

Vale a pena conhecer este pequeno, porém profundo tratado de ética e verificar até que ponto ele pode tornar cada um de nós uma pessoa melhor, um ser humano de valor, alguém que possa alcançar a dimensão necessária para, com sua contribuição, fazer deste um mundo melhor.

Bastaria, talvez, apenas ler os pronunciamentos dos sábios que foram escolhidos para compor este livro. Para que um lauto volume de comentários?

Costuma-se comparar a verdade a um poliedro, pois não se pode ver simultaneamente todas as suas faces. Da mesma forma, não se pode perceber, à primeira vista, todos os componentes da verdade. Cada um de nós vê um aspecto diferente, de acordo com a posição adotada para a observação. Mas se "juntarmos" nossas percepções, poderemos então alcançar o pleno significado daquilo que está à nossa frente. Eis aí a razão para o grande número de comentários ao Pirkê Avót. Reunidos, eles nos permitem a compreensão de sua essência.

Entre os muitos livros já escritos sobre este tratado talmúdico, "Ethics from Sinai", de Irving M. Bunim, é aquele que resultou de concorridas palestras proferidas pelo autor ao longo de 40 anos, depuradas e ampliadas pelas perguntas levantadas por seus alunos e as respostas apresentas, plenas de um conhecimento só alcançado por quem pratica o que ensina. A decisão da Editora Sêfer, que ansiava por publicar uma obra sobre o Pirkê Avót em português não poderia ser mais coerente e acertada.

Talvez as notícias dos jornais não mostrem o comportamento dos chassidim. Mas, por mais difíceis que sejam os tempos, por mais que os costumes tenham se deteriorado, nunca deixaram de existir pessoas cuja vida espelha as lições do Pirkê Avót - pessoas que nunca chegam às manchetes dos jornais.

Isto também pode ser transposto para a história do Brasil. Há uma tradição de princípios morais de destaque, como, por exemplo, aqueles observados no episódio da Inconfidência Mineira, que encontram paralelo nos ensinamentos desse nosso breve tratado talmúdico. Os inconfidentes não pretendiam apenas tornar o Brasil um país livre. Desejavam, sobretudo, lançar as bases para uma pátria justa, onde todos tivessem a oportunidade de trabalhar e viver em paz e liberdade, tanto os aqui nascidos quanto os que vieram de terras distantes, adotando o Brasil como sua nova pátria.

Tomáz Antônio Gonzaga escreveu do exílio para sua amada Marília:

 

"O ser herói, Marília, não consiste em queimar impérios.

Move a guerra, espalha o sangue humano e despovoa a terra,

Também o mau tirano.

Consiste o ser herói em viver justo,

E tanto pode ser herói o pobre como o maior Augusto." 

 

Que este livro, agora lançado em português, reforce em todos nós, brasileiros, judeus e não judeus, os princípios éticos e morais mais elevados dos ensinamentos de Deus. Que Ele abençoe a todos e que nos permita alcançar o dia em que nosso planeta também possa ter o nome SHALOM.

 

David Gorodovits

 Jairo Fridlin


Avaliação dos Clientes

    • Excelente!!!!
    • 14 de abril de 2017
  • Paulo Cardoso
  • recomendo este produto
  • Tenho recomendado a muitos amigos.

    • Ensinos do povo judeu
    • 13 de janeiro de 2017
  • Glauber
  • recomendo este produto
  • Comprei esse livro. Muito bom, tem muitas explicações dos sábios do povo judeu sobre diversos assuntos, recomendo.

    • gostei muito
    • 18 de outubro de 2012
  • anônimo
  • recomendo este produto
  • Recomendadíssimo!

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